quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Diário Dos Arruinados- VII






Este Mundo carrega um fardo ao qual tanto me identifico.

Sou pesado, demasiadamente pesado, como se todo o ser fosse corporeamente construído de aço inoxidável, em que nada entra, nada fica.

Só um peso sem mensuração.

E depois vem a incompreensão, como posso explicar aos que amo, que de facto os amo, mas que não sei de todo como lhes mostrar?

Como representar em gestos peremptoriamente despreocupados, desregradamente leves, sem nada mais acrescer, se precisamente o acréscimo é tamanho?

A rigidez não vem, não a faço. Advém da impenetrabilidade, do imutável rochedo em que me fiz.

Um rochedo onde abrigo á disposição de quem assim procura, Procuram o que não encontro!

Sendo eu mesmo esse abrigo, quem a mim me abrigará?

Quem fertilizará as terras destas montanhas imensas, desenhadas num corpo imponente, sem saberem a sede que tenho da chuva que não cai?

E quando cai, nos dias de sorte, o solo não se abre a ela, resseque-a e esta foge apavorada.

Abafo-a. Castro-a. Quando tanto a necessito, tanto a quero!

Como lhe demonstrar que está errada, como lhe mostro este todo amor?

Rendendo-me?

Fazendo da insegurança o meu seguro de vida?

Sujeitando-me permitirei um momento de tresloucada sanidade?

Se quero amar, tenho que chamar até mim e deixa-la entrar, rendendo-me.

Quando os pingos caírem de novo, ao molharem-me com a sua bênção, sentirei a aragem de um pássaro livre nos céus, rejubilarei como uma pérola no mar, ficarei enfim leve.

O peso é apenas roupagem, vestuário que me cobre as linhas do corpo.

Tenho que me despir.

Tenho que me Render.





Sarah Moustafa

1 comentário:

  1. É difícil erguer a bandeira branca, mas por vezes é a única forma de ganhar a guerra...!

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