sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Dissolvência- Capitulo III ( Terapia de Choque)


Capitulo III -Terapia de Choque



O confronto inesperado é talvez aquele mais difícil de se lidar, precisamente pelo abrupto segundo de momento, em que nos deparamos com o que não esperávamos,seja agradável ou não, a brutalidade do choque do que entra pela porta dentro sem avisar, sem querer avisar, pois na anunciação da surpresa que estamos prestes a receber, deixaria de ser o assombro que é, ou de nos auferir o sentido da palavra surpresa, é sempre organicamente sobressaltante.
Os pensamentos adensavam-se nos espólios das admirações e dos choques e das suas devidas ou indevidas  funções, mas as reflexões divagantes de Jade não mudariam o facto de quem se encontrar á soleira da sua porta ser quem era.
- Não me vais deixar entrar?  -  a voz grave mas inquietamente,  para ela, calma questionou por fim passados os minutos que se passaram, para ela se recompor do inapropriado momento. E aquele homem sabia como Jade detestava os inapropriados e repentinos arrasos de emoções violentas, Sabia-o bem demais.
A morena afastou-se e desviou o olhar como que consentido a sua entrada, seria melhor tê-lo resguardado dentro das paredes invisíveis aos olhos alheios do que arriscar que algum vizinho possivelmente o visse, não que propriamente fosse saber quem ele era, o seu verdadeiro medo não era esse...
- Como estas? - perguntou outra vez aquela voz que desconsertava tudo o que ela se forçava por consertar.
- Gabriel pára! - exclamou incapaz de conter o nervosismo na voz que quase se atropelava na separação devida das silabas correctas. Interiormente viaja num alucinio de memórias que não queria reviver,  sobretudo naquele momento. - Corta a conversa desnecessária do como estás e do como tens feito... - suspirou fundo - Porque não estás em Berlim ou em outra parte qualquer do mundo menos nesta?
Gabriel sorriu ligeiramente no esgar sedutoramente típico do ADN que o compunha, o sorriso que ela todos os dias se forçava para apagar da memória.
- Eu tenho uma filha cá, uma casa e sobretudo direito a férias... - ironizou com uma suavidade que quase conseguia destruir a armadura de defesa que estava a tentar colocar entre ambos, mas Jade nunca fora boa em impor limites e barreiras e sabia-o tão perfeitamente como as linhas do seu rosto e do seu corpo- mas sobretudo... -prosseguiu na explicação da sua presença- estou aqui para ti...
Jade soltou um riso afectado incrédula com aquilo que ele acabara de dizer, acenou negativamente, sem proferir uma única mísera palavra, pois no fundo não sabia o que responder sem se sentir terrivelmente atraída a aproximar-se da figura de Homem que tantas vezes desejara ter a seu lado, vezes demais... 
Precisava de se distrair com urgência  necessitava de ganhar uns minutos realizando uma tarefa qualquer, onde pudesse meditar sobre o que iria dizer.
Encaminhou-se para a cozinha estreita e ligou a máquina de café, o estimulo da cafeína ajudaria na clareza do raciocínio, ou assim esperava.
- Jade aquilo que eu tenho para te dizer é importante... - Gabriel segui-a no caminho tomado enquanto esta lavava meticulosamente uma chávena. -Pára! - exclamou no limite da paciência agarrando-a pelo braço e voltando-a para si, o pedaço de loiça que lavava escorregou-lhe pelas mãos ensaboentadas e estilhaçou se em dezenas de pedaços brancos aos seus  pés, quebrou-se como ela se sentia a quebrar a qualquer segundo. - Para de fugir! - Gabriel apertou-lhe novamente o braço numa intensidade que resvalava o brotar do seu amedrontar.
- Sai, por favor. - O olhar brilhante fitava-o directa e incisivamente na pupila tentando persuadi-lo, com a comoção da sua fragilidade, o ponto fraco do homem com quem se envolvera durante anos, a sua fragilidade.- Já fizeste o suficiente, agora sai. - libertou-se lentamente dele enquanto este retomava a si e deixava a fúria da impaciência desvanecer-se no amanhecer que se aproximava lentamente, tal como o lusco-fusco que sempre adorara observar, que sempre haviam adorado os dois observar, nas longas noites passadas e nas manhãs demasiadamente curtas, separados pelo cruzamento das vidas desfasadas no curso e no tempo.
Vinte e três anos de vida a mais, separavam os corpos que se atraíram  desde o primeiro instante, como ímans  um ao outro, sempre na irresistibilidade de se perderem no encaixe soberbamente perfeito que dois corpos podiam ter, ele tinha sido o seu refugio e a sua catástrofe, a montanha russa cujos carris haviam enferrujado bem no topo, no cume da paixão, deixando-a lá perpétuamente sozinha no medo excruciante de saltar, pois se saltasse...o que seria deles? 
O que seria dela sem aquele sentimento, embora embrutecido pelo tempo e pelas condicionantes, preferia conserva-lo assim no receptáculo da alma inundada do que ficar totalmente vazia do melhor e do pior que jazia em si na profundidade melindrada pelas inúmeras situações mal resolvidas, mal faladas, mal remendadas...
- Não vou ficar aqui muito tempo...não sei quanto tempo ao certo, mas calculo que seja breve. Não sei sequer se conseguirei ver a Nicole...- esclareceu por fim o homem abatido com a incapacidade de sucesso na conversa que pretendia ter.
- Isso... - assentiu Jade apertando o robe contra o corpo como que se protegendo da exposição, que parte de si ardia que ele visse. - Volta para a Europa e deixa-me sossegada... para que eu possa voltar para a minha amiga. - proferiu gelidamente, um gelo que lhe dilacerava o interior em ebulição,  reflectido na magoa do rosto triste com as palavras atiradas.
No culmino de forças e enjoada com o cheiro a café que exalava da cozinha, um odor que tanto adorava, e que agora lhe era insuportável de suportar, voltou costas em direcção ao quarto temendo que se Gabriel a tocasse mais alguma vez, se permitisse o reacender da chama extinta, que precisava que permanece apagada, liquidada para o bem dela, dele e de todos.
Despertou por segundos da turbulência das emoções quando ouviu o telemóvel a vibrar algures perdido na sua mala, limpou o rosto das lágrimas corridas e surpreendeu-se pelo nome , o ultimo nome  que queria ver posto naquele ecrã, era Nicole...hesitou em atender mas algo a impelia a fazê-lo.
- Nicole? - teve um pressentimento estranho no momento em que ouviu a voz descontrolada, cujas palavras careciam nexo  - Nicole , estas bem? -indagou com o coração a rebentar de expectativa.
- O meu... - delongou-se numa pausa angustiante - O meu pai está morto Jade, ligaram-me agora, o meu pai está... - o silêncio apoderou-se de ambas, da amiga no pranto desmesurado e dela que se voltou com a máxima rapidez da sua vida correndo como nunca correra para a cozinha.
Estava vazia...a cozinha estava vazia...
Susteve a respiração...não conseguia respirar.. não conseguia...

Sarah Moustafa



2 comentários:

  1. Uau! Soubeste guardar a surpresa até ao fim deste capítulo!
    Gosto quando me surpreendem...
    Quero saber mais! Que queria o Gabriel, ou o fantasma dele, ou seja o que for, dizer-lhe?
    Estou impaciente!

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  2. Vamos ter que esperar para ver =P breve...

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