quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Imaginarium





A irrealidade serpenteia a razão exigindo a desenvoltura dos pólos não exercitados.
Fantasia, imagem do fantástico,  alivio pleno da realidade tangível,  escape terrorificamente encantado, curvo me perante as delicias que me são reveladas no murmúrio da noite onde o fascínio assola, pulsa pelas historias do bizarro, da infinidade do imaginário.
Que mundo é este? 
Sedução envolvente no sobrenatural faiscante, onde os pés nervosos caminham o chão dos horrores santificados.
Passo a passo a adulação é a máxima, transcendente no limbo da loucura insane das imagens absorvidas pelos olhos arregalados.
Terror nos cânticos prolíficos, o corpo eleva-se  no tremor e no deslumbre, que desabrocha nas noites onde o divinal e o maquiavélico me visitam, me atormentam e saciam com as imagens da incredulidade credível.
Passo a passo a paixão pelo oculto inflama a mente sedenta por mais fecundidade, onde a criação magistral se desenvolve na fonte dos enigmas, na intuição sensibilizada á vastidão de formas e esconderijos.
Nos recônditos espaços, obscuros e velados pela primazia do sublime, do quimérico prestigiador.
Passo a passo entre medos e impulsos exploradores, piso os galhos da floresta mística,  oiço o uivar das criaturas da noite, vislumbro o carrilho das velas bruxuleantes e sustenho a respiração ofegante.
Que mundo é este?
Na incógnita penumbra permaneço, e apesar do peso do pânico nos ossos, avanço em busca da essência deste mundo incrível, aterrador e inesperadamente apaziguador.
Que mundo é este?

Sarah Moustafa




terça-feira, 30 de outubro de 2012

A Bonança




Se o revés da fortuna se abater no coração descompassado, aceita-o. 
Aceita a tempestade, o tumulto atrofiante das emoções confusas, abarca-as na alma alagada,  permite sentir todas as notas da melodia dissonante, e por fim, quando a devastação acalmar, quando as águas do diluvio escoarem nos filtros que o teu corpo carrega, tudo fará sentido. 
O céu voltará a ficar límpido e risonho, homenageando a força que te susteve, na desolação da catástrofe vital á reconstrução das ruínas da mudança.
Quando o céu ficar limpo, será muito mais do que as nuvens de algodão que te visitarão, será o inteiro universo, que pensaste ser teu inimigo, que te honrará com as benesses do além mágico, possibilitando a clareza dos olhos turvos, o desencarceramento do corpo preso, e a mente desobstruída do lixo acumulado, e sobretudo , o maior presente que possivelmente poderias receber, será o coração regenerado, capaz de amar e doar esse amor, com o alcance e o brilho das constelações, que te guião na noite ao ritmo do deslumbre da capacidade.
Finalmente sentirás o sentido que procuravas, perceberás como importas, como também és relevante na construção da plenitude almejada. 
Serás um raio de Sol, uma gota de chuva, um sopro de vento e uma estrela cintilante no palco do Mundo onde habitas. 
Saberás como fazes parte do tudo e como esse tudo te ama como produto do seu esplendor.
Não temas a tempestade, não a evites, porque a bonança é real e magnânima no espectro da eternidade que te aguarda.

Sarah Moustafa

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Vaidade





A vaidade apoderou-se do corpo nas horas do sono sereno e os olhos cerrados sonharam com brilhos e tonalidades exóticas, perturbantes á retina comum, ao anseio dos lábios secos pelo liquido da efervescência da ostentação.
O soberbo no corpo, elevado das forças da profundidade que o engrandecimento produz e reflecte na imagem que o espelho almeja ver, nas lâminas da clemência de ser a bela e o monstro, produzida num corpo só. O monstro tenebroso que ruge no brado da revolta á imagem reflectida nos olhos alheios, nas afirmações incompletas, frágeis na cobardia da natureza singular. No apunhalamento á própria carne, ao aprisionamento da vontade, do medo terrível da visão da própria luz, resignada ás ruínas do território pela Besta conquistado.
Mas a subtileza escrava de si mesma, nas formas da Bela produção, coloca-se defronte do inimigo feroz, por fim, e a ele se abraça, na desmedida coragem, na tristeza silenciada de quase ter perdido parte de si.
Abraça-se e retoma á origem, essa única formula ténue nos gestos, penetrante nas acções, apossa o corpo no deslumbre do feitiço, da verdade escondida no tesouro sumido e por fim reencontrado.
Os lábios humedecem, escarlates vivos na polpa da matéria de que são feitos, da vaidade insane em ser luxuosamente detentora dos mistérios sagrados da voluptuosa consciência do poder que uma Vénus nata consegue ter quando ama acima de tudo, a si mesma.

