sábado, 30 de novembro de 2013

Faces da Lua #2



Quando tens duas palavras que nunca mais poderás dizer na tua vida,
Sem automaticamente associá-las a alguém,
Sabes a profundidade do efeito de um nome.
Sabes que já não tens como nunca mais saber.
























E não há nada mais belo e assustador do que o irreversível.











Sarah Moustafa

Paradoxos


Desejar proximidade na distância 
Estar longe e tão perto
Querer muito e ter tão pouco
A insuficiência ridícula 
A impotência máxima
A resignação doente.
O excesso carente.

Não sabem de que falo ?

Eu também não, e não sei se é o problema ou a solução .
Só sei as fagulhas que ora me queimam ora aquecem o coração.





Sarah Moustafa

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Faces da Lua #1




Porque não escrevo sem rosto.

Porque caminho em direção de mim mesma

E chegou altura de me ver

Chegou altura de vos mostrar.

A minha lua brilha cheia

Quando se despe

Imersa de luz e sombras

E se mostra nua.

Quando se faz de si mesma, sua.


                          





Um excelente, vibrante, intenso fim de semana.





Sarah Moustafa 


A música


Senti o impulso bruto da energia a trepar por mim de rompante.
Algures entre a cabisbaixa incerteza e a vontade pungente de me libertar de mim mesma, algo naquela mínima melodia resultou.
Libertar-me um pouco do passado carregado, do presente desencontrado e qualquer futuro ansiado.
Abrir o nó das cordas que me arrastam os tornozelos e correr espontânea de encontro á fonte de inspiração.
Levantei-me, do outro canto da casa, a música tocava baixo e eu sentia-a estrondosamente a brotar pelo meu corpo.
Fui, sem me aperceber dos segundos que me demorei a estar já enredada na melodia.
Aumentei-lhe o volume, como a dose do meu entusiasmo, só vibro verdadeiramente quando ela está alta, excessiva até me acobertar de qualquer realidade circundante.
Absorvi-me no rebentamento da estagnada vitalidade destes dias, cantei com as emoções na flor da pele, de olhos fechados e gestos dramatizados. 
Sim eu sou dessas pessoas que quanto sente a musica só na pura expressividade do que se passa no intimo, se faz ouvir.
Estava sozinha de todas as formas, aquele seria o meu grito de redenção para comigo mesma.
Cantei até me despejar de tudo, até ser completamente indiferente ao mesmo.
As emoções são mesmo lindas.
Gritei amor das entranhas.
Vibrei por me fazer ouvir, por me fazer querer, e entre minutos eternos, deixei-me incendiar na chama alta do meu corpo em consentimento.
O blast de energia extasiava-se a cada letra de ferro e fogo da mesma e antes que me desse por mim já tinha terminado.
Parei numa meia volta incompleta, os cabelos livres, despenteados e estarreci no choque de diferenças com que num ápice me vi.
De repente toda aquela chuva de intensidade caiu-me como um pedregulho no estômago.
Exactamente no sitio para onde vão, quando enfermas e escondidas, para serem quer queiram ou não, digeridas.
Fiquei perdida no meio ponto de uma sensação fantástica, que acabara de sentir, com aquela náusea que não me deixava sorrir.
De novo e de volta a encruzilhada dos caminhos que têm que se escolher, e já parecem escolhidos em tantas outras sublimes dimensões da existência, onde não tenho a responsabilidade de as fazer.
A encruzilhada que se repete continuamente, não saio dela, não sei se quero sair e nessa hesitação permaneço.
Não sei fingir.
Baixei o volume e diminui-me novamente.
Fitei-me no reflexo disforme das vitrinas do armário.

De onde te vi?

Para quê te encontrei ?



















Sarah Moustafa 

Heart Notes #4








Life seems to have meaning, 



When you spend it with meaningful people .







Sarah Moustafa

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Está alguém , aí ?



E que alguém me leia e não finja que entenda
E que alguém me beije e não minta,  
E não se canse da explosiva sedução lenta
E que alguém me manche a pureza
E se derrame nos meus papiros
Desfeitos de tinta e delicadeza 

Que alguém se atreva  a escrever me 
E me deixe nessas letras estrangeiras 
Para que me encontre, e uma vez mais...
Tenha de dissolver-me

Que alguém se atreva a calar 
Aquilo de que não sei falar
E que a voz da macieza
Crepuscular
Me traga o conforto Selvagem de uma onda revoltada
No seu próprio mar...

Que alguém seja
Além do que se veja
Da superficialidade
Que me boceja
E que anseie a profundidade  !
Que nela me acompanhe
Porque dói 

Mas não aleija.





Sarah Moustafa





quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O peso.


