segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Não podia não saber, sentir-te.






Não podia não saber sentir-te nesta ligação feita sem pedir-te. 
Sem pedir-me a invasão de um estranho familiar, de um cubo de gelo derretido no mesmo olhar.
Detesto a irracionalidade da sugestão e quem me dera poder deturpa-la e forjada entregar-te mentida esta emoção que me é desconhecida.
Detesto ainda mais a tentativa de justifica-la nas noites que não durmo para te acordar, na água que não bebo para solidificar esta pedra no centro do meu corpo que me devora para não te matar.
És tu o egoísta, no entanto sou eu que não sei deixar de te usar.
Preciso da tua subjectividade para me aproximar da minha particularidade.
Preciso da tua instabilidade para estabilizar a minha criatividade.
Se és ilusão não és mais que o ideal que apaixona a identificação.
Identificas-me o ponto curvo numa inexistente acentuação, eu gosto tanto do que não existe.
E  tu gostas tanto de ser personagem que para uma camada qualquer do meu inconsciente te evadiste.
Preciso do susto que me assalta os sentidos quando um carro branco se cruza na minha imaginação, e o embate são asas que me levam de novo a mesma arritmia, onde deixa de ser  um carro senão um veículo de proximidade na solidão.
Não podia não saber sentir-te e mentir-te quando te digo que és a verdade, a voz e a metade, a fronteira, a pátria e a saudade, o inicio, o meio e o fim da minha vontade.
Não és nada.
És só tudo.

Sarah Moustafa 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Abecedário




Intoxico-me com sensações, com palavras sublinhadas nas profundidades dos meus vulcões
Procuro-as suicidas ou acrescentes de alguma vida e um sentido perdido nos turbilhões
Amanhecem -me húmidas as memórias que não tenho impressas e anoitecem geladas aquelas que me acontecem
Costuro remendos de tecidos inventados e sedas brancas do meu sangue sarapintado, estou viva ! 
E talvez a mágoa seja a única voz em que acredito no que ela me diga.
Sei que escrevo obsessivamente, as chuvas que não me caem no Inverno e as palavras próximas de um conforto materno, são tímidas Primaveras que me permitem sentir perto de quem sou inteiramente.
Se me intoxico multiplico-me nessa doença desdobrada, um abecedário de planos e línguas inventadas aos milhares de cantos no universo infiltrada.
Entardecem-me amenas as linguagens entre vidas cruzadas.


Sarah Moustafa  

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Por onde nos encontramos, perdemos.







Não sei se nos perdemos nas arestas dos cantos obscuros que carregamos ou
nas funestas rosas murchas descontentes nos nossos peitos
Ou os lábios ressequidos de um beijo com sabor liquefeito
E entrada num mundo que não se deita no mesmo leito
Não sei se são marcas e o brasão e a cicatriz que não nos sara e intromete a indevida convulsão
Ou as dores que não silenciam a suavidade do rubro que nos apaixona a devoção
Sei que não sabemos nada que nos cure o alivio num antídoto que nos é veneno e compaixão
Ou o rugido lançado na noite onde o vazio nos faculta a aproximação
Não sei por onde nos encontramos se nos sonhos que me fecundam a vida e a imaginação, sei que te sonhei os dias , todos por onde te escrevia, e atrai te ao abismo onde o amor nos salva e nos mata, o que resta do pouco que nos liga ao coração.
Hoje sonhei-te, amei-te e novamente larguei-te.


Sarah Moustafa 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Guardei te








Guardei os bilhetes, os beijos e os quilómetros que me ofereceste, como quem guarda a caixa de tesouros melancólica, doce e dolorosa num constante lembrete.
Guardei as mãos frias entre dedos quentes entrelaçadas com o tempo sem dias e a infinitude que calavas mas que sei que pedias.
Guardei os brindes e o rubor pintado nas faces sorridentes diante dos melindres, rindo como quem chora , duas vozes o mesmo timbre.
Guardei a caixa que nunca te fechei e a memória de um sonho que não realizei.
A mais bela e triste epopeia, trágica numa aclamada plateia de um amor que só na obra imortalizarei.


