quarta-feira, 10 de abril de 2013

Diário dos Arruinados - XVIII





Querem-me forçar a tomar partidos, querem que bata o pé numa posição e esqueça fundamentalmente, que sequer existe um leque variado de tantas outras posições que tomar em conta.
Querem que seja decisiva, que escolha e pronto, não entendendo que o culmino dessa escolha, não depende da vontade pessoal e que a vontade não é imune aos estados de consciência e equidade.
O que me pedem é para deliberadamente ser injusta.
Para ser infiel ao tamanho de discriminação e capacidade de competência, como se tal fosse um automatismo dependente apenas do acto de carregar no botão de desligar.
A minha índole funciona como um corredor.
Sim essa divisão que separa o quarto da sala.
 Esse canal que separa e aproxima a distância entre os espaços, aquele por onde se passa e descansa quando não se sabe que paz dignificar. Aquele espaço que sossega um pouco a pressão e te permite apenas observar um lado e outro.
Porque na contemplação se extrai a verdade de muitas causas, e a mentira posta na verdade de muitas cláusulas.
Porque do miradouro se vê o mundo, o Céu e a Terra entre o Mar, com uns olhos recém-nascidos, virgens de prévias definições e imposições protocolares.
Porque da imparcialidade se prova o melhor sabor de ambos os mundos, e até no pior dos mesmos, se encontram similaridades inesperadas.
Querem que forçosamente seja actriz, que me active e aja conforme a vida lhes demanda, que lute e busque partidos de identificação, mas eu não quero ser actriz.
Não, eu quero ser espectadora.
Quero mesmo e não porque não queira fazer nada da vida, e não porque na inacção e passividade seja mais fácil de se estar.
Sorver cada segundo deste espectáculo de vida avassalador, atentando a cada cenário de ambiguidade, é quase mortificante. É angustiante ser consciente.
Fácil é escolher um lado, fixar um caminho ignorando a totalidade empregue do outro lado.
Fácil é tomar um partido e esquecer que as partes são feitas do mesmo todo.
Fácil é desconsiderar.
Difícil é o malabarismo. Difícil é pender o equilíbrio na desigualdade, e tentar por tudo que a balança não descompense o seu peso.
Difícil é ser imparcial, notando que a imparcialidade é a mais parcial de todas as verdades.


Sarah Moustafa

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