Um dia ousei acreditar que tudo iria melhorar.
Que o vazio de uma qualquer presença se consumaria na paz dos perdões que não nos chegam.
Acreditei com toda a força que me gravita esta presença na Terra que me recuperaria de todo este dano imensurável que a mesma me provocou.
E sabem porque o fiz ? 
Para continuar a viver todos os dias, a possibilidade contrária de amargura de um ser humano que jamais se desenvolveria ou aproximaria de um resquício de sabor das suas potencialidades, simplesmente não podia acontecer, se o acontecimento em si, implicaria as formas do meu corpo preso.
Ele teria que engrenar de alguma forma, doesse por onde doesse, e dor nunca foi estrangeira ou companheira, mas parte tatuada de mim.
O que entendi é que é possível carregá-la comigo entornando lhe todas as emoções descritivas e imaginárias e que ela inevitavelmente se vai reformulando e transformando em algo diferente, compensador.
Apreensão de um mundo que devia ter começado cor de rosa e se formou em triângulo invertido .
De negro a todos os tons de cinza, a todas as cores desconhecidas a íris humana, eu sei as uma a uma porque elas sabem me a mim.
O interessante é nascer com idade e tentar dilui la, rejuvenesce la com o passar do tempo que a compreensão do mesmo,  te vai permitindo descarregar.
Todo o peso que se vai lentamente destrancando dos meus órgãos, primeiro em ataques de ansiedade e pânico tão intensos que a morte nos bafeja vida e a loucura alguma lucidez.
Este caminho de cura é uma estrada interminável aos dias que me restam para a procurar, mas quando olho para a mulher que não me sorri de volta no espelho, ainda, estão lá, límpidos, imensos os olhos de vontade de se transcender.
Vontade inenarrável de crescer e para isso, morrer as vezes que necessárias tiverem de ser.
E eu vou morrendo entre as flores que subitamente me murcham nas mãos e as noites que me cobrem de escuridão.
E eu vou renascendo cada vez mais pura cada vez que me banho no inconsciente da minha mesma podridão.

É por isto que sou, preciso, e serei sempre só .
Ninguém quer a morte declarada ao sol.

Eu certamente também não quereria.
Eu certamente também não o poderia.

Porque ... Eu certamente, tentaria.


              


                                                         


Sarah Moustafa

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Uma semana.



Uma semana tem o poder de te mudar a vida inteira.

Três semanas atrás embati no fundo de mim mesma.
Aterrei a proximidade perigosa do meu limbo melancólico e recluso.
Existem horas que o compasso da vida deixa de funcionar, para passar a funcionar melhor do que nunca.
A minha alma deitou se no chão por dias interrogando a existência de um propósito em tanta dor oferecida numa rajada desmedida, onde se sente, toca e vê nada mais que um rasto de destruição por contemplar.
Chorei por horas a olhar para o resultado do que me estava acontecer entre um piscar de olho e um batimento de coração.
Chorei para o cansaço de um conforto breve me amparar, num sonho onde dormisse sobre plumas desafiantes a minha condição intratável.
Eu amo por cada gota de sangue que se multiplica diariamente no meu organismo, e por amar desta forma devotada , apanho as anemias mortíferas quando não posso dar aquilo que quero receber.

Um amiga. Grande.
Um amor. Grande
Um objectivo. Por encontrar.

A minha consciência  cada vez mais pequena, encolhida num canto de desvalorização repetitiva e culpabilização alheia.
Sim, as pessoas abandonam-nos apenas porque a trajectória de vida, roda para direcções diferentes, longínquas das nossas aspirações.
E dói porque trespassa-nos para lá do físico.

Amizade esfria, o amor troca-te.
E o que te sobra no final se não sempre o mesmo, tu deitada num qualquer espaço, imóvel, petrificada com cada imagem de um presente que jamais voltará acontecer.
O desapego e a luta interna que te incinera a tu própria essência e a modifica para sempre.

Uma das melhores coisas que me disseram até hoje :

" Já não conhecia alguém tão frontal nos sentimentos há muito tempo
Quero dizer-te que és inpoluta no sentido em que, ao contrário das pessoas que conheço em Lisboa, todas cheias de mundo e certezas, colocas-te em causa permanentemente..."


Portanto ali, prostrada na escuridão eclipsada dos dias que subitamente fugiram, porque não conseguia  ver a minha própria luz, aquela que sinto reluzir em reflexo no rosto dos outros quando olham para mim? E finjo não a perceber.
Porque é que preciso de uma constante validação de quem não se reconhece a si mesmo?
Porque é que me importam as pegadas na areia constantemente dissolvidas pela chegada do mar?
Que relação de amor-ódio devem ter entre si, para chegar a um entendimento de partes que desintegradas se vão juntando todos os dias.