Sarah Moustafa 

Se me bastassem a vida e a morte






Se me bastassem as vidas e as pupilas encostadas ao sol, teria quem sabe o vestido dançante de quem segue e soma os passos desta humana prol.
Esqueceria as noites e os abismos, os oceanos negros em formato de sereia em escamas e lirismo, olvidaria o terror que me fende o corpo de prazer quando me abre o sismo.
Tomaria a vida como o que ela é, geraria outras vidas, casaria as vontades esquecidas e não remaria contra essa mesma maré, que é um planeta que me gravita e sustem, a resistência caminha-me nos pés.
Se me tirassem as estrelas que não existem e bombeiam o sangue que a este corpo subsistem, ou as palavras que não foram inventadas, retalhadas numa atmosfera onde existem... seria a história enamorada, uma narrativa acalorada e o ponto de encontro entre o sol e lua desta vida que não me é encontrada.
Se me bastassem as mortes e as pálpebras cerradas, e os anjos da noite drenados de esperança afiançada, teria quem sabe o trono do reino das sombras que me é invocada.
Teria o contrário do que me é nunca saciado.


Sarah Moustafa 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sei que sou a parca voz de quem criou








Sei que sou a parca voz a que não me dou, arranha e ainda assim é macia, um transtorno e uma hipocrisia, de quem a ela me interligou.
Não sei se será alguém, que não a mesma, que se lhe fica sempre aquém.
Margens a um limite ilimitado que da excelsa natureza provém.
Um miado que não ruge, que não é gato ou tanto mais feroz leopardo, injectado de uma savana inteira condensada na garganta á exígua feição de uma noz.
Não se cala se se entala. O Nó.
Não se fala o que resiste em leva-la . Tem .
Não se esquece se... se lhe conhece timbre e tom. Esmagados em .
Cordas abertas e harpas circunspectas, mãos fechadas nas curvas das mesmas rectas.
O Dom.
Sufoco é sempre só mais um pouco... do muito que a correspondência troca no pio de um mocho magoado, que se cura rouco.
Sei que sou a parca voz que as asas da noite abrigou.
Sei, sei finalmente quem sou.



Sarah Moustafa

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Alas



O lençol e a pele amarrotada
A brancura manchada
Na forma nívea antes delicada
É cama e mulher
Desejo ou impulso
Desmoronada uma Torrre de Babel
É corpo e homem
Arestas cortantes e folha de papel ?
E nada será? Sequer.

A roupa despida, largada no chão
O rasgo e carne aberta
Devorada de Tensão...
É beijo encardido
Que só as sombras lembrarão
O gemido intrépido
Marcas e Brasas
Geografia da nossa condição
É suor desmanchado
Gotículas e Êxtase
Flancos Nascidos
Da imensidão
  
E o espasmo é alma?
E o corpo portal da sua calma?

É doença? Infecção e Crença?

É língua mordida falada em sangue viva?

É o quê? 

A noite e a mulher... e o dia, Homem !
Que nela quer morrer.



Sarah Moustafa 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Do You Dare to Play ?







Yes I take people to the limit, I devour their patient and make sure to come up with all these new, no reason problems. 
I take them beyond themselves, I act below my own self. 
I build walls so you can tear them down. 
I close doors so you can open them. 
I say no to a yes you better know. 
I run away and you better pull me closer, and show me you'REre worth the stay.

So do you dare to play?



Sarah Moustafa

Ganas








Ganas. 
E as entranhas que me revolvem em volta do poder.
Querer a forma obtusa de numa câmara ardente, 
Incendiar e perecer.
Vontade que falta em desaparecer.
Anéis e Saturno Apertados, 
Uma alma e carne que quer romper...
Ganas. 
Asfixia, Domínio e Plutão.
Prazer,Vagabundo. 
Inferno é Noite devota de Paixão.


Sarah Moustafa

Intima







Intimidade e o poço de humidade.
Húmida entranha pele e ossos, sombras de almas e tempos que nem sempre são nossos, ondulantes em acidentes errantes, falidos, escondidos..os mesmos destroços resultantes.
Água e infiltra, lodo que o corpo suplica.

Resiste e afunda-se.
Insiste e sucumbe-se. 
Penetra os abissais de um pântano profundo e Funde-se.

Intimidade e o poço de vida escolhida.
Um por Um por Dois sentida.

Baptizado o corpo regenerado da própria degeneração.

A entrega e oferenda a derradeira sedução.

A vida acontece quando a morte a enriquecesse.

Intima é a idade da nossa vontade.



