quarta-feira, 29 de março de 2017

( . . . )


O acaso ou o particular ,
O momento certo,
O flutuar de uma mera coincidência
O imutável peso de uma sentença,
O levanta-te
porque de certo tropeçarás ,
A estrada a direito,
De encontro ás ondulantes curvas perigosas,
O acidente de que não te queres culpar,
Porque faz parte, acontece...
O deixa o Sol entrar
Porque a noite é certa ,
Tão intimamente tua,
terás de contigo a levar.
A memória que se desenlaça
E aperta nó
No futuro que se constrói
E a ponte que terás de atravessar,
O reflexo fosco de um espelho
que devolve a imagem
Mas terás de a negar .
O amor que se cospe
No chão sagrado
Onde joelhos feridos continuam a rastejar,
Tentando um Deus diferente
Cada dia, descobrindo uma nova forma de orar
Que bíblia me purga da culpa ,
De fertilizar sonhos que acabarão por me matar ?
O caixão sem um corpo pelo qual chorar.
Um ventre vazio
sem uma nova vida , uma semente que possa brotar ,
O relógio que avança sem horas
O medo que aprisiona
A paixão que cega
A raiva que controla
A música que emociona...
O sangue que escorre,
Ainda tão vermelho vivo.
No poema
que nunca é o ultimo.
E se torna
sempre o primeiro.






Sarah Moustafa



segunda-feira, 27 de março de 2017

Juro , encontrar-te-ei .



Ás vezes , a sede de sangue toma posse.
E quero matar-te com a mesma lâmina funda
com que me deixaste.
Quero ver as tuas entranhas e ter a confirmação
que elas estão totalmente podres.
Quero gritar de liberdade ,
sentindo a tua vida escorrer-me pelas mãos.
Quero que a raiva me cegue,
que rebente um escândalo,
porque só podes ser o vilão,
a terrível personagem,
o culpado de todo o mal...
Porque se és humano.
e também me amas,
e amando ainda assim
me destróis ,
não consigo
aguentar,
não sei porque ponta pegar ,
E a raiva cresce,
os tumores da tua doença
tornam-se meus,
Não és nada, mísero ,
pequena alma.
Mas sou eu que acabo.
Sou eu que me desfragmento...
Em mil cacos
No espelho onde não consegues te olhar .
Reza,
para que eu não descubra,
que isto é tudo uma grande mentira.
Que afinal,
sou eu a luz dos teus olhos
eterna menina.
Porque se sou,

Eu vou aos confins do inferno,
encontro-te,
demore o que demorar.
E desfaço-te  ,
no mesmo pó com que levaste todos os meus sonhos.
E respirarei de novo,
nas cinzas que caírem do teu nome,


Juro.






Sarah Moustafa


sábado, 25 de março de 2017

Vice-Versa



Como gostaria de dar voz
ao silêncio arrastado dos meus sentidos.
Gritar a plenos pulmões
sobre a extensa noção de infinitude a que me remetes.
O eco bravo viajaria pátria a pátria,
Rodando sobre o eixo de um globo sem fronteiras

Mas a vida terrena, castiga .
Encolhe-nos, limita e bloqueia
Arrasta montanhas ,  cava fossos
Envelhece-nos, estupidifica-nos,
regredimos e não abrimos asas
Voos de liberdade,
vivência absoluta do amor,
com toda a sua universal verdade.

Mas em todo este tempo que urge e nos testa,
que nos afasta e fere,
ainda sobrevives.
Ergues-te ! Superas- te ...
Expandes , sabe se lá como, a divina centelha.
Começa sempre com uma inútil e trémula letra
e não mais deixa de dançar,
num rodopio , num frenesim
Que nem sei justificar!
Círculos mágicos ,
Mensagens de um poeta atribulado !
Chama ardente de um visionário!
Palavras ganham vida , transportam luz
beijam sagazes a profundidade destas trevas!
Beijam-se , a alma parte-se em dois.
Despem-se,  volta a encontrar-se
Entrelaçada, Una.
O medo e a morte não são para nós.

De nós nascem puras e invioláveis sementes,
De grandes sonhos e magia.
De nós se erguem as forças opostas
Vice-versas
Nadas do mesmo tudo.
O sagrado e o profano
A cura e a doença
O apego e todo o desprendimento,
Um pai que se segura no colo da sua criança carente
E chora tanto com ela...

De nós pouco mais saberão
Do que aquilo que o mistério sabe de si.