Uma semana , sete dias paralisada, não sei quantas horas a ser constantemente reanimada.
Abri os olhos quase sem os mover, ainda entorpecida pelo tempo de silêncio e choque, quando aquela voz que só nós sabemos o timbre, me disse simplesmente para entregar as mãos, as minhas que não se distinguem do próprio coração.

Ainda antes de o conseguir fazer lá estava o sinal luminoso a reluzir me pela penumbra e a silhueta que se aproximava.
Não fazia ideia de quem era, só sei que corri na sua direcção como nunca corri na minha vida e do embate de dois corpos, da mesma carne, do mesmo osso, do mesmo sangue...ah.. da mesma fractura, cheguei a casa.

Cheguei a casa  e ela esteve sempre em mim.










Sarah Moustafa 

domingo, 24 de novembro de 2013

Além do medo




Era agora ou nunca.
O antes sem depois para que o agora não fugisse.
Fugiu na mesma , nao se controla o que não se tem, tempo.
Nunca gostei que me anunciassem a impossibilidade,precisava, eu mesma, de nas minhas faculdades incapacitar o que capacitasse as probalidades.
Era ali ou em lado nenhum, que me transportaria para a dimensão, além do próprio medo, simplesmente porque em vez de fugir dele, mergulhei-o a fundo.
Sentir se excitada com o próprio disturbio, querer fazer dele a sua submissão e domínio, num jogo perigoso de poder e perfume, é um acelerador que julguei travão.
Eu queria mais do que estar em risco, ser o próprio risco, arrastado pela estrada como uma linha continua sem saber lhe o fim.
Ir com ganas, com fome, apetite e vontade, abundancia, fertilidade, sentindo as sombras em alvoroço comigo e com esta transformação.
Fiz lhes frente assumidamente, mandei as para o alto dos céus e o quinto dos infernos, com prazer.
Diabolicamente tudo me tinha sabor, cheiro e cor e não existe nada mais lascivo que apuração dos nossos sentidos básicos
Ter orgasmos múltiplos vestida, de alma nua.
Ser ordenada ao que fazer e cumprir um dever , cuja maior oferenda, a obrigação, são umas algemas de liberdade indiscritível, a quem nunca descer ao seu privado inferno,perceberá .
Eu escrevo sobre o assunto com uma venda nos olhos e vejo me a mim e aos outros como nunca vi, em cada segundo desta vida
E ver além da própria invisibilidade não são plumas cor de rosa de compreensão
São escamas, peles, buracos e vazios profundos de desconexão.
São pétalas negras espalhadas em toda a nossa dimensão.
Eu caminho com elas.
E sabem, as vezes ver tudo isto é mesmo difícil.
Mas não existe nada mais belo, do que poder olhar sem olhos.


Sarah Moustafa. 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sem Tempo. Para Sempre.



O antes, o agora e o depois
Pensarei em ti
Além de pensar
Deito-me e sinto-te
Além de sentir
Que te deitas comigo
Que lês todas as cartas
Enquanto as escrevo
Que advinhas palavras
Que o silêncio traduzem
E desvendas o segredo

No antigamente, no já e a seguir
Serás sempre a verdade da voz 
Que não se sabe mentir
Que encerra em si a fusão do universo
Que da própria pele nos irá emergir
E serás o sorriso tímido das estações frias
Que se farão ouvir!
Serás nada senão a plenitude do que és
Pois por seres, serei.
Seremos.
A essência, a natureza, a força transcendente
Que encerra em si todos os poderes

No passado, no presente e no futuro
Estaremos Juntos
Ainda que separados
Ainda que de outro lado do mundo
Estaremos juntos, porque o somos
E só estando

Somos Tudo.




Sarah Moustafa 


domingo, 17 de novembro de 2013

A mão que não te encontra.




A minha mão que não encontra a tua.
Que não quer senão encontra-la

Perde-se por entre outros dedos 
e não lhe dizem nada.

É a palma da tua, só tua
Em quero estar deitada.

E a nudez de uma intimidade partilhada
Onde corpos vestidos dormem
Na promessa de fusão continuada
Onde a pressa é lentidão
Da paixão no fogo de uma lareira
Crepitada

Onde um lobo uiva longe
E a Lua da noite desce
Prometendo encontra-lo
Conforta-lo
Calar-lhe enfim a dor.
Ama-lo.

A minha mão que só precisa da tua
Que quer senão toca-la
E para parte de si no infinito
Leva-la.

Esta noite, as estrelas escrevem no céu nada senão o teu nome.


Sarah Moustafa 




Resposta.



