sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Memoirs- II ( Aniversários) I




Nunca apreciei necessariamente as datas de aniversário.
Mentira.
Houve um tempo forasteiro que deslizava em mim o espírito da encarnação alegre, em que os apreciei além da conta. 
Era um dia que me tornava especial, que batia palmas á minha vida terrena, que aplaudia a minha presença com um sentido, um propósito de ser.
Era um dia em que a festa era uma caricia na minha desde cedo tremula auto estima.
A celebração era feita no coração, o bolo era saboreado com devoção, e sopro nas velas um desejo infindo das mais impossibilitadas felicidades.
Eu era especial, e ela fazia questão de me o demonstrar nos mais básicos gestos.
O dia era lhe sempre conduzido na azafama típica e o cansaço que lhe começava a brotar da pele vincada, e as mãos que começavam a fraquejar de senso e sensibilidade eram meros percalços de caminho.
E o peito que começava a desenhar-lhe a irregularidade da sua destruição era um relevo intransponível, uma montanha irreconhecível á nossa percepção.
As crianças são por norma facilmente seduzidas nestas ocasiões, mas eu nunca fui fácil, em qualquer medida, e ela sabia-o tão perfeitamente, que conto em cada aniversário uma surpresa que ela me tenha feito que me arrebatou em paixão. 
Eu era apaixonada pela forma simples no entanto inconvencional, como ela preparava as coisas, eu era tremendamente acalentada no quotidiano básico que ela transformava em sobrenatural.
Recordo-me a sincronia com que acordei numa manhã e tinha um presente aos pés da cama, nunca pedi presentes em listas ou exigências, tinha como secretas as prendas que gostaria de receber, e ela acertava em todas.
Um walkman, não quis acreditar. 
Uns patins, como e que ela conseguiu adivinhar?
Aquelas calças de pano azul, postas na montra como uma relíquia se expõe a quem jamais a poderá comprar.
Estavam ali vestidas no meu corpo magro e irrequieto, estavam ali na minha alma grata, tão grata, por me dar a dádiva de poder viver ao seu lado, todos os dias.
Quando ela morreu, não me morreram os aniversários, e esse era o problema.
Intensificaram-se além da conta.
As palmas tornaram-se estridências de audiência ridícula, todos os bolos eram calcificados do mesmo creme azedo da infelicidade, todas as velas sopradas eram me queimadas na consciência e contabilidade de mais um ano sem vida, de mais uma ano em paralisia paralela com a mesma.
Se não era fácil, tornei-me impossível.
Tornei-me em absolutamente nada, o elemento especial era a química que entre nós se estabelecia.
Dissolveu-se em caixão e ossos e a verdade nua e crua era essa.
A partir do segundo ano da sua morte recusei qualquer tentativa próxima de celebração, proibi qualquer pessoa de me mostrar um elemento de pastelaria que fosse naquela data.
E continuei a fazê-lo ano após ano, inalteravelmente. 
Continuei resistente na construção do abismo profundo em que queria morar, onde ai sim eu mesma, sozinha, imersa na mais profunda escuridão, acendia a chama das velas que lhe roubei e que não a mim mas a ela sempre em diante lhes dediquei. 

Sarah Moustafa

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Presenças





Da varanda, entra a noite que se queda, o cigarro e a neblina que me alberga, vejo sempre as linhas difusas das cores fulgurantes que me revelaste.
Numa fonte, numa outra varanda iluminada, numa outra era, em que a leveza era o nosso poder de ser.
E os jactos de águas coloradas, transportadas das nossas almas quebradas, pacificaram-se por instantes...
A trégua de um abraço de uma noite cheia de dias e promessas, de um quotidiano onde nos tornamos viajantes...
A lua azul coberta de prata que jurámos diamantes.
O teu corpo deposto no meu conforto e a tua satisfação de me fazer sentir menina.
O meu corpo guardado no teu escombro morto e a minha glória de te trazer vida.
A paz da troca masculina encaixe perfeito da minha brecha feminina...
Agarrámos sedentos o mesmo ponto de luz, o mesmo momento, uma nova infância, um jubilo de fascínio, em ultima instância, como nos reluz.
As feridas onde liquefeita a sede nos amparava, nos saciava da vontade continuada..
Será?
Enfim tempo de um Verão que nenhum dos dois conhece?
A estação que algures nos desvanece, onde fica?
Na varanda, na fonte, no abraço...
Extinta no cigarro.
Fumo outro, quente agitado de uma breve sensação alienado, diabólico, o sorriso e o choro enclausurado,
Vejo-te na névoa, vês me tu a mim?