Sarah Moustafa


sábado, 27 de outubro de 2012

O Mar Leva o Mar Traz




Inevitavelmente o passado retorna nas sombras do coração pesado, pesado na ausência das palavras que não foram ditas, dos gestos inexplicados , das partidas incompreendidas...
Contudo, a nostalgia ajuda na depuração da relevância das questões pendentes, ajuda alumiando as sombras que imploram por libertação.
A libertação do perdão, da abnegação da culpa alheia, da culpabilização pessoal, do orgulho desmesurado e sobretudo da tentação gigante de trancar os vestígios de uma solução para sempre.
Se permanecemos de espadas em punho num duelo infrutífero e doloroso ou se as lançamos ao mar, juntas na unidade separada, que se reencontra na pacificação do propósito que enlaça duas almas, naufragadas no mar zangado que as separou no curso das marés distintas.
Mas tudo aquilo que importa, nas delongas horas da ausência, encontra sempre uma forma de retornar ao ponto de onde partiu, dando a benesse da oportunidade de curar a ferida mutua com o sal bendito das águas profundas da nossa fortuna .
A cura na conversa isenta de responsabilidade, no abraço afectuoso da compaixão da saudade, daquilo que sabemos , contra todos os indícios, ser verdadeiro na intemporalidade dos ponteiros assinalados no tempo que passou, que permanece e que virá.
O cântico do mar trouxe-te de volta á costa, trouxe-me de volta a ilha perdida.
Iremos perder a oportunidade de a desbravar e explorar na centelha quente que nos une ?
Poderemos voltar sem medo ao oceano que nos separou?
Poderemos realmente perder a oportunidade de ficarmos mais leves?

Sarah Moustafa

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Aquilo que Nunca Saberei




Nunca saberei não amar, pois encontro-me incontestavelmente apaixonada, pelo tudo e por todos, desde que nasci. Desde que os olhos viram pela primeira vez o redor grandioso que os rodeia, desde aí e até ao fim, eles caíram rendidos ao esplendor da descoberta, á intensidade da emoção e á fome do saber.
Nunca saberei não estar insatisfeita pois a satisfação dissipa se, tal vapor quente, que me escalda a alma e amaina os ventos intempestivos na mente irrequieta. Até a formula , que julgo extinta, do vapor se condensar e se aninhar em mim, continuarei ávida no dissabor da insatisfação crónica.
Nunca saberei como vestir a armadura protectora, pois o meu corpo rejeita-a na sensibilidade de que foi feito, anti-natura seria envolver a pele no metal frio e implacável, onde o toque de ninguém alcançaria, quando as sedas e os cetins me desejam abraçar na delicadeza das formas e das caricias possíveis, ainda que o risco comporte o tamanho da dor, escolho sempre, no arrojo da coragem, sentir tudo a nada sentir.
Nunca saberei tudo o que o tamanho do meu apetite demanda saber, e por tal certeza, entristeço o semblante, na inquietude das respostas perdidas ao acesso da chegada, mas interrogo-me se será as respostas que verdadeiramente alimentariam o tamanho da escassez ou se esta apetência colossal brota dos pontos de interrogação, colocados em todas as palavras soltas pela língua interrogadora que interroga em todas as interrogações.
Na verdade ou na mentira, Nunca saberei não ser o que sou.
E o que sou ?

Sarah Moustafa




quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Os Dias Cinzentos





Os dias em tons de cinza nunca me incomodaram, não tanto como aos demais.
Desconfio até que o cinzento pintado na vastidão dos céus me agrada. Demais.
Talvez porque veja nessa tonalidade um reflexo da cor com que pintaria a minha alma, se assim o pudesse fazer.
Talvez porque do misto entre o branco e o preto eu veja algo mais do que o concreto das cores em si.
Talvez porque a minha mente dispersa, vê nos dias cinzentos, e no cinzento em si, um aludir á dualidade que me fascina, que me veste e despe, que me aproxima e me afasta, do coração e do corpo confusos com a complexidade da confusão.
Talvez porque a mente pictórica associa ,num piscar de olhos, a luz e as trevas juntas numa só, como eu sou, como todos somos, ainda que em grande fase de negação, ou não, sendo a irremediável tremenda verdade.
 De quando em vez a prata visita os céus para nos relembrarmos de tal.
Ou talvez só a mim e ás minhas divagações... mas por isso, talvez, estes dias gostem de mim como eu gosto deles.

Sarah Moustafa



quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A Menina dos Olhos Tristes



A menina dos olhos tristes vivia no secreto jardim de que apenas a sua reverência tinha conhecimento.
Um jardim repleto das mais verdejantes cores, numa sublime distinção á floresta encantada, que a imaginação abria no sonho cintilante da glorificação da vida esperada.
O sonho queria acompanhar a aspiração, o desejo ardente de subir as trepadeiras dos portões que impediam o acesso á orla da floresta, que travavam a direcção em que o corpo queria caminhar...
A menina cresceu e os portões continuavam fechados, cerrados na tristeza, no reflexo dos grandes olhos que acompanhavam a melancolia, no murmúrio de uma sereia cativa nas areias do tempo,  que murchava minuto a minuto, na aridez do solo onde a água, o sal bendito, não chegava.
A menina quase se resignou ao pequeno jardim, floreando da melhor forma possível o seu redor para que quase conseguisse sentir a magia da floresta inatingível, quase...porque a insatisfação do pesar corrompia a plenitude do desejo.
O corpo cresceu e com ele, juntos num contracto inquebrável, também o espírito se elevou.
O espírito ascendeu após a queda magnânima do alto da torre, a torre onde dormitava todas as noites num sono  instável, perturbante no desassossego que dos tristes olhos brotavam. Apesar de tristes, transtornados no transtorno evidente, estes nunca ficaram baços, tristes brilhavam com uma cristalinidade obscena ao reduto máximo da pureza atingível.
No breu da noite, iluminavam tudo e todos em seu redor, apenas ela não o conseguia ver. Apenas ela não entendia que o esplendor, a magia do encanto que buscava na almejada floresta, estava dentro dela, presa na redoma do medo, onde frágil permanecia.
Quando caiu e abriu os braços na sua queda, aceitando tudo, perdoando tudo quanto podia conseguir perdoar, amando todos que o seu coração enorme conseguia amar, libertou-se da protecção que a desprotegia.
Da redoma fragmentada, surgiu a chave há tanto aguardada, arregalada correu tanto quanto o seu corpo conseguia correr, sentindo a aragem do vento no rosto, sorrindo perante a sensação, e parou diante dos gigantes portões.
Colocou a chave nas pesadas rústicas fechaduras, e os portões na solenidade do arrebatamento abriram as suas portadas por fim, convidando-a ao mundo das descobertas ensinando-a de que a verdadeira magia reside no seu coração.
Os olhos da menina triste continuam tristes, porque foi desse raro material de que foram feitos, mas brilham com a ofuscação da simplicidade como nenhuns outros alguma vez brilharão.

