quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A Menina dos Olhos Tristes



A menina dos olhos tristes vivia no secreto jardim de que apenas a sua reverência tinha conhecimento.
Um jardim repleto das mais verdejantes cores, numa sublime distinção á floresta encantada, que a imaginação abria no sonho cintilante da glorificação da vida esperada.
O sonho queria acompanhar a aspiração, o desejo ardente de subir as trepadeiras dos portões que impediam o acesso á orla da floresta, que travavam a direcção em que o corpo queria caminhar...
A menina cresceu e os portões continuavam fechados, cerrados na tristeza, no reflexo dos grandes olhos que acompanhavam a melancolia, no murmúrio de uma sereia cativa nas areias do tempo,  que murchava minuto a minuto, na aridez do solo onde a água, o sal bendito, não chegava.
A menina quase se resignou ao pequeno jardim, floreando da melhor forma possível o seu redor para que quase conseguisse sentir a magia da floresta inatingível, quase...porque a insatisfação do pesar corrompia a plenitude do desejo.
O corpo cresceu e com ele, juntos num contracto inquebrável, também o espírito se elevou.
O espírito ascendeu após a queda magnânima do alto da torre, a torre onde dormitava todas as noites num sono  instável, perturbante no desassossego que dos tristes olhos brotavam. Apesar de tristes, transtornados no transtorno evidente, estes nunca ficaram baços, tristes brilhavam com uma cristalinidade obscena ao reduto máximo da pureza atingível.
No breu da noite, iluminavam tudo e todos em seu redor, apenas ela não o conseguia ver. Apenas ela não entendia que o esplendor, a magia do encanto que buscava na almejada floresta, estava dentro dela, presa na redoma do medo, onde frágil permanecia.
Quando caiu e abriu os braços na sua queda, aceitando tudo, perdoando tudo quanto podia conseguir perdoar, amando todos que o seu coração enorme conseguia amar, libertou-se da protecção que a desprotegia.
Da redoma fragmentada, surgiu a chave há tanto aguardada, arregalada correu tanto quanto o seu corpo conseguia correr, sentindo a aragem do vento no rosto, sorrindo perante a sensação, e parou diante dos gigantes portões.
Colocou a chave nas pesadas rústicas fechaduras, e os portões na solenidade do arrebatamento abriram as suas portadas por fim, convidando-a ao mundo das descobertas ensinando-a de que a verdadeira magia reside no seu coração.
Os olhos da menina triste continuam tristes, porque foi desse raro material de que foram feitos, mas brilham com a ofuscação da simplicidade como nenhuns outros alguma vez brilharão.

Sarah Moustafa

2 comentários:

  1. Sarah, muito envolvente a sua postagem e com rara beleza demonstra que o bem e o mal pertencem ao nosso interior. Somos livres para a escolha.
    Beijo
    Manoel

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  2. Bom dia Manoel! Obrigado pelas palavras sempre positivas!

    beijos

    Sarah

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