Sarah Moustafa 


Kiss you Slow








You should know
I want
I will
Kiss you Slow

In your dreams
They're mine
Oh...Dreadful Sins
And I will
I shall
Make it 
Right now

Oh..so quite
It's silent
My desire burns violent

And I will
I want
We should
Do it 
Somehow...

I want to kiss you
And I wil So...
Slow...



Sarah Moustafa

sábado, 14 de setembro de 2013

Sabes que Sabes.






Sabes que sim.
Sabes que sabes até o que não crês saber.
Sabes que entendes muito mais, do muito pouco que vendes, sabes tanto que por segundos, de deixas ir e te rendes...
E é nos bocejos de tempo que mais do que a mim, sentes te a ti.
Sabes que gostas bastante da própria sensação intoxicante onde nem a fuga deixa que esta seja uma atenuante.
Sabes que és capaz e isso escarnece-te a maldita da paz!
Sabes tanto a rotina, os costumes e a doutrina e no entanto não sabes nada do que sabes saber.
Não queres?
Queres demais...
Queres?
Jamais!
Sabes que me sabes a noite e a nome.



Sarah Moustafa 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Avalanche







Avalanche dos sentidos que não sentem, 
Mentem.
Cobrem o manto protegido de qualquer desprotecção
São ilusões, torrentes de turbilhões, 
Cataclismos de paixões
São falácias e teorias de filosofia fantástica


Avalanches que nos apanham como fogem
As redes e os peixes de olhos extasiados
Pela forma violenta que do seu ventre são tirados
Muralhas em queda, pedras corrompidas
Sangue Derramado, 
A inglória Impera
Mentira que trai onde nem a verdade lhe toca
A limpa e acaricia o gosto de uma boca
Suja, Suja
Repugna, Expugna é Sua !
A Essência que não é nenhuma.
Só uma avalanche e montanhas de gelo quebrado
Selvagens e um espírito lacerado




Caem tordos e sentidos surripiados
Tombam milhares de corvos despenhados
Cometas de flamas retumbados
Avalanches dos sentidos perturbados não mentem,
 Sentem.







Sarah Moustafa

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Faz Só... Aquilo Que Não Podes.







Ouvir dizer que não podes, não fazes,  não queres e não consegues é antes de mais sentir que o dizes, que podes, fazes e claro que consegues!
Se negam as afirmações elevam-te as exclamações erectas ao fim das restrições.

SIM!
 EU! 
POSSO! 
PORQUE!
 EU! 
SOU!

Acasalando isto, agradece. 
Oferece-lhes a cortesia desse grande gemido que te põe nos lábios, o Obrigado.
Quando te recusarem o que pensas querer além desta vida, enternece-te apenas pela cabal certeza que sentes romper algures de ti, de que vais conseguir.
Agora vai e faz, apenas e absolutamente, tudo aquilo que não podes fazer.
Será o trabalho de que és, para que sejas, feito.

All in.

As regras são o jogo por si só.




Sarah Moustafa 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

V(o)ntade








Tenho vontade de chorar 
As horas esquecidas
Que não me perderam 
Se não o nada do tudo
Onde foram vividas

Tenho vontade de cantar
A musica das naus partidas
Que não me chegaram
Senão ao porto manchado de cristais
E ao Oceano das despedidas

Tenho vontade de abraçar
Os braços de outras vidas
Que nunca foram sentidas
Senão acercadas 
Das noites frias desavindas

As mortes irreais.
Miragens e ideais
Mastro preso
Odes Sentimentais..
Não choro ainda,
Mas...
Para onde vais?


Sarah Moustafa


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sei que estás aí







Sei que estás aí.
Sei que estás oculto na escuridão que nos faz o próprio culto.
Não me perguntes a visão, a razão de uma qualquer explicação para que os veja, sim os teus olhos, dois pontos em chama emergidos em trevas e ainda assim tão puros.
Enlouqueço.
O conhecimento despersonaliza-me o entendimento, defluo na estagnação da busca que não me encontra.
Sei que estás aí.
Não serás anjo, não me guardas, devolves-me á distancia do mundo que trazes.
Não serás espectro de uma qualquer assombração que me acopla a existência carnal.
Não serás a invisibilidade.
Tocas-me.
Queimas-me o beijo que á revelia das bocas se dão.
Observas-me os momentos de intimidade, enerva-me.
Dispo as roupas e não tenho vergonha.
Tenho vontade.
Deito-me na mesma sombra e não tenho medo.
Tenho desejo que o dia não chegue assim tão cedo.
Quero-te tanto como sei que tentas não me querer a mim.
E sim, eu sei sempre quando estás aqui.