Sarah Moustafa

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Hoje





Hoje o Sol honrou-me com a sua visita inesperada, sorriu-me timidamente, entre nuvens, quase totalmente coberto, mas não o suficiente para deixar de sentir o seu ardor satisfatório na medida certa do necessário.
Aqueceu-me por dentro, soltou o riso da clausura, o acanhamento da vergonha.
Esperançou-me. Enrubesceu as faces, pálidas há tempo demais.
Energizou o corpo cansado e deu-lhe a chama da vontade, hoje , ainda que só por hoje talvez, revigorou o cálice da divindade e molhou-me os lábios secos, sedentos do liquido famigerado.
Fez-me beber do seu intimo profundo e enquanto sorvia tudo ficou mais leve, o corpo, a cabeça e sobretudo o coração.
O coração que pesa vezes demais, que se aperta, que sangra o sangue da saudade,que chora nas lâminas da verdade, estancou. Hoje tudo isso é pretérito prefeito do ontem para o amanhã.
Hoje dignifico o Sol tal como ele me dignificou, e porque nos dias menos esperados ele me visita, me acompanha e me presenteia. Por sua culpa, solta o riso estrondoso, de uma criança na manhã de Natal, enquanto abre os seus presentes deliciada e que se lambuza com os milhares doces na mesa dispostos.
 Hoje antecipo-me e estou nessa manhã, nessa tarde, nessa noite.
Ainda que amanhã talvez a chuva caia, ou o tornado me apanhe de surpresa na estrada caminhada , não importa, porque os melhores dias são estes. Os dias de Hoje.
Os dias de Sol no Inverno.
Os dias embriagados na sua refulgência.
Os dias em que os raios brilham, e fazem na sua espontaneidade, perceber o motivo de aqui estar.

Sarah Moustafa

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Cabeça Ri o Corpo Chora



A indulgência apodera os ossos cansados, fatigados da sucessão veloz dos acontecimentos quase imperceptíveis na percepção disforme da inserção do corpo, no sitio certo.
Quando a mente voa alto, para além das linhas rasteiras, do comum conforto da realidade material, a rota transforma-se numa rede complexa, longínqua  para onde os pés caminham , quase descarnados, na incessante vontade de querer acompanhar o tamanho gigante da profundidade que diariamente se reproduz.
O corpo debilita-se, revolta-se, instiga-se contra alheia crueldade, suplica pelo abrandamento  pelo reduzir das horas que o trabalho, tão particular, exige. Demanda. Precisa.
A mente entende o corpo, percebe claramente as mensagens que lhe são enviadas, caso contrario  não estaria neste momento a relatar a tese, mas o que a matéria não entende, e possivelmente nunca entenderá, é que criar, caminhar nessa jornada maior que ela mesma, é tão necessário como respirar, porque se não assim arriscar, apenas existirá, como num suporte básico de vida, nos cuidados paliativos entorpecida no limbo petrificante da verdade de ter ficado á margem de si mesma.
A cabeça revoga sem hesitação a possibilidade da anulabilidade da bênção concedida , que sabe sempre importar custos, sabe e sela a informação para si apenas e exclusivamente.
A mente pode rir, pode gargalhar no eco profundo da diversão máxima que consegue ter, enquanto o corpo chora no pranto lastimável do cansaço da forma, da volubilidade insustentável no ritmo alcançado, mas sente como nem a carcaça consegue, o pesar por assim ser, sente porque o seu intelecto permite lhe chegar a tal conclusão ainda antes mesmo que a companheira débil.
E é aqui que reside a exacta mestria descrita, com a sinceridade da cabeça latejante, neste preciso máximo instante.