Como gostaria de poder explicar...
O que não consigo.
As raízes do sentimento foram firmadas
No Monte Olimpo .
E como gostam , os deuses, de segredar sobre nós ...

Tanto tempo passado...
Como se nem uma página ele tive tocado.

Tenho-te em mim , escrevo-te.
Tens-me em ti, lês-me.
Para & Sempre.

O fim é só o inicio.







Sarah Moustafa

quinta-feira, 23 de março de 2017

Em memória da grande fé que perdeu.


Hoje a chuva guiou-me ,
caminhei sonâmbula
á orla da floresta encantada
para onde me chamaste,
Caminhei encharcada por horas a fio ,
Não desisti, iria ver pelo menos a ténue sombra
De ti.

Tornou-se difícil andar,
A tempestade abateu-se forte,
A lama ganhou braços
puxando-me cruel debaixo de terra,
Impedindo-me
Querendo enterrar ,
a réstia de vida ,
Sobrevivente de guerra,
Albergada num refúgio secreto ,
Aguardando o fim deste pesadelo.

Os mantimentos acabaram.
E está tão doente...
As trevas não dão tréguas ,
No seu leito e voz moribunda
Está a tentar dizer algo...

E não consigo entender,
Estende-me a mão engelhada
Quer que a segure,
até ao fim.
Balbucia algo no momento
que um trovão estoura,

Penso... penso que está a pedir desculpa ,
por estar prestes a morrer,
Quando lutou até ao fim,
Por nos ver renascer.


Perdoa-a,
foi tão corajosa,
leva tua alma,
Mas é merecedora.

Foi tudo ,
tudo.
tudo.




Sarah Moustafa


quarta-feira, 22 de março de 2017

Câmbio



Quantas marionetas tentaram levar-te com elas ?
Quantas mais te visitarão amanhã ?
Preciso que tenhas o texto decorado!
O palco foi cuidadosamente preparado,
Tudo para a ilusão de um grandioso espectáculo!
Sorriremos todos em conjunto,
Mostraremos ao mundo como estamos felizes,
Na pequena e almofadada caixa, onde todas as noite adormecemos .
é uma escolha de dimensão pequena,
criamos resignados e propositadamente incultos,
Mas ao menos estamos seguros ,
Pertencemos a um grande rebanho,
Não precisamos de mais ,
Não estamos sozinhos, n-u-n-c-a,
Saber estar bem com o que se tem, é essencial.
Olha para ti, tão triste e sozinha
De que valem a centelha de milhares de sonhos ,
Está tudo escuro na mesma,
Ou a lealdade para com a verdade do teu coração ?
Que recebes de volta senão mais punhais
fincados na tua carne?
Ou a esperança que existe uma razão maior ,
Um universo que te acompanha e ama ,
Onde está a justificação
Para a maldade incompreensível
que subjuga e tolda quaisquer esforços ?
O mundo está doente, não o podes salvar
Vem connosco...vais acabar vitima da impotência,
Do fracasso que te consumirá
Aqui a folia das máscaras é garantida,
podes escolher seres quem quiseres,
Desde que desempenhes um papel.
Imagina o estrondo de aplausos ,
as reverencias , as oferendas
A relevância...
Apenas por seres tudo,
excepto autêntica,
Alma ?
é velha , decrépita...
Acredita em nós...

Porque demora tanto , conseguir aliciar-te ?
Não podes fugir,

Tudo está comprado.






Sarah Moustafa





terça-feira, 21 de março de 2017

Desencanto .




É dificil não sentir a crueldade de uma existencia que força despedidas,
rasga corações, apaga estrelas de tantos sonhos que nunca se realizam
Sentir esperanças emagrecerem num corpo onde os pés estão cada vez mais presos
A uma realidade que aos poucos vai perdendo encanto.
Claro que não deixou de existir beleza, o amor está em todo o lado
poemas ainda se escrevem pouco antes do amanhecer.
Claro que a mudança traz sempre algo de positivo, a vida não pára,
Ainda respiras , ainda sentes , ainda és capaz,
podes-te recriar continuamente.
Claro .
Mas e o durante?
E todos os dias até lá  ?
O que vai acontecendo contigo ?
O que fazes de ti e do peso absurdo que carregas?
Como não ceder á tentação de desistires ?
Todos os teus esforços caem por terra
Nada resulta, nada passa ...
Para além das tuas vozes, tem todas as restantes
Que dizem não estares a fazer o suficiente !
É difícil não te tornares um pouco cínico,
Amargo , ressentido, 
Tudo o que queres é expressares a verdade do que sentes
E nunca nada do que sentes , está certo.
Ou tens de regredir , ou avançar.
Mas eu estou aqui...
Um eclipse tomou me conta da alma
E não passa, 
Não vai embora.
E as horas pesam séculos
Os ossos doem,´
Caminhada solitária eterna,
E porquê ?
Porque nos destruímos ?
Porque somos horríveis seres humanos ,
Quando poderíamos alcançar tanto ?