Sarah Moustafa 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Passos Forasteiros






Caminho entre passos descalços,
 Por onde não ando 
Se me corressem como fogem 
A velocidade em alma
Além Além,que nem chego
 A sentir-lhe a calma
Correriam para outro alguém,
 Seriam pés em abrando.

Os meus passos descalços, não pisam chão
Ou matéria qualquer da mesma condição
Estão fixados num desconhecido elemento
Onde caminham pelo fluxo e gravitação

E descalços estão feridos
Mas não estão sujos
São marcha e aparição
São puros
Passos de inspiração

Descalços, Forasteiros, 
Sorrateiramente, Amei-os.
Amo-os
São família,
São estrangeiros.


Sarah Moustafa 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Dissolvência- Capitulo XIII- Haverá Sempre Sangue, Onde Viveres Tu





Capitulo- XIII


Haverá Sempre Sangue, Onde Viveres Tu


A infância é a velha instância onde se retorna entre repetições cíclicas do tempo em vida, ou do tempo em morte que se permite viver, e ampulheta não pára, não verte o que em si tem de conter.
Anos, memórias, odores e sabores, viagens patrocinadas ao longínquo horizonte ridiculamente próximo.
Quem somos quando deixamos de ser?
Quem não somos e pretendemos esconder?
E o grito que nos alberga a voz calada, existirá alguém, patrono do eco que nos dê a resposta sem pergunta que nos faça entender?
Alguém que se escultura entre mãos talhadas a quem é somente, ninguém.
Nada que um rascunho de uma imagem aquém de uma expectativa, além de um ser humano que se propaga em extras, nada terrestres.
Ela sempre soube que era uma deslumbrante pintura sem quadro, perdida por cantos flutuantes, onde se rasgava, manchava e pisava continuamente transportada num coma onde só a essência da beleza a fazia de um recanto qualquer, continuamente gravitar.
O que sempre esperara era que alguém a agarrasse e confirma-se, vivencia-se a experiência que se recusava experimentar, queria ardentemente através dos outros a validação da sua verdade inalcançável, da sua utopia inquebrável construída em castelos no ar e palácios nos abissais do mar, e como é lógico, tudo o que viam era a potencialidade encravada de quem azedava o pote do seu próprio mel.
Sempre quisera ser salva e não a salvação.
Jade entreabriu os olhos aturdidos de uma luz radiosa que a confundiu de novo, julgando por breves momentos, encontrar-se ainda submersa no domínio dos sonhos. Lacrimante e ligeiramente ardidos, esfregou-os até conseguir a sintonia da familiarização, encontrando a surpresa no fundo dos mesmos. O acto de ver além de olhar despertava-lhe um frémito imenso e, surpreendeu-se com o seu próprio pensamento, de desejar a posse no trono de um impulso que frequentemente rejeitava.
Apoiou-se em ambos os braços, permanecendo deitada, observando o redor do quarto intrigada, não era o mesmo onde tinha acordado na fatídica noite atrás.
Era leve e amplo, totalmente vazio de mobílias e adornos, as paredes totalmente caiadas da luminosidade difundida da varanda aberta onde cortinas brancas esvoaçavam em compasso com o sol dourado que nelas penetravam.
Apercebeu-se rapidamente que não estava em qualquer conceito de cama e sim disposta num colchão onde a simplicidade do lençol moldado na pele a abrigavam.
A inconsciência da verdade dos factos não a atormentou desta vez, sentiu-se estranhamente calma perante as nominais desconhecidas, com a crescente súbita vontade de respirar o ar que aquela passagem permitia.
Humedeceu os lábios gretados de horas em secura e levantou-se agarrando no vestido ao seu lado disposto.
Era também ele branco e de um tecido tão leve que nele de imediato lhe apeteceu fundir.
Pela primeira vez, não levantou questões as suas próprias interrogações, sentiu a brevidade de um momento em silêncio, onde se permitia abrir ao acontecimento.
Queria mais que tudo despir-se das roupas sujas e exauridas que envergava desde o funeral de Gabriel, queria o contraste da morte no preto com a promessa da vida em branco, desesperadamente, e fê-lo não sentido o pudor que normalmente carregaria.
Descalça dirigiu-se á varanda que era na verdade um tranquilo modesto terraço, onde Isaac e uma mesa repleta de iguarias, a aguardavam na sintonia sempre estranhamente exacta com o momento.
Sentiu-lhe o olhar de bonança que retribuiu com a tímida capacidade de se aproximar.
- Será o branco a tua cor? - Questionou-lhe seguindo-lhe os gestos além das palavras. Jade fitou-o longamente desarmada com a subjectividade das suas questões, permaneceu de pé sentido alguma da confiança anterior a desvanecer-se entre a visão que ele emanava na luz directa do dia.