Sarah Moustafa

Não vás






Eu não quero dizer adeus
E as noites quem as fez assim?
Quem me tira a vontade
Maior que a força
Maior que Deus?

Eu não quero a despedida
E os dias vazios
Sem guarida
Eu quero esta vida desmedida
Que te entregues para lá do limite
Onde a emoção é vivida.

Não vás embora
Fica.
Traz-nos esse novo tempo...
Essa nova hora...
Por favor...
Não vás.


Sarah Moustafa

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Quero.




Eu quero que me segures
E que me largues logo a seguir
Quero o espasmo e arritmia
A alegria e a apatia
De um universo que nos permita existir

Eu quero que me perdures
Na chama ardente
E a apagues logo a seguir
Quero o choque térmico
Os contrastes entre
Labaredas e Cinzas
Onde me consumir

Eu quero que me sufoques
E me abras as portas da morte
E que me tragas á vida
Reanimada logo a seguir
Quero ser recém nascida
Na vida que não deixamos fugir

Eu quero que me descubras
O segredo de que me esqueci
E que o deites fora logo a seguir
Quero a raiva e a formula
O jogo sujo que competir
Quero aventura e um corpo 
Que me cubra
Sem se despir
E as palavras que não falem 

Gritem por sentir.


Sarah Moustafa

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Shattered Words, Broken Souls - IV




You're a terrible lover
But see I am to, 
And I know all about that undercover
Your affection does not find a way out on expression ?
Right...
You can't quite say the words, 
They cut deeper than swords
And you're stuck on the shelter depression .
But see..
I am there to, and always have been ,
Defense strategy, invention?
Keep out, impression?
I know all abou it
We're masters on lash out supression

So we're terrible lovers
And maybe not meant
For love 
Or High feelings
Above !
Maybe we're loners
Meant to be together
As separate
And be the message
Of Loving donors.

So you see maybe, and just maybe,

We can be beautiful, to.





Sarah Moustafa

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Loop




Voltou acontecer
Torpedos e brumas
Algum anoitecer..
De que não sei,
Se é noite
Uma mensagem 
Além 
Véu caído
Dói-te.

Voltou acontecer
Granadas detonadas
A um moribundo abraçadas
Morto vivo
Das serras altas
Enevoadas...

Voltou acontecer
Assombros
Miragens desiludidas
Fantasmas de boas vindas
Deitam-se em corpo
Autopsia aberta
São lindas...

Voltou acontecer
O que não acontece!
Oh..o nunca
Oh ..o sempre
Guerra e Paz
Toda alma a conhece.

Sarah Moustafa

sábado, 24 de agosto de 2013

Rubro




VERMELHO

Labaredas Inflamadas
Num incêndio famigeradas
Consumidas no teu Espelho
Descoloradas.

ESCARLATE

Rubor aceso na tua face
Sangue salpicado
Um novo conceito de Arte
Este é crime
Este Arde.

ENCARNADO

Vulcão inanimado
Lava
Inferno Derramado
Cinzas sobre o meu corpo
Queimado

RUBI

Na Paixão
Incendiado
Reanimado
Por
Ti.




Sarah Moustafa

Murmúrio





O mistério
Afundado nos olhos
Teus fechados
O meu entristecer
Uma tarde de Outono
Melancolia e Ouro
Despedida ao Entardecer
E os olhos dilatam a cor
Nosso Tesouro
Suspiro um dia...
Sempre a desvanecer
Onde assina o limbo
E a morte
Tendo que viver.


Sarah Moustafa

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Um feeling, sabem ?