Sarah Moustafa

domingo, 21 de outubro de 2012

A certeza do Adeus




A miragem dos sorrisos trocados, dos toques perfumados, a sedução ilustrada no rosto feliz das indolências a que nos entregamos tantas e tantas vezes..
Entrega ao rendimento do sufoco intempestivo que apenas a caricia , no seu deleite, acalma.
Não conseguir partir porque no todo a gravitação girava no eixo em que me sustinhas,  no mundo privado do particular de todas as particularidades que a nossa história impunha.
Imposição manifesta do egoísmo que assalta quando se ama. Quando se quer..
No querer destrutivo  nas vielas mais escuras que dois corações podem encontrar  nessa toda soturna expectativa, o desejo não cessou. Nunca. Contrariando ambas as vontades, arregaladas com a força da brutalidade que a fogueira acesa alastrou.
Degustar a reciprocidade da ameaça impudente presente na verdade, a paixão avassaladora extenuante que mudaria para sempre os contornos da realidade tangível  do conhecimento anterior, do adquirido como correcto, dos valores frágeis, da perspectiva nova da forçosa vontade do terramoto que os nossos edifícios devastou.
A certeza da separação, a dor da certeza chicoteava a alma.
A ingenuidade de pensar o contrario também.
No ultimo beijo embrulhado, os caminhos equivocados foi tudo o que pareceu restar...
Mas na escrita aprimorada das letras fulgentes, a labareda da paixão insiste na permanência do para sempre.

Sarah Moustafa

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

(Memoirs) Dar-te




Debulhaste em lágrimas á minha frente, apertas-te me o coração,deixaste-o do tamanho de uma semente impotente, frágil perante a tua fragilidade.
Ver-te na angustia do desespero, desesperou-me. Ver-te mal, deixou-me mal ás raízes da maldade.
Então que amiga seria eu senão aquela máxima que poderia ser? Porque não dar o máximo de mim?
No aperto da letargia vasculhei aos mais recônditos, negros, espaços da minha mente, em busca de uma solução. Porque era meu dever arranja-la, ao êxtase da exaustão, não importando os custos, não me concernindo com as consequências, só te queria bem. Bem contigo, Bem comigo. Bem com todos.
Havia algo em ti ...uma beleza etérea na carne mas também no coração, uma verdade nas palavras proferidas ,um cavalgar amazónico em busca do ideal, da verdade absoluta. Fascinavas-me. Por vezes, ainda fascinas.
Com a fé inabalável em ti, e por ti, como membro intrínseco da minha vida e do meu coração, ajudei-te, encontrei a solução! 
Coloquei-te um sorriso aberto novamente no rosto quase sempre feliz.
Só eu sei a felicidade que senti ao ver-te assim, ao saber que pelo menos uma vez na vida o materialismo podia ajudar com uma benevolência sublime. O júbilo apossou-se de nós.
Nesse dia fizeste -me sentir plena, ao ajudar-te ajudaste-me.
Nos retalhos das memórias tristes, das vicissitudes em que nos embrenhamos, essa lembrança continua quente, latente no coração destroçado. Porque ao fazer o que fiz, ao dar-te o máximo de mim sem esperar até a data da minha partida, absolutamente nada em troca, desabrochas-te a essência do deslumbre que me reveste.
A insegurança que tanto se abate na cabeça permeável,  que me aprisiona no seu desconforto, é menor pela única certeza de que possuo. A de que eu fiz a diferença na tua vida. Independente de tudo o resto, esse facto nunca poderá ser revogado. Nunca.
Ao abraçar-te foi um abraço mutuo.
Por isso, ainda que ida, ainda que distante, obrigado.
Obrigado porque em ti eu vi o reflexo da grandiosidade que há em mim. 

Obrigado.

Sarah Moustafa




quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A chuva cai..


A chuva cai e eu caio com ela...desabo nas milhares de gotas frescas e expando-me por ai e por acolá, no manto de água, no refugio das emoções imperfeitas, que na brutalidade dos seus efeitos me inferiorizam, me submetem ao tamanho de um pingo na imensidão do oceano.
Deporto-me para a fluidez do liquido, retorno no ritmo da melodia exaustiva do diluvio abundante, do extravasar das arritmias sufocantes que inundam o interior da matéria incapaz de as suster no controle almejado, impossibilitado de lançar o Sol no altos dos céus, irradiando no sorriso dourado do esplendor magnânimo o brilho entusiasta.
As nuvens adensam-se frágeis no sustento pesado da água invasiva, gritante por libertação.
As nuvens cedem, gretam-se na brecha dolorosa da forçosa função.
A chuva cai e revestida nela, aterro no solo profundo, fertilizo a terra abundante, acalmo a sede e sinto-me segura no ninho inesperado.
A chuva cai e não incorre só, pois estou com ela, nela difundida, sempre.
A chuva continua a cair e escoa-me no filtro necessário ao retorno da função.
A chuva cai....e eu caio com ela, por ela, por mim, assim.


Sarah Moustafa

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Inspiração




O palpável além da linha do tangível move, inspira. Desperta o interesse na sua intangibilidade, a linha onde os dedos débeis, quase pensam sentir, a caricia do toque encantado nos mistérios que a inspiração persegue.
Desperta o interesse nos pálidos dias da criação. Acorda o talento dúbio ao âmago da duvida, na impotência perecível de acreditar.
Acreditar, é só do que se necessita. Do que todos necessitamos Urgente.
A urgência imprescindível, se almejamos a elevação patente ás barreiras do corpo gasto, exaurido no fatigar do quotidiano conformista.
Elevação fundamentalista nas palavras que se profere, nas palavras que se escreve, na tinta corrida pelo tempo, e até nas palavras encarceradas na goela, até essas se apresentam vitais, senão as mais importantes,  á soma de todas as resoluções.
Inspirar fundo as sensações do redor turbulento, deixa-las instalar-se no ninho negro da alma, aperfeiçoando o novelo, para depois fantasticamente o desvelar, e aí somente, os lampejos divinos poderão abençoar na divindade totalitária merecedora.
E somente aí as aguas enlameadas se verterão na cristalinidade da pureza da nascente.


