domingo, 31 de agosto de 2014

Home (less)




Havia um castelo de cartas construído sobre a sua vida.

E ela não olhava para esta construção com medo.

Afinal se esse é o chão que lhe foi dado, que importa em que ponto deixou de haver telhado ?

Havia sempre céu.

Sempre azul e noite.

Estrelas e chuva com que não se aborrecer.

Não há que chorar pela realidade que nos rodeia se não conhecemos outra.

E sim.

Havia sussurros que falam de uma longínqua história em que havia sempre uma casa.

Havia sempre uma mãe e um pai e umas paredes firmes com que contar.

Havia sempre colo e leite morno para acalmar as horas menos doces.

Sobretudo não existia a preocupação de algo desabar.

Isto intrigava-a mas era lenda.

Nem sabia se era sonho a sonhar.

Aprendeu a amar o desconforto e a solidão e a encontrar neles os pontos por onde se orientar.

Podia tirar e por cartas onde quisesse.

Podia viajar e conhecer as virtudes que o nomadismo têm.

Podia jogar com a sorte e ganhar sempre mesmo quando perdia, porque era só ela e o mundo longe de si.

E vá lá... Vivia num castelo!

Não podia ser assim tão mau se era diferente e todos os outros iguais.

A curiosidade era forte, agarrou no baralho e fez se a estrada da tal lenda.

E descobriu que era verdade.

Só que não a sua.

E que mesmo os sinónimos não se aproximam de todo da essência dos seus semelhantes.

E que casa não é o espaço senão o tempo que alma demora a criar.

Porque as raízes estão e sempre estiveram no lugar de onde deviam de estar.

E que se o castelo é de cartas é porque só assim ela saberia por onde procurar a mensagem que está destinada a contar.


A casa é onde ela estiver.



 

                                



                 


                                                      Sarah Moustafa 


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Surpresa !



Tudo o que podemos contar como garantido na vida é a morte.
Certo.
Mas e as surpresas ?
Não serão sempre certas também? Garantidas a partir do primeiro momento em que nos trazem a esta realidade ?
Só facto de chegarmos até ela..., perguntem bem ao pai e mãe e filtrem bem filtrado a parte em que vos vão dizer que foram cuidadosamente planeados, e vejam senão têm um insight semelhante ao meu.
A vida como a morte são factos, incisivos e pragmáticos, sem arranjos, sem excepções na linha do tempo e no entanto, a irregularidade continua lá a arrebatar nos. Sempre.
E como pode um sempre ainda ser traduzido no seu melhor num simples, Uau ?!
Será parte da natural dictomia que nos compõe ?
Da procura de explicações no ponto que era final e afinal deixou de ser ?
Uma ironia gigante que fermenta o sarcasmo?
Uma ilusão que se desilude quando o nevoeiro deixa de se levantar?
É o que é. 
O que não queremos que seja.
O que morreríamos para que fosse.
O riso gigante no espaço para calar o choro.
A bofetada de silêncio na gargalhada que já enfada.
As surpresas não se curvam a terminologias.
Não querem saber com o que contam se sabem que nem em si pondem confiar.
Não sao leais , nem querem ser.
Só gostam de brincar.
Com o todo e com o nada, e tudo o que existe nesse meio.
Too bad, que nós estejamos no seu parque de diversões. 
Elas atiçam se com as manias e os controles, com as regras e os padrões.
Tem um amor platônico com essas artimanhas do ser humano.
Divertem se.
Excitam se.
São amorais e adoram ser.
Fazer.
Acontecer.
E quando pensaste que mais nada te surpreende na vida, foi ai que te tramaste.
Não desafies levemente o que gosta de se apresentar em peso.
É o que é.
O que lhes apetece que seja.
Tu ... Sorri e agradece lhes por nunca te faltarem.

Talvez assim te deixam passar para uma outra vez.


Amor platônico ?

Nao preciso de corrigir pois não ?




             
                       
   




                 Sarah Moustafa


domingo, 17 de agosto de 2014

Porque as palavras falham #13







                                                 



                                         
                                                                       Mas as imagens não





                                                                          Sarah Moustafa

Conta-me a tua história






Não há nada de diferente na minha história senão pelo facto de ser a minha .