Em Resposta ao comentário de um Anónimo neste post:

http://lualibra.blogspot.pt/2013/11/o-homem-mais-que-im-perfeito-2.html

Deu-me que pensar.



A questão não é tanto se vale a pena tantas lágrimas ou sofrimento
A questão é que certamente da experiência provem-te as necessárias dores de crescimento.
E se faz crescer, tem que te fazer doer, se saímos da zona do nosso conforto, se nos desbordamos no entendimento do que se passa acontecer dento de nós.
Tem muito pouco a ver com o outro, vale tudo, sim , é por nós.
Nós e nosso corpo, o nosso coração e a nossa alma.
O amor bate-nos a porta e muitas vezes ela está fechada, muitas vezes o receptor da nossa emoção não quer, não pode ou não consegue receber-nos com toda a dimensão e entrega que a mesma acarreta.
Mas quando amamos não precisamos de validação.
Essa é a parte mais bela e poética da trágica construção dos relacionamentos.
O amor não precisa que se lhe abram as portas, ele infiltra-se nelas.

Portanto eu tenho a certeza absoluta que sim, vale tudo.


" Tudo vale a pena, quando alma não é pequena."



Sarah Moustafa 

sábado, 16 de novembro de 2013

Obrigado.






Ontem disseram-me que era uma mensageira do universo.
E eu acreditei, confesso.
E que se a vida não me tivesse tirado tudo, eu nunca teria levantado os olhos para ele.
E que se assim fosse eu nunca teria feito dele um eterno verso.




Obrigado, Vera Braz Mendes.


Sarah Moustafa

As pessoas em mim.




As pessoas genuinamente atraem-me e nessa mesma medida repulsam me.
Purgam me os olhos de encanto, de limpeza de cura e amor.
Desfazem me as emoções inpolutas, pesam nas de egos, traições convulsas, e a estima que se auto declina e luta.
Não existem culpados se somos todos condenados .

Transformar vidas que se cruzam entre noites e descobrem fogo, fé e luz dos dias.
Ser eclipses reflectidos, densos, profundos ao carma prometidos.
As pessoas que penetram nos meus gestos, que me alteram a condição e a voz , que me desenlaçam a alma de nós, intensificam me .
Petrificam me.



Excitam me.


Sarah Moustafa 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O Homem mais (Im) Perfeito #2


Magneticamente atraída.
Completamente perdida, entrei no submundo que as noites me imaginavam.
As vezes, acho mesmo, que não passou tudo de um momento cristalizado na imaginação e que o tamanho da força do meu desejo exacerbado, conseguiu trazê-lo para a dimensão da existência.
Ainda na duvida se foi verdade ou mentira, existiram indubitavelmente a violência das emoções arrasadoras, e essas não há como não saber que estão ali, que estão ali concretamente a invadir-te cada centímetro de espaço que te pertence.
Cada batida do meu coração ingénuo professava o resultado.
O problema é que eu sempre gostei muito de profecias, de inspirações profundas e mágicas nos meus dias, portanto não era agora pela agravante de ser fatídico que iria recuar.
Não depois de toda uma longa, jovem vida a ansiar por sentir contacto com o transcendente, com os desvios imperceptíveis no meu ritmo cardíaco.
  
Disparava - A cada palavra.
Disparava- A cada Silêncio.  
Dispara- A cada Oportunidade.
Disparava- A cada Dificuldade.

