segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Memoirs- I




Um quarto só para mim, finalmente.
Apertado, do lado mais distante e inseguro da casa, mas ainda assim só meu.
Desejei intensamente desde cedo ter o meu espaço privado, onde as minhas sombras fantasiosas e introspectivas, se libertavam num segredo delicioso que guardava, com receio que alguém me o pudesse tirar.
Um armário só meu, e o prazer que senti em colocar lá minuciosamente cada peça de roupa que tinha e não tinha, só por querer ter.
Estava tremendamente satisfeita com sol que me entrava da pequena janela, com a desarrumação espalhada por todos os cantos que tinha por organizar, meu deus...estava mesmo inebriada de contentamento, por ter que fazer o que poucas crianças pensam em gostar.
Uma secretária, um presente de aniversário a que me deliciei em montar, peça a peça, era a minha primeira mesa de "trabalho", podia escrever nela, deitar me naquele tampo liso, revestido de tantos sonhos por onde costumava deambular. 
Podia até quem sabe, dali alguns anos, ter algo tão distante da minha realidade, como um computador, passo a passo, já tinha uma etapa feita, por onde o colocar.
Na verdade, não estava assim tão feliz. 
Fui forçada a vir para uma cidade anónima, a começar uma vida estranha, sem a única pessoa a que alguma vez me soube familiar.
Não sabia porque não estava com ela, ou ela comigo naquele solitário lugar. 
"Vou ter contigo assim que isto terminar", dizia-me aquela voz tenra, que me derretia em certezas de que de tudo era capaz. Confiava em tudo que pudesse desconfiar.
Não sabia o que havia por terminar, mas se ela me o dizia, considerava-o feito.
Encarei o novo sitio como umas férias, um ano lectivo que deveria com alguma paciência aguentar, e o aquele quarto ajudava, podia-me refugiar nos meus pequenos prazeres internos sem ter que a ninguém os explicar.
Sem ter que suportar um ambiente (des)familiar, que com 9 anos eu já citricamente sabia criticar.
Nasci com uma voz, que só uma pessoa sabia escutar. 
A minha pessoa.
Sabia que estava doente, mas não discernia a doença.
Sabia que não estava tudo bem, mas não discernia que não ia ficar.
Sabia que as pessoas morriam, mas não discernia que a morte me podia beijar.
E  senti o beijo no segundo antes em que ouvi o telefone tocar.

Sarah Moustafa

2 comentários:

  1. Inspiração e construção perfeita.
    Parabens Sarah.
    Meu terno abraço.

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  2. Interessante texto que possui os elementos perfeitos para se querer mais...
    Um abraço

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