terça-feira, 13 de novembro de 2012

Dissolvência- Capitulo VI ( Fúnebre Momento)


Capitulo VI - Fúnebre Momento

Earth to Earth, Ashes to Ashes, Dust to Dust


A manhã acordou fria, gélida no seu tempo próprio, contudo o Sol despontara brilhante e com ele despontara também uma reminiscência de esperança, ao dia triste , pesado nessa tristeza, que se avizinhava, que se aproximava celeremente, na velocidade que Jade não conseguia impedir de prosseguir no ritmo devido das ampulhetas do tempo, cuja areia desvanecia aos últimos grãos, á imagem dos olhos pesados.
O descanso devido, do corpo e da mente, não ocorrera e sabia que dificilmente voltaria a ocorrer, na normalidade do sono tranquilo e vitalizador, suspeitava até, que tal só aconteceria, no colapso iminente do padecimento do corpo extenuado, que mais cedo ou mais tarde, quebraria no ponto de ruptura.
Sempre se sucedera na capacidade eximia de armazenamento de lixo emocional, deixando-o remoer lentamente as entranhas, num sofrimento que julgava ser seu por direito. Se lhe removessem a tristeza crónica do cerne da essência o que seria dela? Ver-se ia nua, exposta ao mundo da felicidade alheia, onde teria forçosamente de se superar com o dobro do empenho, para lá conseguir permanecer nas douradas contendas, de um mundo optimista que desconhecia e que sinceramente preferia não conhecer, era tarde demais para tal, e assim poderia continuar a subsistir no ninho confortável do dissabor, que construíra ao longo de toda a sua existência, com a devoção da amargura de que ali e ali apenas ficaria eternamente segura.
O corpo dolorido sensibilizava-se com as suas tentativas  de se vestir apropriadamente para a ocasião. O enterro de Gabriel.
Repetia aquele nome incessantemente tentando focar a mente naquilo que realmente importava de momento, o adeus permanente ao corpo frio, inerte num caixão, do único Homem que amara em toda a sua vida.
O homem que mais amara e que mais odiara, numa raiva crescente, cujo veneno se disseminava na corrente sanguínea , ao longo dos anos passados, pelo sofrimento que lhe culpabilizava , um sofrimento inigualável  indescritível ás palavras pela semântica reconhecida.
Entregara-lhe o seu coração inocente numa oferenda ao amor impulsivo, aterrador, vital á sobrevivência da vida que nela conservava. Entregara-lhe o seu sol, a sua identidade numa bandeja de prata e Gabriel servira-se prontamente, degustando languidamente, através do corpo rendido ao seu poder, sugando-lhe todas as energias até á sombra do abandono pairar na derradeira noite em que este partira da ilusão por ela projecta das demandas românticas, fantasiosas, que em tempos acreditara na ingenuidade dos 18 anos contra os 41 de sabedoria e prioridades, dele.
Entregara o seu coração á imagem do devaneio e este mutilara-o numa extensão irreparável aos danos causados.
No entanto ali estava, medonha na figura vazia reflectida no espelho onde se contemplava no desconsolo do infortúnio da partida, no desconsolo absoluto de também ela querer partir.
Estremeceu enquanto as calças que despia roçavam na pele dourada relembrando os braços dele que tantas vezes as despiram daquele jeito inequivocamente aliciador á entrega da excitação vibrante , ainda quase pueril, de se deixar tocar, de se deixar apreciar o toque sem sombras de pudor e inferioridade que tantas vezes assaltavam a permeabilidade da insegurança.
Com Gabriel sentia-se no deleite da beleza devida, porque através do encanto que ardia nos olhos de floresta, tal lhe parecia verdade, ele fazia sentir-se bela, sem questionar essa mesma beleza, patente nas imperfeições que tremendamente agraciava.
Respirou fundo, tremendo de frio que chicoteava a pele desnuda, contemplando o vestido refinado, disposto na sua cama, contemplou-o hesitante na sua escolha, o vestido de linhas clássicas, discreto mas engrandecedor ás curvas que a tornavam libidinosamente atraente, a hesitação de se aprimorar para o dia mais duro da sua vida , ou se por esse mesmo factor, não sabendo se dele iria sobreviver, se honrar com uma ultima dedicação á matéria que compunha a alma agonizada.
Fechou os olhos sentido os braços que outrora a envolviam na pacificação dos momentos eufóricos,  em que Gabriel a apertava contra o peito e lhe sussurrava as mais maliciosas palavras no ouvido em deleite, com as mesmas, e por segundos, num ruído indistinto, ouviu-o com a toda a convicção da voz deleitante.
- Quero te naquele vestido, vais usa-lo e sentir que faz parte de ti. Quero-te naquele vestido, quero-te no arraso de mulher que és, quero que todos os olhos se voltem, se fervilhem, á tua passagem. Quero-te nesse vestido...