Se me retirava completamente do meu eixo, por bem e por mal em igual medida e intensidade, firmava-se a certeza da importância que eu sabia isso mesmo ter.
Nós sabemos sempre quando alguém se enterra nas nossas entranhas mas só o reconhecemos muito depois.
Numa tarde de solidão insatisfeita qualquer em que todo o teu corpo se revolve em volta da compensação de um nome.
Nós sabemos sempre, e sobretudo, pela marcada diferença que assinala em nós, pela roupa do avesso que começa a ser usada como se sempre a tivesses usado assim.
Pelo nascimento de uma nova injecção de vida antes de sequer engravidares.
Um peso suave.
Um tudo ou nada que não o leve.
Eu soube quando se arregalaram com um sorriso tão largo que lhes era desconhecido.
Quando me notaram brilho, rubor e vontade a cada gesto inato para quem estava ao meu lado.
Quando a minha habitual brandura nos assuntos do coração se tornaram tortura.
Tudo o que não fosse o caminho de encontro, de uma acréscimo, de um novo ponto na história, torturava-me. 
Imensamente.
Depois encontrei a obsessão, que sempre soube ter diante do que me despoletasse paixão, mas nunca pela indefinição.
Toda a extrema indefinição daquele homem, só me fazia querer perseguir mais respostas á exaustão.
Quis testá-lo, cansá-lo até que lhe provocasse a reacção esperada.
Até que sucumbisse ao ponto da desistência.
Fiz tudo, conscientemente, o que uma mulher deve fazer para um homem interessado desistir.
Tudo mesmo.
E o filho da mãe desviou-se da probabilidade.
O filho da mãe tinha que para além de tudo, desarmar-me as regras do jogo.
Não deixava de nutrir interesse por cada veia figurada da sua consciência.
Queria mais do que nunca penetrar nela, nele, por todos os lados.
Queria vê-lo, desmancha-lo por todos os ângulos, sobretudo pelos que não se medem.
Apercebi-me em pouco tempo que ele era um oceano profundo, habituado á superfície.
Caminhava sobre ela, mostrava-se como ela e como bom dissimulador conseguia mesmo tornar-se nela, mas a essência da sua verdadeira fundura estava lá, conseguia senti-la, cheira-la, chama-la...aguardando que se revelasse num desaguar súbito da sua desatenção.
Capturei esses momentos em  fotografias instantâneas na minha mente pictórica. 
Foram sempre instantes, tão rápidos que me cegavam na sua luz, mas prevaleceram em grande escala pela veracidade, pela genuinidade da sua consistência.
Um primeiro flash na visita a sua casa, onde me explicava com refreada, óbvia, excitação o porquê de ter uma cama na sala, o porquê de dormir ali com um quarto vazio no primeiro andar, o porquê que só uns olhos solitários reconhecem noutros.
Apreendi o vislumbre, ao que solidão dos dias a verdadeiramente lhe sabiam, e guardei a imagem e o gosto terno dela, tão passageira como forte no que representava.
Sempre fui muito de depositar, guardo tudo.
 Tudo até o que não devia, mas não me desfaço, sou tenaz agarro-me ás memorias, elas embalam-me.
Intrigava-me toda aquela recolha, toda a relutância em mostrar emoções abertas, em insistir em frases incompletas e mensagens secretas e ao mesmo tempo ser capaz de vê-las na aura de cada disfarce que ele me apresentava.
Vi várias vezes  as máscaras, uma a uma, descortinei-as, não são segredo para mim, mas mais ainda e inesperadamente vi-lhe também o rosto.
Vi e era uma feição inacabada.
Uma obra prima incompleta.
Era bela e com contornos certos por preencher, e uma vez mais, a obsessão intensificou-se.
Filho da mãe, vi-lhe o rosto e ainda não o sei, vi-lhe o rosto e ainda existe espaço para esculpi-lo de sonhos, fantasia, cor e emoção.
Filho da mãe, que para além de tudo, era por tudo especial.
Pensei apavorada, por favor, diminui o nível de (im)perfeição.



Disparo- Estou mais do que lixada.

Disparo- Estou apaixonada.



To be continued....




Sarah Moustafa 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Fragmento


Se eu me deitar no canto mais ermo da Terra
Se eu me deitar apenas ali
E adormecer sobre o fruto das madrugadas
Até ser eu mesma sono e esquecer que durmo
Trarão as noites a calma das almas sossegadas?

Se eu permanecer deitada até quem sabe ser pedra
Ser rocha, rastilho de uma estátua no seu tombo
Ser desfeita e encontrada
Trarão os sonhos a certeza inteira 
Da esperança fracturada?

Se eu adormecer até ser parte deste chão
Até ser despedida 
Até não ser corpo
Ser apenas pedaço estático de partículas em desaceleração
Trarão o conforto de caber na palma da tua mão ?
De ser apenas sangue que te enche o coração?

Se apenas adormecer
Até não poder dormir mais
Trarão as horas
As forças para te esquecer?












Sarah Moustafa 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Arritmias #11



Gostas dele?


Mais do que qualquer pessoa deveria gostar de outra.




Muito mais.


Sarah Moustafa 

Os dias tristes






Os dias que estás triste deixas de ter controle sobre o teu corpo.
Tudo passa a uma hipérbole desgraçada. 

Queres te levantar mas só consegues fazê lo deitada, tens a boca seca por seis horas, sabes que tens, mas quase que sentes o sabor da água e isso basta te.
Quando choras, choras até esquecer que estás a chorar, tudo padece a uma certa naturalidade. Afinal o que tem um mundo lá fora para nos dar?
Mas os dias tristes também podem ser dias bons , dão nos o material que precisamos, o amigo e o amante que ansiamos, o contacto mais profundo com o nosso coração e aquilo que voz pulsante nos diz.
Os dias tristes fortalecem nos de alguma forma menos óbvia.
Quando finalmente te levantas e sentes que ainda estas vivo, ainda existes, ainda podes.
Ainda estás triste, ainda não sabes voltar ao mundo que deixou assim em primeiro lugar, mas sentas te na varanda a contempla lo.
Sentas-te na varanda e tudo em ti quer perdoa lo.