Um feeling, sabem?
Claro que não.
Claro que não podem saber, entender ou quanto mais perceber esta oitava superior de um mecanismo intuitivo qualquer, que apossa num segundo toda a dimensão que julgas válida de reconhecer.
Não existe validação ou compreensão , é o sentido sublime de uma sensação.
Sabem?
Claro que não. 
Não podem alimentar uma sabedoria de raízes pouco filosóficas, sem qualquer semente plantada que simplesmente sentem, sabe se lá de onde, a crescer.
Ponderei o acaso inexplicável da coincidência inalterável.
Calculei o alinhamento das condições necessárias para que este subjectivo determinante, pudesse eclodir da forma perpetua a uma qualquer lei da atracção. Sabem?
Eu também não.
Não sei como funciona, como discrimina esta ordem de processo e caos em ondas eclípticas, rasgadas num elemento desconhecido, de uma quinta, sexta, etc dimensão.
E não sei se quero saber, alguma vez. 
Os pressupostos, que não são, por terem de ser, supostos.
Acontece o que tem de acontecer , sabem?
Claro que não, a forma trapalhona de passar-se esconde a sapiência de mostrar-se. 
Ninguém nos avisa que existe um filtro num canto interno qualquer que permite trazê lo a superfície.
Ninguém avisa pois ninguém se quer crer da realidade alternativa em que começa a viver.
Mas existe alguém neste percurso convulso que não nos permite adormecer.
Mas existe alguém que chega nesta viagem acima prescrita que traz esta condição de nos forçar a ver.
Mas existe alguém que viola todos os limites e faz-nos querer ser.
Um dado feeling...
Sabem?
Claro que sim.
Sabem, Sempre.

Sarah Moustafa

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Memoirs- I




Um quarto só para mim, finalmente.
Apertado, do lado mais distante e inseguro da casa, mas ainda assim só meu.
Desejei intensamente desde cedo ter o meu espaço privado, onde as minhas sombras fantasiosas e introspectivas, se libertavam num segredo delicioso que guardava, com receio que alguém me o pudesse tirar.
Um armário só meu, e o prazer que senti em colocar lá minuciosamente cada peça de roupa que tinha e não tinha, só por querer ter.
Estava tremendamente satisfeita com sol que me entrava da pequena janela, com a desarrumação espalhada por todos os cantos que tinha por organizar, meu deus...estava mesmo inebriada de contentamento, por ter que fazer o que poucas crianças pensam em gostar.
Uma secretária, um presente de aniversário a que me deliciei em montar, peça a peça, era a minha primeira mesa de "trabalho", podia escrever nela, deitar me naquele tampo liso, revestido de tantos sonhos por onde costumava deambular. 
Podia até quem sabe, dali alguns anos, ter algo tão distante da minha realidade, como um computador, passo a passo, já tinha uma etapa feita, por onde o colocar.
Na verdade, não estava assim tão feliz. 
Fui forçada a vir para uma cidade anónima, a começar uma vida estranha, sem a única pessoa a que alguma vez me soube familiar.
Não sabia porque não estava com ela, ou ela comigo naquele solitário lugar. 
"Vou ter contigo assim que isto terminar", dizia-me aquela voz tenra, que me derretia em certezas de que de tudo era capaz. Confiava em tudo que pudesse desconfiar.
Não sabia o que havia por terminar, mas se ela me o dizia, considerava-o feito.
Encarei o novo sitio como umas férias, um ano lectivo que deveria com alguma paciência aguentar, e o aquele quarto ajudava, podia-me refugiar nos meus pequenos prazeres internos sem ter que a ninguém os explicar.
Sem ter que suportar um ambiente (des)familiar, que com 9 anos eu já citricamente sabia criticar.
Nasci com uma voz, que só uma pessoa sabia escutar. 
A minha pessoa.
Sabia que estava doente, mas não discernia a doença.
Sabia que não estava tudo bem, mas não discernia que não ia ficar.
Sabia que as pessoas morriam, mas não discernia que a morte me podia beijar.
E  senti o beijo no segundo antes em que ouvi o telefone tocar.

Sarah Moustafa

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Choque.





O teu inverno
é repouso em escaldo
do meu gemido terno
é meu o gelo que incinero
que derrete a tua boca fechada
O vento grita a vontade enregelada !
E a árvore despida, nua
No teu colo deslumbrada
É o beijo que te abre os lábios gretados
E os cura, desacreditados
De uma era encantada...

Não me importa o frio
Não me importa o olhar em desvio
É baço, é meu
O brilho que te viu.

Não me importa a neve,
A paralisia, a que esta se deve
O choque térmico, ninguém o leve !
É meu, apenas meu...
E mais ninguém o consegue.