- Poderá ser a tua por igual.. - Respondeu-lhe em consonância com o espectro de cor que ele igualmente vestia.
- O Que poderá ser ou não em relação alguém que não sejas tu, não importa. - O tom assertivo incendiava-lhe momentaneamente a expressão obliterada que normalmente o qualificava. - Portanto... Será, Jade, essa... a tua cor?
- Talvez eu não tenha cor alguma. - Encimou desviando o olhar e começando a sentir-se terrivelmente invadida pela musicalidade desconfortável daquelas questões.
- Senta-te. - Issac retornou ao ponto da pacificidade que por igual a inundava de agitação de querer desfazer-lha. De novo afloravam-lhe os assaltos iminentes de um impulso qualquer que a fizessem agir.
- O que se passou ontem? Que sítio é este? Não era suposto não sair além das muralhas que revelaste?
Bombardeou-o das questões que sabia que este não ia responder esperando um qualquer tipo de reacção
- Não era suposto até deixar de ser. - Pausou encarando-lhe o pulso firme com a mesma perfeita compleição. -Senta-te. - Repetiu gesticulando a direcção do seu aguardado lugar. Mas ela não queria sentar-se, sentia os píncaros de uma excitação que não conseguia ou queria controlar, queria acertar a sua vontade com a energia que lhe brotava. Inspirou fundo e pressentiu o aroma a maresia que jurava no fundo de si ecoar.
- Estamos perto do mar? - Questionou-lhe ignorando o seu pedido. Este serviu um copo alto de sumo e levantou-se por igual.
- Estamos perto de onde quiseres estar. - Evadiu-lhe a resposta com a própria questão, entregando-lhe o copo com o olhar incisivo no seu rosto rejuvenescido.
- Vais ser sempre assim? - Retribui-lhe os olhos intensos que a devolviam além de uma qualquer descritiva sensação.
- Vou ser sempre diferente daquilo que esperas que seja. Não vais projectar em mim o espelho em que não te queres olhar.
Jade engoliu em seco a raiva que desejava despejar, como é que ele se atrevia, agir daquela forma? Como se soubesse algo do que fosse da sua vida e de quem ela era? Se nem nunca a mesma o soube ou quisera saber. Como é que ele se atrevia a dizer-lhe o que não queria ouvir?
- Diz-me, quem dirias que és tu?
- Não sou ninguém. Absolutamente ninguém! Nada!
- Óptimo. - Sorriu-lhe perante a emotividade que as palavras da mesma começavam a entornar.
- Óptimo? -insurgiu-se de imediato- Como podes dizer que é óptimo?
- É bom porque se consideras que não tens identidade podes funcionar exactamente como esse vestido branco... - Desceu-lhe os olhos até ao mesmo observando lhe os contornos com naturalidade.
- Tu és demente! - Voltou lhe costas furiosa sobretudo com a sua incapacidade de se controlar perante um estranho e as provocações que não a deviam provocar.
- De facto sou, mas sou. Posso adjectivar-me com as palavras certas na medida da personalidade que escolhi ter. Aceito-os ou rejeito-os conforme aquilo que considero correcto. E tu que adjectivos sabes serem os teus?
Jade parou de súbito perante aquelas palavras apertando o copo entre as mãos redigindo um silêncio que esperava conseguir manter.
- Exacto...Define-me então o que é essa tal de demência?
Issac aproximou-se lentamente enquanto esta permanecia de costas paralisada perante atitude que queria tomar.
- Define-me o que te apetece fazer neste momento, que impulsos sentes brotar em ti e não os deixas deflagrar.
Jade sentiu-lhe a proximidade entre o vento e as costas desnudas que o cabelo ondulante não conseguia tapar. Issac agarrou-lhe a mão onde ambos agora seguravam o frágil copo.
- Diz a ti própria o que te apetece fazer agora...
Jade sentiu a corrente de adrenalina suplantada entre si e qualquer mecanismo de inevitabilidade que a fizeram fechar os olhos de imediato, como quando alguém os fecha antes do exacto segundo, em que o acidente está prestes acontecer.
O copo estilhaçou se em milhares de fragmentos de si e em orgásmicas, extasiantes, dores repetidas entre o prazer de se acometer aos mesmos violentos desejos e impulsos de se deixar abrir ao seu rebuliço.
Observou a mão ensanguentada brilhante e quente dos pedaços de vidro que a carne lhe rasgava, como se olhasse para a novidade do mundo que visitava pela primeira vez.
Issac levou-lhe a mão entre o decote do vestido descendo-a pela imprevisibilidade do seu corpo manchado de vida.
- O branco é só o inicio...O branco é a cor que tu queres que seja. Estás viva Jade, tu estás aqui.
Tu és.