Sarah Moustafa 

Insónia






São quase três da manhã, mantenho me refém de um sono que não vem.
Acredito em insónias que nos contam todo o tipo de história, sobretudo as que correm contra o tempo e retomam se eternamente em estado presente.
Acredito que ausência de sono implica uma grande tenaz resistência, um exercício violento de estimulo a nossa consciência.
São quase três da manhã e tudo o queria era não ter memória.

Sentir alguma leveza, só para variar.
Uma qualquer vitória.


Sarah Moustafa

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O Homem Mais Im( Perfeito)


Não sei senão que nunca saberei de onde veio.
De onde é que tudo isto começou.
O tempo reveste alguma dificuldade de discernimento na identificação.
Foram seis meses e cada segundo dos mesmos pareceram-me sete vidas.
Encontrei-o no ponto mais negro e soterrado da minha personalidade - a obsessão apaixonada absoluta da criação.
E de longe, muito longe observava-o de perto.
Inventava palavras que já existiam mas que se tornam reais pela tangibilidade concreta da sua certeza.
Tive o impulso imediato de me declarar, como uma louca apaixonada, várias vezes mas a esse impulso nunca cedi, o medo sempre arranjou forma de me travar.
O medo sobretudo da personificação de todos os meus ideais esculpidos na carne mais perfeita do homem que vi antes de facto, o olhar.
Alimentei-o com o mais devoto carinho, diariamente na minha fantasia por presenciar.
Perdi a conta das inúmeras vezes que o beijei, que lhe fiz amor e morte numa rendição tão intensa que me sentia parte de uma fusão nuclear entre dois mundos que pressentia de algum ponto na Terra germinar.
Um Maio doce chegou e de tão doce e frutífero de possibilidades, paralisou-me.
 Paralisou me a ideia da concretização de um encontro de um livro assinado pelo destino que literalmente me veio parar as mãos.
Acho que de alguma forma subtil e desmascarada ele reconheceu-me, sabia que o aguardava.
O encontro marcado numa cidade diferente com odor de mar e da minha agitação suplantada, por fim trouxe-me o culmino, o êxtase de lhe poder ler o rosto, contar as linhas frágeis de cansaço e oculta vivacidade.
Um jantar de muito apetite e pouca fome acobertado por sorrisos e silêncios de familiaridade.
Subitamente o meu mundo colapsava-se da forma mais ordeira e universal.
De tão bem que me fazia sentir, chegava-me a sentir tão mal.
O reflexo no espelho da peça que nos falta e consequentemente encaixa é...transformador.
Sabia o perigo que corria, o risco de o deixar entrar mas nem isso foi suficiente para me intimidar.
O basta nunca chega de bastar.
Os dias tornaram-se cheios, o ânimo na minha habitual brandura surpreendia todos ao meu redor, o poder do romance da tua vida é a fonte inesgotável de vitalidade que ele te dá.
A potencialidade de acreditar que por uma vez na vida eu me podia dar, e receber de volta.
Desaguei poemas a todos os instantes quanto o fôlego me podia dar, e várias vezes me vi sem ele.
Colecciono-os até agora, neste momento.
Nem as duvidas, as tristezas e as mágoas me fizeram a musicalidade interna de imagens e inspirações cessar.
Ele está em tudo o que escrevo.
Tornou-se um estranho familiar em menos de um segundo, o primeiro inequívoco sinal que algo em mim gritava por mudar.
Um dia de intervalo, pareceu uma eternidade, voltamos ao ponto de partida. A um reencontro na sua zona de conforto, mostrou-me o seu refugio e tudo naquele espaço me dizia olá, ainda bem que chegaste.
Imaginei-me em cada canto daquela casa a fazer tudo o que é humanamente possível realizar.
Tudo me sentia a sonho.
Por paladar onde vagarosamente me deliciar.
Tudo.
Ele pediu-me um abraço e eu dei-lhe alma em retorno.

" Não me largues. Não me largues "

Fui contra todos os avisos de perigo eminente, fui de imediato demasiado depressa e embati no devagar.
A força do que se passa internamente, a voz da intimidade fez-nos aproximar e separar.
Em pouco tempo veio a instabilidade.
A recusa de proximidade, os testes a qualquer sanidade.
Conseguia entrar nas muralhas e logo de seguida era expulsa do castelo, sem saber por onde nos procurar.
No entanto todas as dificuldades só me faziam quer mais, gostar mais, ultrapassar os confins das barreiras, não podia acabar sem uma grande luta. Não perante aquele que tudo nos faz questionar.