Sarah Moustafa

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Shattered Words, Broken Souls - III








Sometimes I ask myself, how could I not regret?
The day we met
The day I allowed us to connect

But did I?
Was it really about a permission 
Anykind of power submission ?
Or just that glance...the glance put in this walking vision...
It was never about decision.

I can't regret how much it hurts because that was how much I loved .
Or how much it broke, because it was how much I had .
Or how much it saddens, because it was how much happiness I held.

Enormous, Tremounds Joy To Embody and Breathe a Romance I always wanted to Live.

It made me feel Alive,

How could I regret to have lived and died in a split second, if that same second, made me taste love to it's deepest core.

I just can't. 
I won't.

 And I don't hope to understand it, not now, not ever.




Sarah Moustafa



terça-feira, 13 de agosto de 2013

Farsas






A sensação espartilhada constante, respirar fundo sem nada inspirar, 
E o sufoco de um oxigénio que não é feito do que preciso respirar.
A canção sem lírica, o ruído surdo que não pára de ecoar, 
Um espaço perdido algures entre uma atmosfera que não sei encontrar...
E a balada que oiço, não é musica, é sangue e guelra que a todo o segundo sinto destilar...
A paixão que bombeia a vida, não pulsa onde deve, não se dá guarida, é prenuncio em tique taque, um perigo sempre por deflagrar!
E a iminência que não culmina, veneno que incorre a morte, sem a levar !
De quem me leve e possa achar que me consegue encontrar, rio no choro amargo da verdade que sei silenciar.
Acredito e não sei acreditar.
E os olhos vivos, estão cansados, riscados de sombras dilatadas que não os deixam fechar.
E o sorriso, é tristeza e tragédia de uma epopeia sem ninguém a quem contar.
E a esperança, é o inferno que invade, sem entrar.

É tudo mentira e nada a consegue enganar.


Sarah Moustafa






segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A palavra.




Não sei dizer a palavra
Repito-a obsessivamente,
Escrevo-a
Mas não a soletro
São borrões de tinta
Negrume esparso no papel
Uma sensação alienada
Lacrada nos lábios em túmulo
Sepultada...

O tempo é pedra
O tempo sele.

Mas sei que não a sei dizer
E se sei que não a sei
Existe uma prevalência
Um trono sentado
De quem é
Sem ser, Rei.
Um destino em cedência
Pontas soltas
Um papiro frágil
Um sopro de alguém

A Circunstância é lei.

E a palavra é de quem?
É minha ou tua?
Quiçá de nenhum de nós
De um outro alguém

Não se diz
É escrita.
Só suja de tinta
É limpa e bonita
É real, e minha também.

Sarah Moustafa




sábado, 10 de agosto de 2013

Terra do Sempre.




Não é suposto isto acontecer.
Não é suposto crescer.
Não quero.
Quero ficar assim, pequena, dependente
Sem nada ter que entender.

Não quero ter que saber
Tirem-me esta consciência !
Esta maturação, que me obriga a reconhecer
O desencanto nas pinturas do mundo
Que não são pintadas
São molduras de uma alma desgraçada
Vazia desta responsabilidade inanimada
Que é amadurecer.

Não é a Terra do Nunca
É a Terra do Sempre, em que quero viver.

A ilha de todas possibilidades
Em que festivais são olhos
incandescentes de familiaridade
A faísca da probabilidade
Improvável a Surpresa
Um vulcão de vontade!

Não. 
Não, é suposto isto acontecer.
Esta adulta saudade
Do tempo em que era raiz
Estes limites de casualidade
De vagas e superficialidade
Que nada me diz !

Não quero, deixar de ter
A magia e o pequeno prazer
Quero ser pequena, 
Mas continuar GRANDE
Mesmo no dia, que deixarei de o poder ser.

Sou, sempre, 
E serei até na atmosfera desvanecer...

E nem essa me poderá esconder!


Sarah Moustafa


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

If .






If you want adventure, you mustn't be afraid to live it
If you want passion, you mustn't be afraid to let it in
If you want danger, you mustn't be afraid to risk it all
If you want to be consumed on love, you mustn't be afraid of the flames
If you want to be filled with life, you must live it!
Now is not today, and today is not tomorrow, there's so much time we can borrow, what are you willing to do to drift away all the sorrow?
The second.... you must forget about hours,days and years , its only the very second that matters.
Here. Now. And it's already gone!

