sábado, 24 de maio de 2014

Fujo para poder ficar.


Tenho que admitir é verdade.
Fujo.
Porque sim e porque não, a esta ou aquela hora.
Fujo.
E a corrida paralisa me. 
Porque esta ou aquela emoção arrasam me, porque esta ou aquela pessoa assustam me, por me desafiarem, sem nada fazerem, a arriscar... e a querer ficar.
A forma tão física do outro e a perplexidade do que vejo em mim nessa projecção, é tamanha, então sim, corro. 
Despeço me antes de sequer chegar.
Faço milhas e ainda que submetida à força da gravidade para voltar atrás, não o faço.
Resisto ao curso natural dos eventos, quebro cada osso a tentar e o medo ganha de longe a qualquer dor.
Que doa mas que não venha esse terror desconhecido, um permitir de proximidade.
De intimidade.
Fugir não e uma cobardia, porque ter consciência  não permite a desresponsabilização.
É a zona de conforto mais desconfortável onde se pode estar. 
É a solidão escolhida.
Fugir não é um capricho, um defeito ou uma ausência de sentimentos.

Eles ardem mais alto do que nunca.

E quem não tem medo de se queimar ?
Senão aqueles que sentiram o incêndio crepitar sobre a pele, cedo demais.
É um sistema de defesa, que como qualquer outro, se inverte e te deixa mais vulnerável.
Ninguém se critica mais duramente do que eu mesma. 
Ninguém compreende melhor , do que eu, as falhas e as limitações que me imponho. 
Por uma razão qualquer tenho demasiada autoconsciência. 
A verdade é que fugir dá me a ilusão de liberdade que desesperadamente procuro.

É o caminho errado para vive la ?

É.

Mas é o necessário para a compreensão mais pura e bruta da minha natureza e os seus condicionamentos.

 " If you re a bird , i am a bird "



É assim que me ajudam a não ter medo de ficar.
  

                           
P.s - E como o acaso não existe, é logo esta a canção da minha vida.




Sarah Moustafa


sexta-feira, 23 de maio de 2014

O portal


Existe uma sensualidade interminável nas palavras, na forma lasciva como se articulam, como proliferam o afastamento ou aproximação de uma determinada intenção.
Como são poderosas e nos marcam, repetindo se à exaustão nos momentos em que o silêncio é tudo o que nos rodeia.
Como nos movem entre loucuras e decepções, como nos tatuam a alegria dos risos provocados ou a ferida do que foi dito e jamais pode voltar atrás.
Como se tornam tão nossas e dos outros, ainda que pertencendo a uma linguagem global, cada palavra adapta se perfeitamente a quem a verbaliza.
Fascinam me, tanto.
O diálogo que sem voz, se subentende numa conexão maravilhosa entre mentes , alimenta me a fantasia, sendo o que encontro, que mais me aproxima da sobrenaturalidade. 
O apelo mágico de uma transportação  a uma realidade onde o físico se transforma além da carne, onde a nudez e o toque se concretizam da forma que escolhemos que aconteça.
Chegar ao sexo é fácil, viver uma verdadeira sexualidade, nem tanto.
Cada um de nós, acredito, tem um portal  específico para atravessar até esse êxtase de totalidade, entre a mente, o corpo e o espírito. 
O meu são as palavras, as ideias que trazem, a brincadeira e o desafio que produzem. 
A transcendência de um jogo que me faça sentir completa e genuína na identidade feminina que trouxe a esta existência. 

Porque saber que sou mulher, não é o mesmo, que saber estar em contacto com ela.

           

                                  









Sarah Moustafa 

Os imprevistos


O cabelo teimoso fora do sítio.
A rebeldia que constantemente afirma, pelos seus meios, mais ou menos engraçados, a nossa impotência perante o controle absoluto das circunstâncias que queremos ,por tudo, ter.

O acidente na estrada que não conseguimos antever.

A dor da compreensão mortal e inútil dos seus limites. 
A ascensão de uma revoltosa culpa.
O destino.
O Karma. 
Os deuses e a sua perversidade, qualquer coisa serve.
Menos a aceitação.
O imprevisto, o salto que quebra, a meia que se rasga, a moeda que cai ou o papel que voa.
A tinta que se derrama.
O sangue que desce antes do tempo, como se o tempo dependesse da hora que julgamos certa.
A imprevisibilidade é desagradável porque somos constantemente prepotentes na forma que tentamos ignora la.
Então ela brinca conosco, umas vezes mais a sério que outras, mas sempre acentuando a chatice da sua presença.
Sem uma forma ou vulto que lhe pertença... Seria fazer batota e qual seria a piada disso? 
Sai de casa com o guarda chuva e nao choveu... Fantástico.
Sai de casa novamente, sem ele, e advinhem o que aconteceu ?
Pois.

A filha da mãe tem sentido de humor. 

Não tem ? 

                        

                    




Sarah Moustafa  

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Purgatório



Não posso acreditar na solitude da alma que não se convence.
Não posso crer que seja só isto que acontece, que continua até que um dia desaparece.
Não posso mesmo, desculpem, acreditar nessa assunção de vida como não posso na mesma medida acreditar na morte.
Tudo o que me convence é o ideal da eternidade.
O problema é que um ideal também não me chega. 
Só quero alcançar a dimensão de uma verdade que me sirva. 
Respiro por uma verdade miseravelmente absoluta ,sabendo que esta, absolutamente não existe.
Como sinfonia perfeita tocada aos sopros do pior instrumento, a mágoa acidifica me o julgamento.
Estou tão cansada de procurar um equilíbrio nesta disfunção que me compõe.
E ainda mais cansada de não conseguir por nada, abdicar dela.
Parar de pensar o remoinho de pensamentos que eclodem a todo e qualquer acto quotidiano de vida como humana. Estou cansada desta batalha por uma humanidade , que se algum dia também foi minha, desapareceu.
Estou cansada dos meus anjos e demasiado apaixonada pelos meus demónios .
E a paz que só me chega no cerne da mais intensa confusão.
Estou cansada de ser o que nem sei que sou.

Sobretudo...



Porque tem que ser tudo sobre mim?





                          








                                                         Sarah Moustafa