E assim começou o efeito dominó.


To be Continued...


Eclipse




Chorei por horas, chorei até elas deixarem de existir.
Chorei até ficar sem saber se chorava
Derramei centenas de sonhos imaginados
De beijos que não foram dados
De corpos que não foram tocados
Chorei até esquecer que tenho corpo
Até sentir alma próxima de um nado morto
Continuei até os olhos se tornarem fechados
Como o nome de uma vida ao teu lado
Entornei me pelo chão ajoelhado
Infiltrei-me pelo sol
Que me prometeu brilhar
Quis mata-lo por me fazer acreditar
Chorei ainda mais antes de parar
Não consegui fazê-lo
Deixar de o amar
Deixar de ao longe querer da minha janela
O... Olhar.


Pára de me Iludir.
Pára de Fugir.


Sarah Moustafa 



sábado, 9 de novembro de 2013

Lua Negra






Dói-me o corpo e pouco passam das oito da manhã.
Dói-me mais do que a dor, mais do que o corte cirúrgico na pele, o sangue que não escorre, o pulso que a vida socorre e vomito que não se insurge e finge gosto de mel.
Medo.
Medo que se penetra fundo, lâminas ensanguentadas nos pés trazidos ao submundo.
Traição, choque, fibrilação na ilusão descortinada num segundo.
Não é verdade. Então porque não soa a mentira?
Ciume, ordinário. Reles, Precário. 
Chora-lhes horas no lugar do sono, ataques de pânico e fotografias de abandono, orgulho esventrado no próprio trono.
Raiva de importar ao que não te pertence, substituição sem nome, sem arena, jogo e competição. 
Sem chance de deitar outra cara no chão.
Vingança e o silêncio crepitante que desmembra a paixão, o vazio esperado ao lugar do caixão.
Não morre. 

Puta.

Nem para a própria salvação.


Sarah Moustafa 

Exaltação










Muitas vezes só vejo, respiro e vivo para o que desejo.
Este desejo incapaz de se satisfazer, esta inflamação egoísta que se queima por prazer.
Rasga-me a vontade, a intensidade, a fome e o apetite que o tempo regojiza em fazer crescer.
Qualquer excitação que motive o caminho de encontro ao sol nascente, que no calor me derreta e faça renascer.
Iluminar me na forma quente e doce de um raio, que se veja céu e sinta terra, que ame a noite sem a ela pertencer...
Ser brisa e não medo de viver!
Ser leve, pássaro sem mão, com a promessa radiosa de regresso e partida a cada estação
Ser sobretudo, batida nova no coração.

Excusez moi pour mon exaltation .



Sarah Moustafa 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Arritmias #9








A mais bela noite do mundo... pertence-nos,

Segundo a Segundo.







Sarah Moustafa 

25 Horas




Secalhar, nunca existiu e o que magoa seja nada mais do que essa inexistência.
E a minha insistência em perdurar-la, como se o homem que és na minha imaginação fosse feito da mesma carne da tua real indiferença.
Já não consigo acreditar mais na badalada da noite onde despertas, e não conseguir fazê lo é agonia excruciante da verdade onde uma palavra se faz vazia, esperança.
Já não consigo mascarar as forças da consciência apagada e de sofrer por momentos feitos de verdadeiramente nada.
Nem o tempo que nos corre a favor ou destino que nos prometa para lá de tonturas, enfermidade ou dor...
Secalhar até existiu alguma coisa, talvez não tenha interpretado todos os sinais de forma errada e tudo tenha sido como a chuva grossa que nos incorre no sono da madrugada. 
Da qual, na manhã seguinte nunca sabemos se de facto estava lá fora ou se nos fazia companhia por dentro.
A vigésima quinta hora do dia que ora fica , ora vai embora.

Só sei que dormimos demais.