Minutes fade away but seconds..can last as eternity, it may.



Sarah Moustafa

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Um pouco disto, um pouco daquilo




Noites longas
Dias curtos
Porque se estendem ?
Porque se encolhem ?
Ora Deuses
Ora Vultos

E esta indefinição
De pele e ossos
Largada pelo chão
Camadas Despidas
Alguém sempre em exposição

Quem se expõe?
É mulher?
É uma criatura qualquer!
Quem a vê ?
Senão Como outra 
Divina mas Banal
Contra-senso absurdo
Filosofia de estudo,
É o quê ?
É tudo que se quiser aprender.

Um pouco disto
Um pouco daquilo.
Não se entende a vida
Ou a morte
E não são para entender
São plumas pisadas
Delicadas e mal amadas
Fragéis e cristalizadas
Instantes que perceber
Sem nunca deles alguma vez saber.

Sarah Moustafa




quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Comigo Mesma




Hoje não tenho qualquer problema em dizer que choro. 
Como costumo chorar , por vezes, ininterruptamente ao longo do dia sem deixar ao exterior vislumbrar.
É tudo sempre interior, tudo tão cá dentro, tão dentro por dentro de mim mesma.
Camada a camada e nunca chego á fundura que persigo, está sempre algo tão mal, mesmo quando está tudo sempre tão bem.
Hoje não tenho qualquer problema em confessar este choro molhado com sabor a seco, a deserto ressequido em oásis, e não tenho, e não o temo, porque não o estou a dizer a ninguém, a não ser a mim mesma.
A interlocutora que se esquece vezes demais da sua propria locução, do que a motiva e destrói nesta sede de emoção.
Choro porque me falta tudo, choro porque nada me falta.
Desespero pela oportunidade que não chega e repudio-a no momento em que suspeito que por um segundo ela se possa tornar real.
Eu não antecipo o sofrimento mas a glória, essa mesma que nos rejubila a vida de encantamento e verdade, essa que nos decora com sorriso e leveza de um espírito revestido de uma certeza vibrante, que de tudo é capaz.
Essa previsão paralisa-me. 
O medo de ser feliz é incontestavelmente o motivo das acções mutilantes que inflijo sobre mim mesma e com quem quer que se depare no meu caminho.
Mas hoje não falo de mais ninguém, a não ser de mim mesma. 
Hoje, e talvez só mesmo por hoje, eu responsabilizo-me pela má sorte que me angustia. 
Eu responsabilizo-me pela mágoa que sinto. 
Eu responsabilizo-me pelo que de errado o certo absorveu.
Hoje não tenho qualquer problema em assumir a culpa e cota parte de inferno que faço questão de construir ao meu redor, de arcada em bancada, sou eu que incendeio quem lá se senta, quem lá tenta entrar e eu assisto impavidamente, porque parece tão certo...
Não tenho qualquer problema em assumir que todos os falhanços são falhas de uma índole, que nunca foi construída, lapidada, instruída e aplicada em direcção de si mesma, da sua aprendizagem e crescimento.
Assumo a imaturidade emocional que me redige e desilude constantemente em grande parte dos relacionamentos tóxicos que mantive, percebo , por fim, a toxicidade que eu mesma destilo em incongruências inconscientes e jogos e armadilhas inconsequentes, não por serem errados na medida certa da palavra, mas por não discernir, mesmo, a consequência e ressonância que isso produzia em mim.
Assumo a sensibilidade de alguém já nasceu exausta de si mesma. 
Exausta da exigência que este vácuo emocional, em movimento espiral me alimentou.
Mas hoje, não tenho também qualquer problema, em afirmar a ingenuidade, a delicadeza, a beleza e a ternura que reconheço, por fim, em mim.
Não tenho pudor em vivenciar a sensualidade, o erotismo e a força  dos sentidos femininos,  no corpo que faço de meu templo.
Não tenho vergonha da minha origem, da infância complicada e das vidas deste tempo rasuradas.
Hoje aceito-me, trabalho-me. 
Volto a cair nas armadilhas da carência e medo do desconhecido, muitas vezes, porque sou humana, e hoje sei que isso é ser também  mágica e sobrenatural.
Hoje não tenho qualquer problema em admitir que choro, agora e daqui pouco...porque nesse simples momento, eu me transformo. 

Sarah Moustafa