quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Dissolvência- Capitulo VIII - Incongruências



Capitulo VIII

Incongruências




Seria possível viver, sobreviver mais correctamente,  numa realidade paralela, diferente, onde a vida e a morte se unissem num laço indiviso, inseparável da costura invisível, mas corretamente presente, na mente descomposta, confusa no declínio da vida, dos momentos em babel, das trapalhadas irresolúveis, pesadas na sua irresolução, carentes, tremendamente carecidas de uma conexão forte, inquebrável, que parecia não chegar, não ser seu direito devido o de construir relações enraizadas, mas meramente, ser uma espectadora impassível da sucessão de acontecimentos que por Jade passavam, velozes, na lentidão própria da inercia vontade.
Deu por si a desejar, como nunca antes, voltar a essa rotina, voltar a monotonia dos detalhes que a mente atribulada conhecia e desconhecia, vezes sem conta, para na sua desventura de ter algo em que divinamente pensar, exercitar esse pensamento, sentindo-se na brevidade do segundo, preciosa na inteligência que almejava ter.
Havia aquela remanescência  doce da infantilidade ida onde a agitação febril se vertia nos papeis, escritos ao ritmo da imaginação, ao ritmo do descompasso da alma ainda tão tenra e tão inesperadamente gritante por ajuda, por salvação.
Os papeis, os cadernos amontoados, eram naquele tempo ido a sua salvação, o seu refugio secreto, onde tudo dizia, onde era tudo, e mais do que aquilo que era, onde era grande, suficiente e ouvida. Ouvida, porque se fazia ouvir, ler e reler nas entrelinhas da paixão pela vida, pela esperança que punha nela, de um dia poder fazer desse seu modo de viver, modo de sustento e sobretudo modo de alento.
No presente analisava-se como uma dissipada projecção de mulher, grande no corpo, mas cada vez mais diminuta no coração, que ousava afirmar sentir encolher nas pontadas da noite sofrida. A escrita insegura fora arrumada no baú da comiseração, consciente do valor que poderia ter, inconsciente da capacidade de vontade latente em si de materializar o talento que lhe fora dado,sucessivamente enterrado, velado,porque assim não teria de lutar, não teria de se afirmar, e como tal, destruiria o temor do sucesso que nunca iria ter.
Trabalhava desde o final do liceu, que concluiu com mestria no agrupamento de letras, e deixou-se flutuar, como sempre flutuava, para os livros de outros, para as estantes valiosas e poeirentas do conhecimento, arrumado e catalogado na Biblioteca Municipal.
Pensara com brevidade na importância daquele trabalho, era um trabalho, mal remunerado, mas pleno de leituras maravilhosas, com que sonhava diariamente, transpondo-a, quase, apenas quase, para a realidade que desejara realmente viver, mas para o qual, como sempre, lhe faltara todas as forças de vontade.
Sabia que era uma cobarde, sabia-o desde sempre e para sempre, mas ainda sim, preferia assim ser, e ás suas consequências, do que sentir aquele medo atroz de tudo o que lhe era de origem não familiarizada.
A retrospectiva do passado que não voltava era triste no decesso que o futuro lhe pintava, no infortúnio da incapacidade de se desmembrar de si mesma e das suas malogradas vivências, para um outro corpo de mulher feliz, resplandecente na leveza do idealismo optimista, de segurar as rédeas da vida com a tenacidade tremenda da mulher furacão, uma mulher como Débora, que tanto lhe importava por ser a única pessoa com que poderia falar aberta e imparcialmente de julgamentos e comentários maldosos... como se enganara!
E o pensamento desse engano vil, dilacerava-lhe as entranhas, tanto quanto a imagem de Gabriel morto, irremediavelmente ido, para sempre da sua vida extraído.
Estava demente, e se não estava para lá caminhava a largos passos, pois Gabriel tinha estado bem presente no seu apartamento, quando supostamente já se encontrava morto, a incompreensão dos factos, a falta de respostas, pesavam, como pesavam...Mas no fundo pensando na densidade dos pensamentos, haveria questão mais urgente que quisesse ver respondida, do que se realmente estava ali presente de carne e osso na realidade tangível que conhecia, ou se a sua tentativa de partir do plano desolado tinha de facto resultado, estaria então morta?
 O desespero voltou sobre a forma palpável, frenética, que o sistema nervoso não conseguia domar, com o peito insuflado de pavor, Jade levantou-se por fim, no arrojo do ultimo pingo de coragem, da cama desconhecida, onde acordara no repouso que julgara eterno. Observou os sapatos dispostos aos pés da cama, sem duvida alguém os tinha retirado e colocado ali, mas porquê?
O que queriam dela, o queriam fazer com ela? As pontadas no peito acentuaram-se desejando ardentemente estar no seu pequeno apartamento a chorar em prantos a sua desgraça, do que estar ali, naquele estranho sumptuoso quarto, de mobília pesada e antiquada, cujo pó já se havia entranhado ao longo dos anos, de tal modo que Jade conseguia sentir o seu odor.