***
Era o derradeiro momento, não havia forma de contornar a crueldade dos factos presenciados, ultimados no caixão descendente, numa descendência lenta, mortificante á presença bem viva de todas a pessoas que observavam em dor os últimos momentos da despedida eminente.
Nicole Valadares, filha única destemida e eternamente apaixonada pelo pai que este fora para ela, conservava á sua imagem um respeito, uma nobreza de moralidade, dificilmente encontrada em mais alguma pessoa, que pudesse conhecer, sempre tremendamente defeituosas nos defeitos que tornavam a imoralidade mais respeitável. Nicole sabia que o pai sempre fora correcto no curso da sua vida com ela, com a mãe, até ao ultimo minuto de vida dela, e sobretudo como ser humano, imprescindivelmente correcto.
A imagem que guardava do pai era a melhor que poderia ter e apenas por isso, por essa convicção, conseguia permanecer intactamente saudável perante a doentia manhã em que se encontrava.
A presença de todas as pessoas á sua volta amainavam a intempérie que a assolava por dentro, em mais um luto que teria de lidar, e na realidade de encontrar órfã, sem pai e sem mãe para poder partilhar todos os momentos importante da sua vida de ali para frente. Essa consciência bloqueava-lhe as veias respiratórias, fazendo a respirar com uma dificuldade de encarar a aceitação da verdade, do falecimento de mais um pai.
O seu único refugio pendia em Jade e Débora cada uma do seu lado, com os rostos trancados de expressão, incapazes de sentir a verdade que jazia no caixão.
Apertou as mãos das duas enquanto se baixavam, mediante a oração do padre, agarrando cada uma num punhado de terra , simbolizando o regresso do defunto á origem da criação, cada uma na sua vez corresponde,  largou o seu punhado ouvindo o baque do mesmo, na madeira afundada, com o peso inexprimível, latente nos peitos asfixiados.
Lentamente cada pessoa presente retomava á consciência da necessidade de sair dali, e do que um cemitério representava, retornando aos seus veículos em direcção á majestosa propriedade Valadares, onde lhes aguardava ,metodicamente preparada, mais uma recepção fúnebre.
Nicole ficara para trás tal como Débora e Jade, a primeira agradecendo educadamente a presença dos transeuntes, e as outras encerradas num silêncio que da sua forma propria comunicava melhor do que falando.
- Ainda bem que vieste...- conseguiu Jade por fim balbuciar no pesar que os olhos continuavam a observar, incapazes de desviar atenção da pedra lapidada com o nome de Gabriel.
-Era impossível não vir... - replicou a ruiva olhando a amiga com a seriedade correspondente ao momento mas tão contrária á sua natureza extrovertida e alegre. - Ele de certa forma, indirecta, afectou também a minha vida.- Jade permitiu-se devolver-lhe o olhar intrigada com a resposta recebida.
- O que queres dizer com isso? - interrogou erguendo a sobrancelha perfeitamente delineada. Débora delongou-se fitando-a sorumbáticamente, observou com atenção a jovem diante de si, com a ternura embevecida do carinho que por ela nutria e com o peso no corpo da verdade.
- O que quero dizer... é desculpa. Desculpa Jade... - desabou vertendo duas grossas lágrimas dos olhos perfeitamente maquilhados. Jade moveu o rosto confusa, observando em seu redor as imagens que se mantinham dentro do parâmetro da normalidade, as pessoas a sair pelos pesados portões e Nicole despedindo-se de cada uma delas, sentando-se de seguida, lendo atentamente um papel que segurava nas mãos.
-Débora não estou a perceber...- afirmou com a voz arranhada do silêncio até então mantido.
- Desculpa...Desculpa Jade mas eu não tinha alternativa... A Nicole tinha que saber a verdade...porque...
As palavras de comiseração de Debora, diante de si, deixaram de ecoar, enquanto lentamente voltava o rosto, e via o semblante de choque cravejado nas feições de Nicole, que deixou o papel cair das mãos débeis na apoteose da verdade desvelada.
- Não... Não... - Jade inspirava o ar sofregamente acenando a cabeça negativamente correndo em desespero para os portões do catastrófico fúnebre momento.

Sarah Moustafa


3 comentários:

  1. Sarah,
    Esta história está cada vez mais interessante. Levas-me contigo e quero saber a continuação. Além disso, a narrativa é excelente e cria um ambiente muito realista no leitor.
    Parabéns, amiga. Continua!

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  2. Olá, parabéns pelo blog!
    Se você puder visite este blog:
    http://morgannascimento.blogspot.com.br/
    Obrigado pela atenção

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