segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Vaidade





A vaidade apoderou-se do corpo nas horas do sono sereno e os olhos cerrados sonharam com brilhos e tonalidades exóticas, perturbantes á retina comum, ao anseio dos lábios secos pelo liquido da efervescência da ostentação.
O soberbo no corpo, elevado das forças da profundidade que o engrandecimento produz e reflecte na imagem que o espelho almeja ver, nas lâminas da clemência de ser a bela e o monstro, produzida num corpo só. O monstro tenebroso que ruge no brado da revolta á imagem reflectida nos olhos alheios, nas afirmações incompletas, frágeis na cobardia da natureza singular. No apunhalamento á própria carne, ao aprisionamento da vontade, do medo terrível da visão da própria luz, resignada ás ruínas do território pela Besta conquistado.
Mas a subtileza escrava de si mesma, nas formas da Bela produção, coloca-se defronte do inimigo feroz, por fim, e a ele se abraça, na desmedida coragem, na tristeza silenciada de quase ter perdido parte de si.
Abraça-se e retoma á origem, essa única formula ténue nos gestos, penetrante nas acções, apossa o corpo no deslumbre do feitiço, da verdade escondida no tesouro sumido e por fim reencontrado.
Os lábios humedecem, escarlates vivos na polpa da matéria de que são feitos, da vaidade insane em ser luxuosamente detentora dos mistérios sagrados da voluptuosa consciência do poder que uma Vénus nata consegue ter quando ama acima de tudo, a si mesma.

Sarah Moustafa


3 comentários:

  1. A Vénus ama-se a si mesma e eu amo a tua prosa!
    Gosto do decorrer das ideias, da maneira como as fazes viajar através das linhas para chegar à conclusão inevitável!
    Gosto imenso!

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  2. Assim O ego fica muito satisfeito =)))
    Obrigado Dulce!!!

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  3. Sarah, maravilhoso o caminho que você traçou até o amar-se a si mesma.
    Gostei muito.
    Manoel

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