sábado, 10 de novembro de 2012

Dissolvência- Capitulo IV ( Na mentira jaz a verdade)



Capitulo IV- Na mentira jaz a verdade






Duas meninas gargalhavam felizes na corrida decisiva entre quem chegaria primeiro ao comando de televisão disposto na mesa de centro elegantemente envidraçada, elegantemente frágil na sua composição, adivinhado perigos prováveis entre crianças, que no êxtase da alegria inocente que as revestia, perdiam um pouco o sentido da iminência do perigo, e apesar do risco, não havia visão mais enternecedora que Gabriel podia ter aos olhos amendoados, verdes profundos, que acompanhavam com atenção o percurso da brincadeira daquelas duas adolescentes vibrantes no inicio do florescer da idade das descobertas para a vida .
- Vês Jade, eu cheguei primeiro! - A menina de cabelo loiro escuro,  relativamente mais alta do que a outra, atestou segura da sua vitória. - Portanto é a minha noite de escolher a programação!
- Que bom! - expressou-se a morena, mais baixa, carregando nas palavras, com um entusiasmo claramente falsificado. - Titanic outravez? - indagou certa de que a resposta partiria de uma afirmação explosivamente correcta.
- Nicole convidaste a Jade para passar o fim de semana connosco, tens que mostrar um pouco mais de diplomacia nas escolhas, que aliás, deviam de ser as duas a fazer. - aconselhou o Pai atento resvalando o olhar entre a filha e amiga, delongando-se um pouco mais nela.
- A nossa diplomacia é a da vitória! - gargalhou Nicole numa disposição grandemente optimista pelo sucesso dos seus movimentos. - Vamos ver Titanic sim, as duas adoramos o filme não é Jade?
Jade sentiu o impulso tremendo de lhe responder negativamente, de afirmar com toda a veemência, que estava absolutamente farta de ver o filme, que pelas vezes que o punham a repetir perdia todo o encanto inicial. Era sem duvida uma daquelas adolescentes com um variado espólio de interesses, mas sobretudo o que a fascinava, com uma força desmesurada, eram as histórias misteriosas do oculto, as criaturas da noite e os impasses de sobrevivência envoltos nas tramas cativantes,  adorava temas que explorassem o encanto do sobrenatural, onde pudesse entre as linhas que lia e as imagens que via, fugir um pouco da realidade , que apesar da tenra idade, já se lhe apresentava demasiado pesada.
Observou a amiga expectante por uma resposta e o pai da mesma, sentiu o olhar de ambos presos no seu corpo e no seu rosto hesitante,em que pintou o mais sincero sorriso na resposta dada.
- Claro! Ainda não conseguimos acreditar que o Jack realmente morre! Vamos a mais uma ronda de incredulidade chorosa no fim? - manteve o sorriso sentido um alivio da pressão imposta no peito, imposta pela mentira abonada quando Nicole , plenamente satisfeita, avisou que iria fazer as pipocas.
Gabriel agachou-se defronte da lareira trabalhada que começava agora a crepitar, alumiando o salão grande onde se encontravam, com tonalidades fogosamente apetecíveis nas variadas formas de cor de laranja.
- Podes me passar esse pano que está em cima da estante , por favor Jade ? - questionou lhe afavelmente. A jovem assim o fez observando-o a limpar os rebordos da lareira. Simpatizava com o pai de Nicole, normalmente sentia-se um pouco intimidada diante de adultos como ele, sendo que teria seguido amiga de imediato para onde quer que ela fosse, no entanto com Gabriel não sentia esse medo atroz e essa necessidade de se esconder atrás da sombra do conforto, desconhecia os motivos de tal razão, talvez porque as deixava totalmente á vontade para brincar e conversar, sem grandes discursos de bom comportamento e questões sobre os seus pais, que sem duvida não queria ter de responder, pois se lhe perguntasse iria mais uma vez mentir. A mentira refugiava-a, aprendera a utiliza-la de um jeito diligentemente credível, desde cedo, e se assim não fosse, talvez nem Nicole teria como sua amiga, tal como não teria aqueles fins de semana agradáveis no vislumbre de família que ansiava violentamente mas que sabia que nunca iria ter.
