sábado, 12 de novembro de 2016

Sem- abrigo




Já não me importa para onde vou daqui em diante, que planos traçar, que palavras cuidadosamente arranjar.
As listas, as tarefas, as penalizações , a fotografia mais bonita de um retrato que nunca foi meu.
Não há tréguas, a paz é forma distorcida e manipuladora de outro ângulo da perversão!
Entrego os recursos que tenho, pago as minhas dividas e esvazio tudo o que existe dentro desta casa.
Não consigo olhar para mais nada que ainda aqui está.
Rasgo em violentos impulsos este papel de parede, onde tantas vezes nos encostamos, tem o vulto das nossas silhuetas por toda a parte e o bom gosto que denuncia a forma como dois corpos também criam arte.
Não quero mais saber da classe , todo este tempo... e o poder esteve sempre nas minhas mãos, Esmago com as mesmas os cacos daquilo que fingiste não partir, fingiste tão bem com a tua voz melodiosa,  eu vou só ali...
Claro que nunca mais voltaste, deixaste-me sozinha na bela mansão, sabias que sem ti toda ela iria definhar, tentei, tentei mesmo a sério preservar tudo... mas há tanto que um mero mortal possa fazer contra forças do mundo sobrenatural.
Permaneceu este templo assombrado onde ninguém ousa entrar onde, até então, eu jamais poderia sair.
Eu nunca acreditei em nuncas , essa é a minha benção e a minha maldição, quem é que dita o que posso ou não fazer ?
E então se fores o homem da minha vida ?
E então se me deixaste aqui a morrer enquanto seguiste divertido para a tua próxima aventura?
E então se não me pedes desculpa ou dás qualquer tipo de explicação ?
E então se nos perdemos para sempre e tudo foi em vão ?
Vai para o raio que te parta e leva todos os apetrechos que aqui ficaram.
Estou a regar gasolina em tudo e tenho um fosforo aceso na mão.
Sempre acreditaste que eu era parte de um fenómeno raro da natureza.
Guess what ?
Estavas certo.
Apenas a antecipação de largar esta pequena chama e ver tudo , enfim, arder deixa-me em êxtase,orgasmo redentor de liberdade !
O fim está finalmente próximo .
Posso ficar sem tecto, andar milhas neste longo e desconhecido trajecto, posso passar frio, fome, ser vitima de qualquer horrendo crime.
Não tenho nada e por isso nada tenho a perder.

Mas o mundo agora é meu.








Sarah Moustafa 

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