Com todas as semelhanças possíveis com as vossas e as diferenças incontestáveis por igual.
Porque todas as histórias têm um guião, um inicio e um fim que nunca verdadeiramente acaba.
E todo um enredo previsível na sua imprevisibilidade.
Gosto de acreditar que estas longas metragens são compostas por duas coisas.
50 por cento extraídas da essência única, inigualável, que torna cada personagem indispensável no desempenho do seu papel, seja este qual for, neste mundo onde se projecta.
Outra percentagem feita de todos os pequenos momentos que irreversivelmente as afectam, moldam e transformam desde o segundo em que nascem das mãos do seu criador.
Sendo aqui que se começam afastar do mesmo.
É assim que se forma a identidade.
Acredito que o grande desafio está em querermos dissociar ambos os processos em vez de procurar fundi los no que são.
O caminho de uma metade faz se pela outra.
Desenterrando o que as circunstâncias reprimiram do que eram para conseguirem sobreviver.
E perceber que não temos que sobreviver .
Temos que abrir a porta da morte declarada para que a vida se possa assumir.
Atenção que esta não é uma verdade geral ou nunca seria a minha.
Esta é apenas aquela que ao fim de muito tempo à procura na cabeça dos outros, nas filosofias dos mestres e nas bíblias dos deuses, encontrei dentro de mim.
E quando reconheci toda a paródia que a tragédia pode encenar.
Se deixei de duvidar ?
Claro que não.
Deixei apenas de querer reeditar cada acto em cena e de recusar o rascunho que todos os dias me vai sendo entregue por não ser limpo e bonito.
Apaixonei me pelo deslumbre da perspectiva do protagonismo.
Pelo lugar onde sou mais que corpo e onde a morte não nos trespassa.
Pelo foco de luz na diferença.
Pela forma como a cortina cai e nos segura.
Seja o que for tem que me fazer vibrar.
E faz.
Tem que me fazer sonhar.
E faz.
Tem que doer.
E dói.
Tem que ter medo.
E tem.
Tem que me fazer querer Ser maior sobre o tenho.
E temos tanto e somos tão pouco...
Queremos ser sociedade sem identidade e queremos ir a nossa vida sem assumir a responsabilidade que nos cabe, no papel social.
É interessante como conseguimos ser abominavelmente egoístas ou estupidamente ausentes de voz e vontade.
De fogo e capacidade de acender a nossa luz.
E o mundo nunca fará sentido sem ela, mesmo que sejas a única pessoa que permaneça às escuras.
Faltaria sempre alguma coisa.
Faltarias sempre TU.
Esquece o cenário.
Esquece as câmaras e quem está por trás delas.
Deixa de ter ouvidos para aplausos e boca para críticas.
Fecha o livro que alguém te deu e abre por fim, o teu.
Não o leias, encarna-o.
Vive o espectáculo.
Há tudo de diferente na minha e na tua história.
Conta-a.
Eu conto te a minha.
É assim que sabemos que fazemos parte do todo.


Ocupa o teu lugar.









                            





                                                             Sarah Moustafa

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A hora que deixou de ser tempo






Chegou livre a hora do dia que nos esqueceu
Chegou com o grito da partida
O pulsar do sangue
A ferro e fogo
E Uma nova vida
Chegou límpido o nome que o vidro desvaneceu
Deitou se na noite vencida
E o halo de luz não escureceu...

Sairam me dos dedos as promessas 
Os segredos que o universo me escondeu
Escreveu me nas palmas das mãos 
A verdade da mentira que ninguem lhes leu
Sorriu na fuga de todas as palavras inconfessas
E voltou na hora que deixou de ser tempo
Que deixou de fazer apenas parte das peças

E a historia deixou de ter fim
E a vontade ...
Arritmias do coração
Fome maior que a imensidão
Sao as saudades de mim
O para sempre 
É o caminho da voz 
Que chegou na liberdade
Quando gritou que sim.

Chegou livre a hora da noite que não nos venceu. 

                     


   
                                 



                                                                Sarah Moustafa

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Pessoas como nós



Tenho saudades tuas.
E pessoas como nós não alinham em esquemas saudosistas e não se subjugam a uma vontade maior que a necessidade.
Pessoas como nós recuam aos avanços do sentimentalismo.
Rejeitam frases processadas ao tom da banalidade.
"Amo te ".
Pessoas como nós não envergam óculos cor de rosa ou exibem corações comprados a uma data.
Desconfiam do anel no dedo e da assinatura confiada a um rótulo conjugal. 
 Pessoas assim não desenham sorrisos alienados ou agonizam ao som da badalada e marcada ausência.
Pessoas como nós são descrentes ate do próprio sentido da gestação da vida.
Sejamos pragmáticos já basta aquilo que nao conseguimos alcançar no raio do nosso controle.
Arrefeçamos a incandescência da lava que consome esta gente.
Pessoas como nós não se escravizam as suas paixões.
E por isso quando pessoas como nós se encontram de joelhos diante dos enredos que o destino lhes traz, incapazes de se mover da teia em que a surpresa da vida os capturou, submergem nos mistérios da transformação.
E sair vivo de lá torna se secundário. 
Tenho saudades tuas e é mentira.
Tenho saudades de mim que só existe na colisão com o ti.