Inspirado Inspirarás.
 Aceitando Acreditarás. 
Querendo Conseguirás. 
Realizando Imortalizarás.


Sarah Moustafa

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O Primeiro Amor


«Eu te amo. Mesmo negando. Mesmo deixando você ir. Mesmo não te pedindo pra ficar. Mesmo não olhando mais nos teus olhos. Mesmo não ouvindo a tua voz. Mesmo não fazendo mais parte dos teus dias. Mesmo estando longe, eu te amo. E amo mesmo. Mesmo não sabendo amar.»

— Caio Fernando Abreu


O Primeiro amor é pioneiro muito mais do que no amor em si. 
O Primeiro Amor é também o primeiro grande desgosto, é a primeira lágrima derramada , a gota de agua salgada, que perdura no tempo por ter sido a eleita principal na sua função.
O Primeiro Amor é o descobridor das sensações explosivas, das sensações fantásticas que enchem o peito de incentivo, que perfumam o sonho alumiado nas paginas dos contos, outrora lidos e invejados. É a primeira oportunidade de dizer que afinal o conto é real! É a primeira oportunidade de o vivenciarmos para alem da imaginação.
No primeiro amor levamos avante a idealização do romance, das bolhas flutuantes, dos toques quentes, das caricias lascivas, curiosas no seu impulso, dos beijos envolventes na sua excepcionalidade ímpar á novidade inerente.
No primeiro amor, o menino sente-se um bocado Homem, mesmo sem a barba, mesmo sem a musculatura, simplesmente sente-se e ai de quem revogue a prerrogativa.
No primeiro Amor a menina, sente-se um bocado mulher, mesmo sem a curvatura ou a carne consistente, simplesmente sente, e o sentir não é logico ou racional, e peca por as vezes na rede da premissa se envolver.
No primeiro amor não há misturas dessas, tudo é primitivo, espontaneo, absoluto.
O riso ecoa como nehum outro, a tristeza abafa, dilacera e perdura.... como nenhuma outra.
O primeiro amor é mestre de muitas coisas para alem do principal.
O amor que pela primeira vez desabrocha, e que nunca, em tempo algum, se demarca da função iniciada.
Nunca se esvai da da lembrança, por mais esforços que se faça, é mancha peduravel na alma, mancha que o coraçao faz questão de fundir diariamente na profundidade da memoria.
Não importa com quem se está no presente, com quem se irá terminar no futuro, nada cessa a funçao do primeiro amor.
Nenhum desenvolvimento, por pior ou melhor, ao longo do curso de vida, extingue o fogo despontado, chama alta em tempos, brasas presentes, nos sobejos do templo que ruiu, continuam aquecer, continuam a deleitar, continuam a magoar na sua insistência de permanência forçosa  á individualidade que um outro amor possa ter, nas proporções referidas.
 Está sempre presente, a machucar, a iluminar e abençoar. A abençoar a pessoa passada, a pessoa presente  e a pessoa vindoura.
Independente do quê, do quando, do porquê e do se...

Sempre.


Sarah Moustafa

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Transfiguração


Reminiscência do fantástico, lembrança do absoluto, transbordo da seiva que alimenta a insatisfação protuberante.
Idílica transformação da larva pequena e viscosa, feia e soturna na consistência da natureza criadora, que baptiza no esplendor da riqueza interior, o conteúdo airoso do eterno revolver do secreto desejo da mudança inerente.
Batalha exaustiva de assim não suceder, de se abrigar no casulo confortável,  onde os olhos alheios da beleza que ânsia, não alcancem a disforme infame constituição, que repudia ao milímetro do segundo do tempo, que paira longe do seu abrigo.
 Evasão do transtorno, enterrada no solo, na escuridão do conforto, onde o ardor da alumiação Solar não chega.
Luta tenebrosa do sufoco adjacente, o ar que não entra, a água que não abençoa...o fogo que desponta de dentro.
O corpo dolorido, dor incógnita, suspeita da iminência da partida aguardada... mas as horas passam, a dor entranha-se dormente, o corpo modifica-se num estranho pressentimento, num medo atroz do desconhecido que age fora de controle.
As asas irrompem das costas planas, as patas surgem na locomoção exigida, a quem se nega mover, as cores raiam numa maravilhosa composição, numa maravilhosa harmonia de cor e viço da metamorfose, onde a paleta dos tons abrem o sorriso e a imaginação, á surpresa do deslumbre espontâneo da natureza.
Natureza no seu curso magistral que exerce proficiente na mestria do extraordinário.
A larva agora entende a contrariedade, agora voa sorridente na infinidade dos céus, exibindo o milagre dos mistérios sussurrados, quando mergulhou fundo nas crostas do medo. Quando mergulhou fundo, entendeu a divina aceitação do propósito que procurava, a larva borboleta encantada encanta os olhos da simplicidade que lacrimejam no seu voejar.

Sarah Moustafa

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Recado Urgente!



