sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

São sempre as mãos.






Sei que são as mãos. 
São sempre nas mãos que começam e terminam a extensão das palavras que nos arrancam e devolvem, repetidamente, a paz das trocas que não confessamos.
São sempre elas que se tocam como se conhecessem os milénios que nos separam, como se pudessem devolver ordem ao caos que trazem.
Não podem, mas insistem que sim.
Não sei se gostam apenas de nos mentir ou se acreditam numa ideia com tanta intensidade, que resvalam a loucura lúcida, do dia essencial em que foram criadas.
Gosto de apostar na mentira, é mais fácil.
E o facilitismo entendia-me.
Não passa tudo de uma estratégia diabólica para nem sequer pensar no assunto.
E resulta.
As vezes.
Nos intervalos acontecem momentos destes.
Momentos que me enchem de adrenalina, daquela mesmo, que vicia, devora, rasga, trespassa, um corpo que é apenas humano. 
Que é apenas um corpo em constante queda diante da rajada de emoções.
Já não bastariam aquelas que lhe são inerentes, ainda existem aquelas que gostamos de puxar.
De atrair até nós na irresistibilidade da dor, que dói tanto, e nunca aleija.
Nunca o suficiente.
Por isso sei. 
Sei que são as mãos, como as minhas, que não conseguem parar, que não conseguem apagar o que lhes foi escrito nas palmas e que sobrevive , sempre por pouco, neste coração.

Malditas.

Sabem o seu lugar.




Sarah Moustafa 

1 comentário:

  1. Parabenizo-te pelo blog, pelas criações expressivas e pelo talento absoluto. ZZ

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