Sarah Moustafa 

Comigo Mesma #2







Arde-me o desejo de ser mais do que suficiente, mais do que normal, mais do que figurar um espectro das mesmas banalidades enredadas na despersonalização da construção.
Quebra-me a ideia da anormalidade residente na mais profunda naturalidade, de ser quem sou, e de me vestir á medida do meu tamanho.
Mas da mesma forma que me quebra é na mesma diferença que regenero a força e o poder , que vezes de menos, levo a sério, em crer.
Sei que tenho sede do inesgotável, que não bebo nada, dissecando lentamente até a fonte do imaginável me aparecer, e algures, vai surgindo nos limites das minhas capacidades.
Não arredo um pé para operar uma tarefa simples, limpa e quotidiana mas corro milhas, desbravo savanas, alimento-me de fôlego e esperanças para atravessar a luz final do arco-íris.
Rejubilo com a ideia de um Natal encantado, o fantasma invisível espectado ao meu lado, a sobrenaturalidade mágica da noite prenunciada no sopro de uma vela subitamente apagada...
Exaspera-me a dificuldade de ser menos, de reduzir os níveis de adrenalina que a extrema sensibilidade me dá, que os píncaros das oitavas superiores da consciência revelam sem outra forma de compactuares, do que  senão materializando-as.
Eu escrevo e nada entendo, mas é o amor que ponho nas letras que me faz ir vivendo.
Independente do que o mundo me diz, calço os sapatos solitários da universalidade e da matriz e vou...seguindo o caminho do propósito, sem fazer a mínima ideia de qual é, porque se soubesses nunca com apoteótica dimensão da sua verdade, permaneceria de pé.
E porque acredito que as questões levantadas são supremas na arquitectura de todo o esquema
Continuo andar e lentamente re-aprender amar o corpo desassossegado, onde os passos têm que se dar.

Serei sempre fragmentada, em busca  Do quem Sou e De onde Venho ?, Porque Aqui Estou e Para onde Vou ?, e nada me faz sentir mais em paz do que a continuidade incansável de procurar, o que talvez nunca encontre.


Sarah Moustafa



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

The Way




It's the way a heart skips a beat
That makes me certain 
Yes... love is concrete
Love does exist.

It's the way a body can't stand on it's feet
That makes me sure of the place
Where souls across time do meet

It's the way the odds cant resist
Pulling us apart... bring us together
The fog, the fantasy and mist
The break, the mistake, the hurt
The smile turned bliss
That makes me know...
All that has to be said
It's spoken in a thousand years
Kiss.



It's the way we heal the damage and forever forget, it was ever real.




Sarah Moustafa 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Heart Notes #3






I'm caught within myself
A sleeping Beauty and an awakening Beast
I'm getting stronger, to say the least.
I'm Lost because I found the source and power , 
And no one will resist

You dont stand a chance, 


Not even me.





Sarah Moustafa 








segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Arritmias #8





Esquecer-te é a mentira contada do lado... onde dormes.
Inesquecível é a verdade calada do infinito... onde não morres.

Já tentei de todas as formas e todas se fazem nenhumas.










Sarah Moustafa 

Todas as noites são azuis








Todas as Noites
Agarro-me ao fundo mar 
E na imensidão da luz em safira
Mergulho e nesse momento deixo-me levar
Para a verdade das memórias que só
A abissal da profundidade me consegue mostrar

No silêncio dos naufrágios
Das mortes ao meu lado
Sôfregos por um rasgo de ar ávidos
Ali na entrega dos corais
Que me despem a pele
Dos inoculos vendavais
Sou próxima dos meus encarnados
Esquecidos Ideais

Sei que quase me afogo
Que quase encontro o fim
Da charada e alma em jogo
Mas não me importa
Senão o limiar
Dá água que me beija Fogo
E se viver muito
Implica sobreviver por pouco!

Todas as Noites
No centro e coração do oceano
Encontro-me
A música que toca veludo azul no piano...
Promete-me 
A beleza
Que aspiro, nem que seja
Só por mais um ano.


Sarah Moustafa 


Arritmias #7








Sejamos como o Sol... que simplesmente brilha.








G.N.M.

Revelação


Conto os dias incontáveis para te ver , as linhas frágeis de um rosto imperturbável que acalenta o conjunto das formas perfeitas que a imperfeição te dá.
Eu desejo-as como se a sublimidade das mesmas fossem minhas, como se da janela o reflexo embaciado me devolvesse a miragem do sonho revelado.
A espera dos dias, que me devolvem as estações , por vezes apaziguam se com a certeza confessa desta revelação, desta deflação de mistério e luz que nos trouxe não sei de onde , não sei de quando ao mundo onde só nos habitamos. 
Onde a cama é a pátria inteira da vida que nos geme sorrateira, entre os dedos encontrados, os corpos suados, os olhos extasiados... esses que são portal de entrada a este universo que de tão belo, não se pronuncia nome.


Denuncia o por todo o lado.


Sarah Moustafa 

As Vezes




As vezes bastam as mensagens curtas de cauda longa , para ansiedade respirar...
As vezes bastam os agradecimentos silenciados num olhar, que se cruzam por intermédio da improbabilidade e se firmam na cumplicidade que os sentidos não conseguem controlar...
As vezes bastam as notas da mesma música, tocadas sem parar, para algo de novo a mesma acrescentar...
As vezes bastam as memorias reencarnadas que nenhuma outra história, que senão a tua, pode inspirar...

As vezes bastam os momentos a que nos deixamos entregar.


Sarah Moustafa