sábado, 19 de janeiro de 2013

Diário dos Arruinados- II




A raiva sua de mim em pingos de torneira que corre sem fim, corre, verte-se, extrapola-se em agua de esgoto lamacenta.
Corre e escorre por todos os lados numa inundação sem fim, um todo alagamento insuspeitamente gerado.
Insuspeitamente? Diria que a suspeita sublinha em chamas a execução de tal autoria.
Talvez por ser um incêndio sem fim, um fogo que se alimenta de ar, que cresce as suas flamas com ele e por ele, que arde em seu consorcio, me veja rodeado pelo que mais temo, pelo único elemento capaz de me castrar. De tirar de mim o poder que ateia, que vida me dá!
Que culpa terei eu de ter nascido assim com toda esta energia? Que fazer do que assim é feito?
Não devemos aceitar precisamente o que somos?
O que Somos ou o que escolhemos Ser?
O como escolhemos utilizar a divindade deste chão pisar, destes céus sonhar?
Abusamos dela forçando-a a um excelso do que é ou enterramo-la em caixão de recolha a vida inutilizada?
Endividamos o ser em prol do ter, e porquê?
Não seria a comunhão de ambas significativa da tal aprendizagem, da tal evolução que almejamos Ter?
O Ter..Sempre o ter...
Até connosco mesmo nos Capitalizamos! 
Que evolução se predispõe neste sentido erroneamente perseguido? Dir-me-ão, erróneo apenas porque o digo, porque o acredito?
Não, responderei, porque o sinto.
Sinto-o em mim, sinto-o no mundo que me rodeia de companheiros, de irmãos, incapazes de ousar elevar esse mesmo sentir (Ser), materializando, fazendo! (Ter)
E brado um basta, ainda que o preço seja o do acido no estômago,o acre sabor na boca, o da raiva em bestialidade de viver idealizado ao ideal!
Que me importa se o sangue jorra nas pedras da calçada se no sossego jorra também? 
Que jorre em significância!
Sou guerreiro que brada aos sete ventos a mudança, que grita, empunha a espada por ela, e que mal tem?
Vem o maremoto em resposta, quer me silenciar, apagar, exterminar do mundo e sua guarida, quer-me levar por me insurgir contra este sistema que ate as vísceras agita.
Não fugirei. O enfrentarei. Nada mais acontecerá do que a morte de um corpo.

Sarah Moustafa

2 comentários:

  1. O sistema sempre nos aflige. Dói ele passar por cima feito um rolo compressor.

    Mas se olharmos bem no fundinho de nós mesmos, podemos ver que além de tudo temos traumas, escondidos na psique, que sempre estão a aflorar. Veremos então que os conflito não é só externo, está pra dentro também. E pra gente querer mudar tudo, requer pra ele se voltar.

    Abraço,

    Diego.

    ResponderEliminar
  2. Devemos ser sempre nós mesmos, embora isso muitas vezes implique a tal batalha que tão bem aqui descreves!

    ResponderEliminar