Escutem com a máxima precisa atenção, pois a mensagem alude aos sentidos básicos que nos foram entregues e que estupidamente inutilizamos.
Querendo ressaltar a devida desumanidade circundante, que só se concretiza pelos extremamente racionais, brilhantes humanos.
O humano provoca a desumanidade. O próprio individuo interrogador das catástrofes que assolam o mundo, que nestas horas se sente desgraçado, por nos ter acolhido.
Como o Compreendo.
O homem que possui um cérebro com a única função de o fazer flutuar no mar  de sangue e convicções irreais, que na sua artificialidade, move massas de outras massas flutuantes na cabeça , outrora dotada das máximas capacidades, do intelecto profundo, da inteligência desconcertante,agora vazia. Oca. Imunda na sujeira do corpo em que anda. Como sequer pode andar? Se ao menos os malditos Deuses existissem , na apregoaçao que é feita, talvez tratassem do extermínio desta gente que se apelida de civilizada.
Apenas porque evoluímos na manufaturação de materiais que aumentam o conforto de vida, pensamos que já não nos inserimos na selvajaria?
Ao redor, por todo lado, numa infecção global, apenas assistimos aos selvagens modificados na roupa com classe, na educação de mérito no papel pago das carteiras alheias, na pele perfumada dos luxos que roubam  daqueles que são menos merecedores. Que são menos, porque coitados, não conseguiram chegar ao tacho tão rápido como os outros, e como tal, por sua grande sorte e justiça, têm direito a menos que nada.
Zero. Porque o poder está impresso num pedaço de papel rectangular, este pequeno papel, que tanto ambicionamos, é assassino, genocida, catalisador, ladrão, malandro, patife, doente, larápio, arquitecto magistral da ratoeira em que nos enfiamos.
Será que existem assim tão poucos com o discernimento do pensamento óbvio?
 O pior é que a resposta é redondamente negativa, existem tantos perdidos nos recantos, com o pensamento capaz e devido de chegar a tal conclusão, mas a voz falha, os dedos tremem, em recitar, em proferir a critica que grita por sair cá para fora, para ser ouvida no julgamento devido.
As bestas instruídas na trapaça, que nos falta, no jogo onde seguram os peões indefesos, indefesos porque são fracos, porque assim querem, e fazem deles o bem lhes apetece.
Livre arbítrio? Livre pensamento? Livre escolha? 
Neste momento, possuímos a liberdade que nos deixam ter. Nunca aquela que queremos. Desenganem-se.
Mas nisto tudo, pior que os vilões de fatinho, os extremistas terroristas, e tudo o pertence a classe da mesma semântica, somos nós. Nós! A massa superior em numero, força, capacidade e inteligência, que assim o sabe, e que nada faz. Que nada quer fazer para alem de criticar aqui e acolá, realizar as produtivas greves, manifestar o descontentamento no telejornal......E a bola de neve continua, espero que até pouco. Espero que o despertar, que por vezes penso ver, não seja ilusão dos olhos que assim desejam ver.

Sarah Moustafa

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Débil






A provação estala na língua. Explode no sabor acre que preenche a boca, na aflição do aperto da verdade.
O teste da compulsão, que da carcaça eclode, irrompendo a resistência da debilidade, companheira frágil dos momentos inóspitos da provocação  que o corpo ousa tentar na anémica composição.
 Na incompetência de se provir de energias vigorosas, de se abraçar na aura auspiciosa, brilhante no seu alvéolo de esperança, inerte. Estagnada. Ininterrupta na possibilidade de convalescença.
Vaticínio das vindouras horas. Das vindouras tormentas cauterizadas na insustentabilidade da carne degenerada  Ardor na febre enferma, alumia os meandros da maldade metamorfoseada na forma de pequenas sementes, pedacinhos vis que no sangue inflamam a viagem descendente, ao transtorno do cessar do bafejar fermentado nos minutos da remanescente oração.

Sarah Moustafa


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Viagem




Na dispersão do momento, o pêndulo  rodopia, uma e outra vez, na giratória perfeita da amálgama de pensamentos que entopem as veias cerebrais, exaustas no exercício da sua propria função.
O pêndulo move-se na linha circundante e eu viajo com ele.
Parto para dimensão, onde o transe me eleva do corpo e atenciosamente proporciona a magnificência dos recantos da mente, soterrados nas imagens primitivas da recordação.
As memorias accionam a peregrinação ás vielas cruzadas, nos becos das ruas perdidas, das ruas que minguam sinalização, impelindo os forasteiros á descoberta crua do trilho correcto.
Impelindo o viajante á necessidade do exercício da intuição, como mapa da rota a seguir.
Porque na mente , e apenas nela, se fermenta o verdadeiro conhecimento, a verdadeira informação da necessidade latente, que se satisfaz na fome por respostas á incongruência das questões levantadas.
 E quando as colocamos levantamos a poeira que tolda os olhos e dispersa o raciocínio á sua vontade.
Na obtusidade se sucede a desconexão, e assim se dissipam em milhares de fragmentos perdidos nas faculdades máximas da capacidade inerente á existência.
O pêndulo é o motor de busca, é o retorno, o exercício da mente desleixada que não se conforma com o pouco que sabe, com o pouco que se lembra e na urgência da apoteose do resgate, parte na viagem da sua vida.