Pessoas como nós não formam pares.  




                           

                    



                         

                                                                  Sarah Moustafa



terça-feira, 5 de agosto de 2014

Musicas que nos traduzem #13






" Where there is desire there is gonna be a flame
Where there is a flame someone's bound to get burned
But just because it burns doesn't mean you're gonna die
You gotta get up and try, and try, and try
You gotta get up and try, and try, and try
You gotta get up and try, and try, and try..."






Pink - Try







Sarah Moustafa

domingo, 3 de agosto de 2014

O conteudo que nao sabe da sua forma





O lugar do mundo onde pertences é aquele que te convence a ficar ou aquele que te dá toda a mobilidade de partir?
Deixei de saber onde começa a casa e termina o lar.
Se existe uma mobilização fixa da mesma ou se esta pode ser alicerçada no material que só esse mesmo mundo me fornece.
A divisão de ideias em relação ao assunto advém provavelmente da mesma dicotomia que me encarna.
Dai talvez me nasçam as palavras para me soprar conforto a imagem de um abrigo que lentamente se desenvolve no espaço onde só sei Ser completamente honesta.
No entanto nem elas me acalmam a necessidade da materialização.
Da forma solida no mais aéreo conteúdo.
Até o desassossego precisa do seus casos fugazes com a calma.
Até  o mais livre pássaro precisa do ramo onde pousar.
Mas qual e árvore que devo procurar ?

A que nasce de mim, se pare em letras  e ainda não tive coragem de plantar.







Sarah Moustafa



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Efeito Borboleta




Apanhei-o a olhar para mim e demorei uns segundos, mais que o esperado , a desviar aqueles olhos dos meus.
Algo controlou a incontrolável vontade de fugir do lugar que sabia estares a vasculhar.
Demorei a entender que esse algo fui eu mesma, a despertar para a curiosidade da tua vontade.
Quererem me pelo que escolho mostrar é natural.
O que não é, é desejarem- me pelo oposto do que escolho transparecer.
Daquele momento em diante o enigma foi me infiel, passou para o teu lado.
E as dúvidas ... encontraram um refúgio nas tuas certezas.

Não olhei só para ela, via-a.
Penetrei-a.
Invadia-a.
Todo o halo da sua imagem transbordada a um suspenso momento, ascendia deliciosa ao desbravar de uma intriga, tão nua e crua  que me paralisou na visão de uma mulher estranha,  familiar... magnética 
Havia um brilho intenso, tão tímido como poderoso, escondido na capa da noite de que se cobria para a disfarçar.
Mas estava lá e mais do que querer beber daquela luz , quis , sei la porquê, dar lhe a ela de beber de si mesma.
Puxei ousadamente a linha primordial do seu novelo. 
Sei que me apanhou e que a perturbei.
Confesso...Deu-me um gozo do caraças.

Tentei o meu melhor para me resguardar e acabei por ser um livro aberto.
Desfolhou-me indecifráveis páginas e leu tudo aquilo que nunca consegui
O pior é leu tudo, palavra por palavra, em voz alta .
É tramado ouvir aquilo que não sabemos que queremos ouvir.
Atormenta me.
Devasta-me e preenche-me de uma calma confessadamente intempestiva.
O sismo da tua fome abriu  fendas de um apetite adormecido.
Esquecido nas tatuagens de histórias desvanecidas na pele.
Prometi que só voltaria a entrar na teia destes domínios perigosos da paixão , quando os joelhos tremessem, as mãos suassem, o corpo se contorcesse de desejo e a mente ... essa totalmente se desestruturasse a uma nova consciência, a um desafio de limites tão grande que me tirasse aquilo que mais tenho, as palavras.
Pois.
Agora sim, faz sentido aquele " Cuidado com o que desejas."
Não consigo fugir porque pela primeira vez, observo a figura fascinante de um ponto de interrogação maior que o meu.



Algo me cola ao irresistível ímpeto de a querer fazer pensar...
Eu não paro muito para o fazer.
Só sei que e dizendo tudo ...


Ela dá me vontade de voltar a escrever.





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Sarah Moustafa