sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Dissolvência- Capitulo X ( Identidade)




Capitulo X
Identidade

A vida vivida em permanente tensão impressa as marcas visíveis, a quem observa, no comportamento ansioso e irritado em piques de energia que canalizadas de forma deficiente se mostram dessa forma aparente e fácil.
Mas as marcas profundas, escondidas na alma não são de todo de facilitado acesso, nem para quem as mesmas carrega, são fugidias, incontáveis e inconvenientemente desreguladas desconhecendo de todo a corrosão que provocam e a morte que elas mesmas sentenciam.
Não tem capacidade de pensar e reflectir no que fazem, apenas querendo agir a uma cada vez maior profundidade, fundura essa chegando ao limite que para tudo existe, destrói.
Mas se, e apenas se, não existisse um limite? Não existisse uma fronteira que outorgasse qualquer tipo de prévia assunção, definição e conclusão?
E se fosse um todo, um universo inteiro de possibilidades, uma galáxia, uma constelação, uma exígua estrela? E se fosse essa a única contingência a que responder, a que sofrer e aprender?
Issac curvava-se ao altar sideral, há não tanto tempo como desejaria ,mas aplicando-se na constância da inconstante, que aprendera a amar, a mudança que chega, chega no seu misterioso propósito e tempo. Sem celeridades ou retrocessos, apenas vem.
Sabia que aceitação de tal facto e seu ritmo não tinha sido fácil, nunca era, e talvez por isso se encontrasse ali, já depois de se ter superado no processo em si.
Por vezes confundia-se na organização dos pensamentos, gostaria de ter talentos de escritor, quem sabe ai a minuciosidade das palavras certeiras a que aplicar respeitariam um ritmo estruturalmente conciso. Após a brevidade do tipo de pensamento diligente, sorria no interior incrédulo com os meandros a que a mente o levava independente da sua própria personalidade, divertia-o a espontaneidade com que tal acontecia, e exactamente por acontecer. Por deixar acontecer, reconhecendo-lhe a importância. A diferença.
Sublinhava-lhe valor exactamente por só até recentemente o fazer, quando se elevara.
Abrira-se ao mundo e agora todo o mundo estava nele!
 A raiva, em tempos, gotejara de si em lento e excruciante compasso, vivendo no grau de dor pior que se poderia viver, a que ninguém conseguia ver, a que ninguém conseguia sentir, pois como poderiam? Se todo o seu ser era materialização da besta irascível, do homem condenado às animalescas clausuras de espicaças na carne e chicote na alma.
A fúria da incompreensão.
Repelira o amor e qualquer adjectivação semelhante, cuspia, pisava, assassinava o que de mero semelhante se lhe aproximasse.
Era maldoso, viciosamente mau, e orgulhava-se em desmérito e indignidade galardoada de assim ser.
Não sentia nada, nem a chuva no corpo ou o vento no rosto. Era absolutamente impenetrável, a epiderme que o vestia era de espessura dúplice e estranha.
Era mais um demónio na Terra.
- Eu não consigo perceber o que dizes… - Jade acenou negativamente o rosto, balançando as melenas longas e escuras com suavidade.
Isaac prescreveu-se de si mesmo observando a atribulação dos gestos dela, movendo se impaciente pelo salão. Nutriu-se de compadecimento desejando poder responder lhe com a clareza e limpidez da sofreguidão da sua sede, mas sabia que a nebulosidade teria de se adensar um pouco mais, só assim ela retornaria...
- Não tens que perceber. Tens de aceitar … - respondeu-lhe aproximando-se da luz resplandecente, desenhada na enorme vidraça, que eclodia de um todo radiante Sol,deleitando os dias com o seu cunho. – Aproxima-te… - pediu lhe paciente, fechou momentaneamente os olhos sentindo o ardor que lhe activava uma sensação indescritível agraciando todo o seu mundo interno.
Jade confusa atraiu-se á imagem do Homem, de quem nada sabia, sempre ausente de expressão, trancado no seu enigma, e que agora se relaxava num gesto ténue de comoção, aproximou-se como lhe foi pedido, não por assim o ser, mas porque a imagem daquele homem entregue á luz a fazia verdadeira e incompreensivelmente querer chorar. Este abriu a Íris magneticamente azul parecendo ligeiramente abatido.
- Irei ausentar-me durante algum tempo… -informou enquanto ela abria os lábios surpreendida.
- O quê? Tu disseste que não havia porta! Como assim vais te ausentar?
Este sorriu brandamente estendendo-lhe a mão, ela replicou no olhar hesitante e inquieto assombrada pela notificação.
- Eu disse que não havia porta de saída…não disse que não havia porta de entrada. – a macieza da voz etérea dele,  revolvia lhe o corpo indignado amansando a ansiedade contra os níveis em que deveriam de estar.
 Sem saber o porquê deixou se fluir ao toque estendido, perplexa olhou para as mãos de ambos engolindo em seco. Uma estranha corrente de qualquer tipo de energia invadia-lhe o corpo. Olharam-se em intensos fragmentos de instantes, sem nada dizerem, sem absolutamente mais nada fazerem.
Jade desviou o olhar largando-lhe de súbito a mão ao que ele reagiu em vácuo silêncio. A jovem deixou a vista perder-se nos minutos que restavam á visão que possivelmente ele tinha.
Fechou os olhos, cerrou-os mas pouco ou nada se tinha alterado. Mentira. Tudo já estava completamente desfigurado e desarranjado ela apenas não o queria receber, O desconhecido.
- Podes pelo menos dizer-me uma coisa?
Questionou em frágil tom ao que este anuiu secretamente expectante.
- Como te chamas?
- Eu posso nomear-me a um qualquer nome, a uma qualquer designação que aos teus olhos me identifique, mas apenas estando tu consciente disso, que nada passa do que um código de passagem...
Ela suspirou fundo no mar de pensamentos que lhe explodiam em petardos a cada segundo.
- Eu quero saber...
Ele alongou-se no suspense, afastando se da janela enquanto lhe respondia por fim:
- Isaac, O meu nome neste instante, é Isaac...

Sarah Moustafa

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