sábado, 6 de outubro de 2012

Desapego



Hoje a dor amenizou, e pela primeira vez, senti mais do que o adormecimento da mesma, senti o esplendor do desencaixe da saudade.
Hoje já não doí tanto, nas memórias desvanecidas, nos sinais do tempo, ainda mói o coração , verdade, mas  já não pesa como antes, e não pesa porque o desapego exercita-se, todos os dias, um bocadinho de cada vez.
Lentamente, na delonga dolorosa, as algemas do sofrimento alargam-se e os braços débeis escorregaram nessa brecha, que apenas quer sarar, que nos quer recuperar da devastação, da tortura interna da saudade incompreensível de um tempo que não volta, de um tempo ido que forçosamente capturei na tentativa vã de este permanecer em mim.
Um braço soltou-se, e surpreendida o fitei com o abalo emotivo, daquilo que impossível se assemelhava, brinquei com o membro, deixei-o seguir o curso natural da existência, e ali estava perfeitamente saudável, sem mazelas, sem cicatrizes, simplesmente perfeito como me lembrava antes da clausura.
A dor suavizou, já não custa como antes, já não revolve as entranhas, já não arde a garganta, embrenhada na densidade das palavras encarceradas.
Hoje o desapego mostrou-me a suavidade do seu raio, da sua bênção, que tantas vezes neguei, que tantas vezes combati, cravejando as unhas no seu cerne, para que ali padecesse e a mim me deixasse.
Hoje o desapego sorriu para mim, hoje a sua voz falou alto, hoje aceitei-o a entrar e hoje, pelo menos, a tormenta partiu, expulsa do legado onde tanto tempo reinou.
Ainda falta um braço, ainda falta a plenitude, mas hoje, por não custar tanto como ontem, lhe agradeço, lhe escrevo, lhe sorrio de volta.
Hoje aspiro um futuro, Hoje o vejo risonho para mim, expectante, aguardando a totalidade em construção.

Sarah Moustafa

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