sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Pára de nascer nas minhas mãos .



Amo-te de uma forma egoísta.
Pois quem ama , quer ver sempre o outro feliz, mesmo que não seja consigo, mesmo que te desfaça em mil pedaços, esse sentimento altruísta segura-te a voz e dizes ... Vai, vai ser feliz.
Acenas uma despedida que sabes não ter volta.
Mas eu não quis, não quero nem nunca vou querer.
Amo-te da forma que sei amar, frágil, carente, extremista onde abro os braços e um espaço onde me encontro através de ti , onde te elevas através de mim.
Desculpa, eu desejo-te o melhor de tudo nesta vida, claro que sim, mas ainda sou arrogante o suficiente para sentir com cada centímetro de mim que esse melhor não existe sem a mútua presença de um sentimento partido ao meio e entregue aos dois.
Um eterno e inabalável encantamento.
Algo tão estranho, algo que não se corrompe e como tentámos....como ainda descemos baixo o suficiente para não honrar esse presente , essa dádiva que se disfarça de maldição, mas volta sempre ao seu estado original.
Há uns dias imaginei que éramos um coração de cerâmica e desfazia-o com raiva, empunhei o martelo e quis com paixão reduzi-lo a pó.
E ele continuamente voltava ao sitio, colava-se todo de volta medindo forças comigo.
Claro que ganhou. Ganha sempre.
Como disse, amo-te como sei amar, sei que me amaste também como o soubeste fazer.... com medo, com fuga, com distracção, com entrelinhas " deixa ver se ela apanha a mensagem encriptada numa canção ", com a intensidade de um olhar vivo que de repente se tornava o espelho mais intimidante e sedutor , fizeste me sempre ceder assim , sabes ? ...com essa forma de estares a falar com a leveza de uma criança e pelo meio saberes usar uma única palavra certeira com a seriedade e resolução de quem estava absolutamente seguro do que dizia e queria.
Se calhar recusei isto durante muito tempo...mas fizemos mesmo o melhor que sabíamos , com o que tínhamos, e faltava-nos muito, para conseguir dar e receber mais.
Duas crianças ainda tão magoadas...
Um menino-homem, uma menina-mulher, sempre a trocarem de papéis , para ver se aprendem a lição e dançam juntos na sala de espelhos.
Ups...acho que não passámos o teste.
Não faz mal... a minha alma continua a crescer pelo alimento da tua e embora seja egoísta, embora queira guardar-te num lugar seguro só para mim...
Há dias que a sensação é tão maior que eu e os meus desejos que te entrego.
Escrevo-te para o mundo.
Conto-nos ao universo.
E um dia , um dia... quando deixar de o ser  , selo-nos para sempre num livro.

Haverá outras pessoas, claro... , tu já passaste essa fase, tem uns anos de avanço para não confiar na paixão cega e não te prenderes com o que te estava a dar demasiado trabalho.
Eu ainda não consigo...
Ás vezes é duro perceber como todos avançaram e tu és a única que permanece no mesmo sitio.
E ás vezes culpabilizo-me e penso que sou inferior... mas depois releio estas páginas  de fora para dentro, ao âmago do que isto tudo representa para mim e choro de verdadeira emoção.

Nunca antes , nunca mesmo, cresci eu tanto. Passei de uma mão cheia de teorias e a senti-las e vivê-las na prática.
Foi sempre o que eu procurei afinal, a verdade do que dói, a realidade das coisas sem que elas tenham que perder a sua beleza.
E não perdem,

Não perdem mesmo.

É isso que nos mata .





Sarah Moustafa


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