Sarah Moustafa



terça-feira, 3 de setembro de 2013

Cala-te.






Preciso parar de visitar-te
Na ausência que me captura
E eleva em picos constantes de tortura
Preciso parar de ouvir-te
No silêncio da voz que não cala
Silenciei-a , não posso mais leva-la
Preciso parar de olhar-te
 Não são olhos senão uma ilusão
São véus cadentes, esvoaçantes para lá
Da minha criação
Preciso parar de ver-te, porque dói
A promessa de uma aproximação
Que me faz amar até a dor
Apenas, pára, por favor...
Preciso mas como se faz?
Como se trilha o caminho de paz
Se é da guerra que a incandescência
Me traz ?
Preciso parar de acreditar
Na mentira que quis 
Ao mundo inteiro declarar.
Nunca será nada
Cala-te
E entrega a esperança
Á página voltada
Schhh..
Estou....Cansada.

Sarah Moustafa

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

¿ Quando Vem ?




A fundura, 
O abismo imenso que perdura
Até onde vai?
Até onde pára?
O desejo trovejante por mais
A raiva fechada na tua mão
O rosto aberto de ternura
Quando vem?
A paz numa tempestade ?
O eco mudo da mesma canção ?
O pecado recheado de integridade ?
Os corpos moribundos de vivacidade ?
Quando
Quando vem?
O gemido da nossa particularidade?

Sarah Moustafa







Todos os dias, Serão.



Todos os dias serão 
A minha declaração de amor
Todas as horas serão as rosas 
Brotos da carne em sangue
Presa nas suas esporas
Todos os dias serão 
A tua confirmação de valor
Sem pressa e sem Demora

Todos os dias o adeus será um olá
E um caminho rasteiro
Ordinário, encardido e feio
Serão pés sem tempo
E o cansaço um novo alento
Uma travessia para lá
No regresso que se faz
Dentro, Aqui e Já

Todos os dias será a dor
O grito e a liberdade
Um novo valor
O beijo ou a saudade
A voz e a intensidade
Uma ode sem trovador
Uma calma rasgada de furor!

Todos os dias, uma declaração
Uma nota escrita
Sem tinta caída no chão
Erguida...ah nesta Criação!!


Sarah Moustafa



domingo, 1 de setembro de 2013

Eu sabia.










Eu sabia. 
Sabia desde inicio.
Não desconhecia a realidade
Sempre a soube para além da verdade
Eu sabia profunda e descaradamente
E não é mentira
Que o saber nos reconhecia.
O risco de não arriscar era maior
Que o poder do medo
Que da humidade do fundo da alma
Me sorvia
De noite em noite, demasiado cedo
O fraquejar dos ossos
E o infiinito apontado além do teu dedo
Sabia desde o fim
o inicio que despoletava em mim
A finalidade de uma certa
Desigualdade
De uma prisão em liberdade
A paixão que sofre
Por ser escrava da sua potencialidade
Eu sabia
Que nunca iria saber
As respostas dos porquês
De onde vinha a luz complacente estendida entre nós
Deitada nas brumas do anoitecer
Eu sabia que não vês
Que não devia
Eu sabia
E não me quis crer
De que não,iria
Só além de 
Acontecer.
Que não te traria os olhos
Que tornariam a ver.

Sarah Moustafa