Ter Nicole e os pais dela assegurando-lhe dois dias por semana de pura felicidade conseguia compensar o vazio angustiante de todos os outros dias. E por isso mentia, criava as mais belas histórias, que gostaria que fossem realmente suas, que quase sentia como suas, não fosse no infortúnio da vida ter crescido no seio onde tinha crescido.
- Sabes Jade na vida vamos ter que nos deparar com muitas escolhas, umas que dependem de nós e outras nem tanto, mas o que importa é que em todas elas ponhas o máximo de ti que possivelmente podes por. - ainda agachado ,o Homem com que paternalmente simpatizava, olhou-a atentamente, fotografando com os olhos o rosto de boneca introvertida  repleta de medo e de brilho, que aquela jovem possuía num misto encantador de força e fragilidade.
Jade sentiu pontadas no coração adivinhado o curso daquela conversa, ele tinha-a completamente desmascarado na mentira contada.
- Eu... - começou numa hesitação confusa do que deveria de dizer. Ele sorriu-lhe erguendo-se numa imponência tremenda da diferença de altura patente entre ambos. Tocou-lhe no rosto delicadamente com um carinho que a confortava como uma manta segura nos dias frios de inverno.
- Já alguém te disse que tens uns olhos incríveis  - questionou sorrindo continuamente - São imensamente grandes, são olhos de avelã....
***
Jade....Jade! -  do fundo do corredor extenso onde seguia, arrastando os pés e todo o corpo em choque,  uma silhueta feminina corria na sua direcção, conhecia bem demais as formas daquele corpo a correr na sua direcção, quantas e quantas vezes não haviam corrido juntas nas brincadeiras tremendamente felizes dos momentos passados que agora jaziam num profundo saudosismo melancólico, triste. Nicole apertou os braços a sua volta, quebrando-se em lágrimas de dor profunda, uma dor que partilhavam num grande eco de semelhança. - Jade eu não consigo entrar..eu não con... - apertou a com mais força contra si, numa comoção desesperante, do suplicio de ter perdido o seu pai, o seu adorado pai.
- Eu vou... - engoliu em seco na libertação das palavras, que não queria soltar, não queria entrar naquela sala e reconhecer o corpo que a visitara tantas vezes, não queria ter de lidar com aquele luto e com os mistérios envoltos.
 Queria fazer uma imensidão de perguntas, que gritavam por ser colocadas, queria saber onde e como tinha acontecido e só aí poderia perceber o que se tinha passado há poucas horas em sua casa. Ela sentira o toque dele nos seus braços,  sentira o perfume que dele exalava, o odor que conhecia como ninguém, como era possível tê lo visto? Como era possível estar morto?
Sabia que teria de lidar com tudo isso, sabia que nada voltaria a ser o que até então tinha sido, para o bem e para o mal, mas teria de aguardar a chuva de questões latentes para mais tarde, porque a questão primordial e a resposta da mesma, aguardavam-na na sala cuja porta entreaberta se encaminhou.

Sarah Moustafa

6 comentários:

  1. Impressionante como consegues nos prender com tua narrativa empolgante, bem desenvolvida... adorei. Vou ter que ler as partes anteriores KKKKKK. Bjus querida! Vou voltar...

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    1. Olá Nádia! Obrigado ! Um bom dia cheio de luz!*

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  2. Muitos parabens uma excelente escrita. Vou passar a seguir

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  3. Sarah, adoro!
    Os capítulos estão maravilhosamente escritos e a trama está excelente. Quero saber mais. Consegues prender-me à história.
    Parabéns!

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    1. Querida Dulce , Obrigado espero que goste ate ao fim =)

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