Dizem que temos de aceitar o que a vida nos reserva.
Só que eu jamais me resigno ou conformo.

Como poderia?

é tudo tão, tão injusto...






Sarah Moustafa

segunda-feira, 20 de março de 2017

Não esqueças .




A solidão de uma perda que nada nem ninguém preenche,
abre buracos, vazio eterno
De uma ferida que durará para sempre
Pensei, não pode ser. 
Não pode doer mais, tem que acabar, tenho que despachar isto.
Arrumar tudo, fugir, partir para bem longe
Concentrar-me noutros afins,
Dar oportunidades a outros amores
Aceitar que a morte faz parte da vida
E eu ainda tenho tanta vida !
Mundos para conquistar , mensagens para partilhar
Sou demasiado nova para sofrer assim.
Enfrento o semblante de descrença,
Ninguem entende
Ninguem poderia...
Devia seguir conselhos,
Esquece ! Estás melhor assim!
Que exagero, muda,
Vira a página,
Isto são fantasias criadas na tua cabeça...
E torno-me cada vez mais só, 
enredada no incompreensível mundo desta conexão.
Existiu apenas um,
Existes apenas tu que soubeste ler-me
Compreender,
Abraçar-me nos espaços de abandono,
E lembrar-me todos os dias que estou aqui
para brilhar.
Por isso volto aqui, a esta casa
Escrevo-te de volta
Sem qualquer pudor
desenho palavras e símbolos nestas paredes , onde sei que do outro lado
me ouvirás.
Onde despejo os atrofios de um coração
desgastado que nunca te esquece.
Jamais... esquecerá .
Esperando que na minha certa loucura
A tua voz profeta me volte a guiar,


Porque foste absolutamente o pior e o melhor que já me aconteceu.

Podemos nunca encontrar o caminho de volta,

Mas ... somos imortais.


Choro.
Não esqueças.
Toco-te 
Não esqueças.
Beijo-te .
Por favor, não esqueças.













Sarah Moustafa

sábado, 18 de março de 2017

O oceano que tanto separa e tudo liga.




Nem a extensão ou a profundidade de todo este oceano
é suficiente para aliviar a sede de milénios por onde te procuro,
Tento beber da sua promessa , um dia isto terá de acabar
Continua tudo tão seco , crispado de um dia que o Sol 
Ousou descer dos céus,  convidar-nos ao seu núcleo de fogo , 
querendo trazer a promessa
Do caminho poético da luz e nos desfez em cinzas
eclipsando a ténue esperança que nos resguardou
No encanto musical das suas quimeras.
Dizem que o caminho se faz caminhando ,
olho para trás, tantas pegadas 
Que contam com estranha simplicidade
O tamanho desta história,
Preciso da telepatia , a ligação com o mar que nas suas profundezas
Nos vincula,
Cada ondulação é uma mensagem tua,
"Encontrar-te ei "
Inspiro a brisa inquieta , seguro a resposta o máximo que consigo.
Entrego-ta , devolvendo o sopro mágico ao caminho do destino .

" Eu sei"




quarta-feira, 15 de março de 2017

XÔ , podes te aleijar .



Dizem que cão que ladra não morde.
Mas...
Pode tentar.
Abro a porta, convido-o a entrar.
Nunca gostei de rafeiros mas tenho um fraco por causas perdidas,
Talvez se lhe tratar das feridas, ficarei também eu resolvida..
é mais forte do que eu, ou talvez escolha a dedo a força que preciso para me desculpar
Tudo em mim está errado,
Nao me curvo, arco iris maldito,
Demasiadas cores, demasiada euforia
Promessas e fantasias.
Não! Quero estar só no meu reino secreto...
Cão e Gato,
Não dá,
É preto , traiçoeiro , sempre disposto a por as garras de fora.
é tão triste,
como todos saem desfeitos,
Preciso deixar marca?
Infligir dor , beijar veneno
Nunca saber o que quero ,
Para receber de volta
O aperto no âmago, onde eternamente agonizo
Estarei viciada na dor ?
Sedada á constante perseguição do mesmo drama ?
Preciso de outro gole, um ardor perpétuo
Trepidação, afectos e arroubos loucos !
Preciso , mas não existe.
Ninguem quer arriscar a vida só para renascer no dia seguinte.
Então calem-se .
Não posso mais com latidos impotentes.