Sarah Moustafa




Domínio






No sufoco da violência dos gestos, a paixão brota.
Reverencia a brutalidade dos gestos, aclama a amargura na língua, o aperto no peito, a hedionda abominação de detestar o quanto se consegue amar.
A tortura do grito trovejante, as sombras desnudas na obrigação do movimento.
O negro ressalta no escarlate do coração, mas é tão ou mais forte do que este, porque é profundo.
As raízes crescem no poço das aguas lamacentas, lodosas,  encardidas... construídas no assombro do terror. O pavor das amarras que só se libertam na complacência do jazigo.
Temor deslumbrativo,resvala na intensidade da fixação mortificante, do domino e da entrega.
Da soberania e da serventia. Do dono e do escravo, a quezília do poder manchado na cama expectante, testemunha da perplexidade, do que dois corpos produzem na magnanimidade coagida da rendição do absoluto.
Na desarmonia perfeita  da idealização da quietude, a paz que não reina, o caos destemido que ocupa o devido lugar.
A imponderação da paixão desmesurada, sem controle, que magnetiza, prende no resoluto da batalha dos excessos. Na batalha dos pólos que se opõem terrivelmente e se tocam nas extremidades doentias da degeneração total.

Sarah Moustafa

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Rainha




Quero ser Rainha da vida assombrosa, quero num desespero ardente, da ambição desmesurada, quero na ânsia sôfrega, de assim suceder.
Quero segurar a caneta encantada, a caneta cravejada na sumptuosidade de milhares de diamantes,  dispostos á minha vontade, á minha tirania benevolente, de querer escrever a exclusividade da narrativa.
Desejo o trono. Desejo o trono do triunfo sobre as condicionantes, o desenlace perfeito da monumentalidade, requerente, da majestade senhoria dos sonhos, senhoria da solenidade de ser quem é, de deixar a marca nas paginas da historia secular, do romanesco fabuloso, das maravilhas do tesouro, espelhado no sorriso que desabrocha na certeza de tudo ser. De tudo conquistar.
Vontade infatigável de dançar no Baile Dourado, no fulgor do sucesso, da provação ao martírio,  ao transe sucessivo das vidas laicas, que assim são, por opção. Que assim são pelo comodismo da situação, pela incapacidade de verter o sangue, de derramar a imensidão de água do corpo, em busca do ideal, cujo peão revolve sempre á volta da cobardia da Assunção do Ser.
Galopo no cavalo do Reino que construí, galopo na velocidade de atingir a plenitude, galgo ao fim do horizonte pelo ideal, motor das engrenagens do corpo que se liberta, que se transforma, irredutível em permanecer imóvel , o corpo que quer ser Rainha, Rainha curvada ao esplendor da beleza que a rodeia.
A Rainha que sonha, que batalha até ao fim, para a finalidade da sua existência.
A reverencia sublime de beber do seu conto de fadas.
De perdurar na imortalidade das palavras poéticas, que profere no brado da grandiosidade da bravura.

Sarah Moustafa

sábado, 6 de outubro de 2012

Colapso


Tentei na magnitude da expectativa do esperado, debruçar me nas exigências requeridas.
Tentei mas falhei. Falhei na redundância da negação, na aceitação do indevido, no silencio da voz que se calou.
E agora entre o colapso, na emergência da queda, os pés caminham, na rendição do trilho, onde o sossego me aguarda.
A mágoa que não sara, dilacera. A luz da manhã fere os olhos na nebulosidade que os circunda durante a noite.
Despida caminharei na direcção do precipício,  pois na nudez intrínseca retomarei na Ascenção seguinte, ou talvez não, talvez o sacrilégio seja tão imenso que nada serei do que cinzas perdidas no oceano acolhedor.
O oceano profundo que me abrigará nas suas águas purificadoras, redentoras da perversão humana, que em mim levo.
Colapso por assim cessar. Colapso que me canta as direcções a tomar. Colapso que me quer em si, como nenhum outro.
Tentei mas a cabeça mergulha fundo na miragem do sonho da paz.
Acreditei que poderia mudar, o passado ser esquecido, a ferida curada, os amores retomados, os sorrisos deslumbrados...
O paraíso quer-me dar a mão, a mão com a luz acolhedora.
Todos começamos com boas intenções,  com o amor puro e selvagem, acreditamos na impossibilidade do ser impossível.
Mas na verdade carregamos nas costas, o fardo que com o tempo se revela, o sabor amargo de perder tudo  que sempre amamos.
Caio...afundo-me na profundidade inerente... Colapso.
De mim o caos se apossa, de mim exclusivamente, me toma nos seus braços. Me conforta no infortúnio.
  As vozes silenciam-se, as vozes que tanto alertaram á iminência da catástrofe.
O paraíso dá-me a mão, sem outro sitio para ir, perdi todos que pensava serem amigos, todos que conhecia.
Viram os rostos embaraçados, pretendem que não vêm, pretendem que não sabem que basta um pequeno passo no piso escorregadio para tudo mudar. Para tudo acontecer.
Tentei mas afundo-me. Tentei mas colapso, caio e lavo-me no mar imenso.
Colapso no retiro da eternidade. Colapso, por fim, enfim.