Não havia janelas, era um espaço totalmente fechado, asfixiante, iluminado por um candelabro obsoleto onde três velas ardiam trémulas, em compasso com o seu próprio ritmo.
Calçou os sapatos oscilante no equilibro do corpo debilitado e sentiu todas as notas do horror a apertarem-lhe os ossos quando subitamente lhe pareceu ouvir passos a encaminharem-se certeiros para o espaço onde estava disposta, sem saber o porquê e quanto tempo tinha passado.
A porta abriu-se com um estalido, vagarosamente fazendo-a recuar ao máximo que conseguia retroceder enquanto um Homem que não conseguia identificar entrava lentamente sem a olhar, verificando apenas a chama das velas trémulas.
- Espero que tenhas tido um bom descanso... - Jade encostou se a parede na outra ponta do quarto engolindo em seco o medo que crescia em novelos, aumentado a níveis consideráveis pelo que acabara de ouvir daquela voz inesperadamente branda. Observou-o na brevidade do momento, era alto, vestia um simples casaco preto e calças de ganga e pareceu lhe, no estreitamento dos olhos em busca de pormenores, que era loiro.
- Por favor...senta-te. Não há o que temer... - A figura incógnita aproximou-se de si , mas a luz continuava demasiado parca para ela conseguir absorver os detalhes do rosto que lhe falava numa segurança estranha, impressa no vaticínio das palavras. Este voltou a recuar permitindo-lhe o espaço que parecia adivinhar que esta necessitava.
Calmamente abriu um pesado gavetão da cómoda de mogno retirando de lá pequenas velas brancas que dispôs pacientemente no tampo da mesma, disposto de costas para Jade.
Esta reuniu milésimos de força e avançou por fim, receosa, intercalando o olhar entre o desconhecido e a porta entreaberta. Talvez se se descalçasse conseguisse correr dali para fora, pelo menos teria o factor surpresa em seu favor e talvez aquele estranho homem não a conseguisse apanhar. Fitou á medida que se aproximava a robustez do corpo do mesmo e sentiu toda a mínima confiança a desvanecer se no lume que este agora acendia na iluminação crescente do quarto. Este voltou-se inesperadamente sobressaltando-a.
- Tudo fica melhor com um pouco de luz, concordas? - indagou de surpresa á surpreendida mulher que olhava como se já conhecesse todas as suas expressões. Jade mordeu nervosamente o interior do seu lábio tentando pensar nas suas opções, mas como pensar em algo que não existia?
- Quem és? - perguntou por fim num arrasto de voz muda há tempo demais, repleta de insegurança e temor.
- Essa é uma resposta complexa...mas será que é essa a pergunta que realmente queres fazer, Jade? - Ali fora a gota de água, ele sabia o seu nome....arregalou os olhos amedrontados recuando em direcção á porta.
- Tens a pessoa errada... - murmurou aproximando-se cada vez mais do escape que necessitava. Este colocou um esgar de sorriso em resposta, mantendo-se complacente ao seu recuar.
- Claramente tenho a pessoa certa. - replicou convicto do poder das suas palavras.- Tu podes ir Jade, é sempre a tua escolha o caminho a seguir, mas pondera...voltar para onde? É realmente por essa porta que queres sair?
Jade estacou com um passo dentro do quarto e outro já fora pronto para se escapulir, olhou-o longamente no desespero da verdade assentida. Quem quer que fosse aquele homem o medo já não era o factor preponderante da situação e em si sentiu o despontar da curiosidade mórbida das respostas há tanto procuradas. Seria aquele sujeito que lhe iria responder? Talvez sim, Talvez não mas...sentiu apenas o dever de colocar o pé que estava de fora de volta para dentro do quarto reluzente pelas velas aclarado.
Tinha que tentar perceber.. Tinha que tentar entender algo das incoerências que assolavam a vida quase perdida...Quase.


Sarah Moustafa



5 comentários:

  1. Sua escrita está impecável. Que personagem bem construída esta Jade...
    Conflitos dos nossos interiores que sempre nos rondam...
    Abraços, menina!!!

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    1. Obrigado Malu!
      Que bom que está a gostar!

      Abraços

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  2. Olá!
    Sarah
    Tudo bem?
    Temos a tendência de polarizar tudo na nossa realidade, entretanto, o universo não é regido pela polaridade, mas pelo equilíbrio. Polaridade leva ao conflito, à desarmonia, ao caos, a uma vida quase perdida.
    Os sentimentos negativos intensos podem trazer conclusões precipitadas e descabidas sobre os motivos, atitudes e intenções do outro...
    e como estou chegando agora, preciso me atualizar melhor sobre a personagem Jade e...
    Obrigado pelo carinho da participação em meu blog!
    ótima sexta feira!
    Beijos
    ClicAki Blog(IN)FELIZ

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  3. Sarah,
    Cada capítulo me leva mais longe por caminhos que eu não imaginava e gosto muito de ser surpreendida. Muitos parabéns pela tua escrita, mas também pela reflexão que despertas no teu leitor!
    Abraço.

    PS: Deixei algo no meu blogue para ti, se desejares participar.

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