Sou perfecionista e valorizo demasiado palavras.

Parem de usá-las em vão.

Não estou bem....

Mas vocês estão piores, procurando cura

Na minha doença.








Sarah Moustafa

sábado, 11 de março de 2017

Páginas Incandescentes .



O enamoramento ....
palavras que deflagram como um beijo sem fôlego
Lê-las enquanto gotejam sentidas
Relê-las , porque uma vez não chega, apetece-me mais de mim
Aprender continuamente novas e prosaicas formas
De dizer quantas vezes me apetecer ,
bater forte na mesma tecla
Sem nada se desgastar, sérum da juventude eterna
Obsessiva , rir -me da controvérsia, queimar dicionários
Um sopro de magia , bafo quente que te murmura
enlaça-se tamanha inocência com sabor da tentação profana
Não sei onde estou, sonho ou pesadelo
Castigo ou redenção...
Desabrocham primaveras improváveis
recônditas páginas secretas e obscuras
Que só a devota paixão traduz .
Da cabeça aos pés uma extensa narrativa
Fascinio , medo, vontade cortante !
Auto-controle, cobardia, distância
É demasiado.... importante
Por dentro , algo diferente acontece...
Tão simples e ainda assim.. tão complexo

Um breve poema se escreve.

Ardo, morro, renasço. 
E procuro senão pelos sentido da verdade que dói .
E não imploro por absolvição,
Pois no inferno encontro a substância do meu paraíso.






Sarah Moustafa

quarta-feira, 8 de março de 2017

Como um enigma dança e nunca se revela.


Dizem que quando chegares...o véu cairá.
Se calhar não deves dar nem mais um passo.
Tenho medo
 Grãos de areia que nesta ampulheta mágica, 
Se vão dissipando
E
De todos os tremores que a terra nesse dia trará.

Se calhar....

É melhor nunca saber.
Nunca ter a certeza absoluta,
Da sentença inegável ,
Desse destino,
Que inebria metade desta humanidade,
e destroça outra

Na procura do mistério do que é de facto,

o Amor.

Toda a plenitude da existência ,
O sentido, o antídoto , a ressurreição...

Numa única palavra. 

E ainda assim tão perto chegamos, senão apenas
 A visão da silhueta dançante,
Inatingível  ,
No manto por onde nos entre olhamos ,
Tanto fascínio !
Goles de agonia !

Pelo segredo que o Universo

Em páginas de expressão cósmica, vela.

Por tantos milénios.







sexta-feira, 3 de março de 2017

Não vejo nada.



O pior cego é
Antes aquele que vê absolutamente tudo,
Antes do que seja vir acontecer.

E olhar para o lado, pretender, contar ate os números acabarem
Rezar aos mistérios que se escondem por trás do globo ocular
Suplicar,

Que não seja profeta e criador da própria miséria,
Que não consegue e não quer impedir,
Se o quarto estiver escuro, ninguém te vai ver ...
Apanhar e dizer que não está nada!
Porque estás a usar essa venda ?

Porque Deus nos livre ,
Da causa e efeito, dividas e recompensas
Perigos que não valem o risco,

E sobretudo,

Da cegueira mais ou menos escolhida.






Sarah Moustafa

quarta-feira, 1 de março de 2017

Atalhos para o mesmo circuito


A música devia estar gasta, a lição aprendida.
Pára de romantizar as pessoas!
São fantasias, danças no baile de máscaras
Palavras leva o vento, acções também já pouco contam
Abrem e fecham portas, saltimbancos, malabaristas
Amam-te, Odeiam -te,
Pegam fogo ao Circo
Desejam-te, Já não te querem
Colapsa, Torre de Babel
Nunca fomos amigos.
Saem da toca
Não! Ainda não é hora
Voltam a hibernar.
Deserto eterno sem sinal de um longínquo milagre
Precisam de ti,
Mas agora não é muito conveniente,
Quem disse que podias chegar tão perto de mim ?
És muito bicho do mato, metes-me medo...
Tira-me a camisa de forças...
Espera , Se calhar ainda é cedo
Aperta-a mais um bocadinho . . .
Deixa-me ver até onde vais
O disco está riscado,
E não pára de rodar ,
Pudera que não saibas o que é sonho , o que é real
Estás há quanto tempo ás voltas ?
Faz com que isto pare !
Mas...


Devagar...




Sarah Moustafa