Sarah Moustafa



Desapego



Hoje a dor amenizou, e pela primeira vez, senti mais do que o adormecimento da mesma, senti o esplendor do desencaixe da saudade.
Hoje já não doí tanto, nas memórias desvanecidas, nos sinais do tempo, ainda mói o coração , verdade, mas  já não pesa como antes, e não pesa porque o desapego exercita-se, todos os dias, um bocadinho de cada vez.
Lentamente, na delonga dolorosa, as algemas do sofrimento alargam-se e os braços débeis escorregaram nessa brecha, que apenas quer sarar, que nos quer recuperar da devastação, da tortura interna da saudade incompreensível de um tempo que não volta, de um tempo ido que forçosamente capturei na tentativa vã de este permanecer em mim.
Um braço soltou-se, e surpreendida o fitei com o abalo emotivo, daquilo que impossível se assemelhava, brinquei com o membro, deixei-o seguir o curso natural da existência, e ali estava perfeitamente saudável, sem mazelas, sem cicatrizes, simplesmente perfeito como me lembrava antes da clausura.
A dor suavizou, já não custa como antes, já não revolve as entranhas, já não arde a garganta, embrenhada na densidade das palavras encarceradas.
Hoje o desapego mostrou-me a suavidade do seu raio, da sua bênção, que tantas vezes neguei, que tantas vezes combati, cravejando as unhas no seu cerne, para que ali padecesse e a mim me deixasse.
Hoje o desapego sorriu para mim, hoje a sua voz falou alto, hoje aceitei-o a entrar e hoje, pelo menos, a tormenta partiu, expulsa do legado onde tanto tempo reinou.
Ainda falta um braço, ainda falta a plenitude, mas hoje, por não custar tanto como ontem, lhe agradeço, lhe escrevo, lhe sorrio de volta.
Hoje aspiro um futuro, Hoje o vejo risonho para mim, expectante, aguardando a totalidade em construção.

Sarah Moustafa

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Cosmopolita



Cortês aproximas-te da citadina realidade, do Mundo desenvolvido, nas redes complexas da Urbanização.
Da cidade esperas alcançar a virtude do conhecimento, a virtude da grandiosidade do sonho.
O sonho que pairou nas noites campestres e que te invocou na mudança necessária.
Porque das partículas da força de vontade, pretendes realizar , neste novo mundo assolapado e veloz, a obra da tua vida.
As palavras fluem na corrente sanguínea,  organizadas no seu próprio tumulto, saem cá para fora na linguagem que se traduz em letras, e que poucos, muito poucos, conseguem proferir.
A missão da obra contemporânea na extensão do pensamento eterno.
Na perdição do tempo, o limbo as retêm seguras, na propagação da mensagem devida, porque nada acontece ao acaso, e até a menina que nasceu na simplicidade do campo alcança a perfeição cosmopolita, na sofisticação do termo e no emprego da mais tocante humildade.

Sarah Moustafa



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Contemplação






Medito sobre as curvas da voluptuosidade, reclinadas na cama de dossel, abraçadas na pacificação do momento.
O palato envolve-se na degustação do cálice rubi, cor de paixão deleitada nas ondas de prazer.
Arrebatamento da visão transcendente, graciosa emergiste das águas santas da feminilidade.
Das nascentes da Afrodite Perdida.
Momentos lascivos de êxtase salgado na imensidão do sacramento, mais do que sagrado, da imagem de Mulher.
Tormenta da debilidade constituinte do Homem , cujo deslumbre da visão primorosa, instiga, tumultua, provoca...
O ardor de querer beber da contemplação da vaidade.
O chamamento na languidez do olhar mensageiro da intempérie iminente.
A euforia do encontro dos corpos ,nas palpitações da imponência martirizante, de cessar a sofreguidão avassaladora da matéria, da luxuria.
Da carne temperada com o sabor voraz da insânia humana.
Contemplo a placidez satisfeita na cama de dossel, contemplo os contornos da criação divinamente diabólica.
Contemplo a maçã que escorregou nos lábios da cobiça.
Contemplo aqui e agora, no bafejar do abominavelmente maldito, tremendamente condenando e tremendamente rendido á submissão do sublime.

Sarah Moustafa

As Reflexões do Espelho





Já não te reconheço, as exigências dispares separaram o caminho trilhado, na deambulação dos relacionamentos.
Já não te reconheço mas quero-te ainda assim, quero-te por que és parte do meu todo, e ainda que distante das idas harmonias, a verdade é que continuo a querer-te. Sempre mais e mais na espiral da saudade corrompida.
A corrupção que infectou as esferas das nossas vidas, a bactéria das provocações, cujo meu corpo sirvo em oferenda, se a tua salvação assim outorgar.
Aspiro o dia em que o reflexo retorne ao seu primórdio, Insustentavelmente observo a imagem difusa, incompleta , gasta na intemporalidade e no desassossego da aspiração.
Quero-te ainda assim.
Ilusoriamente apelo á consciência, apelo á grandiosidade dos céus, apelo na desconsolação tremenda da inexistência de um paradeiro.
A suplicação segue com as força dos ventos, encarregues de te procurar, de te abrigar de volta a casa.
Continuo a querer-te, sempre.
Miragem...espectro de ti, de onde vens? Para onde vais?
Continuo a ver-te inteira, a totalidade de ti, ainda emerge radiosa no meio da podridão.
Volta para aqui...Sossega...Fica.


Sarah Moustafa