domingo, 4 de dezembro de 2016

Sou um pouco de tudo e pouco mais do que nada, sem rótulos sff .



Já não sei onde guardo o amontoado de frases feitas que me rodeia, os inúmeros clichés absurdos que me fazem tropeçar no passeio.
Tantos átrios de conversas ruidosas sem nada estar a ser realmente dito.
Ás vezes sinto que já não existe espaço algum sem a densidade desta poluição , as horas derretem-se nos sorrisos de pretensão,as máscaras fracturam-se por trás da cortina do meu olhar.
Afinal onde ainda é seguro respirar ?
Uma peça do puzzle permanece perdida aos tombos no vazio de um paragrafo que não acontece.
É uma esperança vã? Existe realmente encaixe ?
Algo que não se acomode ou adapte , que seja rebelde na insistência de ser absolutamente como é , sem implicar q perda devastadora de um abraço que o acolha nos dias em que a verdade da limitação física desta realidade também o abale. Sem lhe ser exigido licença e perdão .
Sem ser exigido nada.
Apenas a integridade de uma alma que se encoste noutra alma , e que isso seja tudo, mais que suficiente .
Suponho que seja esperar demais, que tudo dependa de um lado que tenhas que escolher .
Mas porquê? 
Parece um contra censo com a própria natureza.
Talvez a humanidade tenho mesmo sido feita á medida de um outro lote, um defeito de fabrico, uma experiência que correu muito mal...
Ou talvez , porque nunca me deixo de por em causa, o problema seja meu.
Os meus sentidos estejam toldados pela visão do absoluto , da beleza transcendente que existe em sermos corpos com oportunidade de saborear um pouco de tudo , sem vergonha, sem culpa.
Todos somos maus, mentirosos, traidores, fracos, manipuladores , bestas viscerais capazes de infligir dor no outro por prazer, egoístas, assassinos, deprimidos, estranhos, destruidores, negativos, tristes, perdedores, falhados, sanguessugas, invejosos, ciumentos, gozadores , bully's , azarados , corruptos , desligados de valores maiores...
Todos somos bons, generosos, capazes de abrir os braços e acolher, ouvir e compreender, beneméritos , dignos , humildes, sensíveis , emocionamo-nos com a nota musical do choro que nos trouxe a esta vida, felizes, empreendedores, espirituosos, iluminados, solidários , bem sucedidos , capazes, sonhadores, aventureiros, românticos , leais, investidos, fortes, resolvidos, genuínos, puros...
E não concordo que isto seja uma questão de escolha , com que lado te queres identificar, o herói ou o vilão? ( mas que sei eu )
Todos temos uma história para tentar justificar essa mesma escolha e porque esta força de oposição entre o bem e mal, tem sido pano de fundo para repetirmos sempre a mesma história e chama la de evolução.
Claro que se escolhermos um lado vamos atrair e ser seduzidos pelo contraste do outro.
Mas e se não escolhermos ?
Se arriscarmos a fluidez de um processo onde tudo se expressa , a coragem de assumirmos que estamos ligados á mesma matriz e que portanto a importância do que nos distingue é relativa?
Onde tem levado esta necessidade de competição , de nos fazermos valer através de resultados , de um canudo, de um status , afiliação , de quem tem os bolsos mais cheios, as camas mais preenchidas, o padrão de beleza mais vendido, o Guru mais seguido...
Todos aparentemente encontram o seu rótulo...

Tal como disse, é provável que o problema seja meu.

E a nave de volta a esta casa, nunca mais me vem buscar.



Sarah Moustafa


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