terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Pimenta - Rosa



Ultimamente tem sido a porcaria do supermercado.
Quero dizer, algo que é rotina , piloto automático, num instante absurdo deixou de ser.
Porquê agora?
Há quantos meses passo naquele corredor e nunca nada me atingiu, já estava mais que nesta espiral de loucura , e agora de repente, aos acasos estranhos que me acompanham, lá estás tu.
Lá estamos nós.
Outra vez e sempre de novo , gravados na memória de um objecto qualquer.
É ridículo. 
Sinto-me ridícula de parar por alguns minutos , absorvida pela prateleira dos condimentos.
Esta história de não existirem máquinas de viajar no tempo, acho que não é bem assim, acho que me estou a tornar prova viva que para além de serem reais , são elas que te escolhem a ti.
Querem que te lembres sempre mais, saibas mais, sinta mais.... Nunca têm a decência de me perguntarem se quero saber, se quer propositadamente torturar-me mais um bocadinho .
Simplesmente dão me um pontapé para esta dimensão da memória que pinga ao detalhe.
A sério, sei mais de nós agora do que na altura.
A maioria dirá rapariga sai dessa , não te agarres ao passado.
E eu reviro os olhos saturada, será que alguém pensa que entro no supermercado com vontade de fazer figura de idiota ? Com a estratégia planeada na minha cabeça?
Também gostava de me segurar a teorias bonitas no papel, que aparentemente resultam com todos.
Será que alguém sabe o que é tentares a sério esquecer, avançar e vir sempre outro tsunami inesperado, um emaranhado de vozes , caricias , sentimentos balbuciados em pequenas coisas tão simples.
De certo que sim... talvez esteja no ponto de procurar terapia de grupo, fosse eu receptiva e menos bicho solitário.
Então não te queixes.
Fico bloqueada por uns segundos enquanto revejo uma memória súbita e esteja onde estiver , não consigo evitar, fechar os olhos e deixar que ela converse comigo, ainda que me quebre e praticamente estrague o dia.
Engulo em seco com a impotência disto tudo.
Volto atenção para as especiarias tal e qual como as percorri com o olhar um dia na tua cozinha.
E ergui a sobrancelha com curiosidade e tu sorriste de volta mediante a minha ignorância e ingenuidade. Talvez aí tenha entrado o teu fantasma, ela é demasiado nova para mim.

Pimenta - Rosa ?

Afasto-me com o cesto na mão,  desaperto uns botões do casaco preciso de voltar a respirar , ainda não consigo comprá-la , talvez um dia volte simplesmente a ser o que é , e regozije com ela o sabor de uma iguaria livre.
Mas ainda não foi hoje,

E não sei quando é o dia.



P-S -  ( Mas ... o supermercado a sério??? Ah...Maldita pimenta e os floreados que lhe arranjamos )





Sarah Moustafa

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