quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Dissolvência- Capitulo VIII - Incongruências



Capitulo VIII

Incongruências




Seria possível viver, sobreviver mais correctamente,  numa realidade paralela, diferente, onde a vida e a morte se unissem num laço indiviso, inseparável da costura invisível, mas corretamente presente, na mente descomposta, confusa no declínio da vida, dos momentos em babel, das trapalhadas irresolúveis, pesadas na sua irresolução, carentes, tremendamente carecidas de uma conexão forte, inquebrável, que parecia não chegar, não ser seu direito devido o de construir relações enraizadas, mas meramente, ser uma espectadora impassível da sucessão de acontecimentos que por Jade passavam, velozes, na lentidão própria da inercia vontade.
Deu por si a desejar, como nunca antes, voltar a essa rotina, voltar a monotonia dos detalhes que a mente atribulada conhecia e desconhecia, vezes sem conta, para na sua desventura de ter algo em que divinamente pensar, exercitar esse pensamento, sentindo-se na brevidade do segundo, preciosa na inteligência que almejava ter.
Havia aquela remanescência  doce da infantilidade ida onde a agitação febril se vertia nos papeis, escritos ao ritmo da imaginação, ao ritmo do descompasso da alma ainda tão tenra e tão inesperadamente gritante por ajuda, por salvação.
Os papeis, os cadernos amontoados, eram naquele tempo ido a sua salvação, o seu refugio secreto, onde tudo dizia, onde era tudo, e mais do que aquilo que era, onde era grande, suficiente e ouvida. Ouvida, porque se fazia ouvir, ler e reler nas entrelinhas da paixão pela vida, pela esperança que punha nela, de um dia poder fazer desse seu modo de viver, modo de sustento e sobretudo modo de alento.
No presente analisava-se como uma dissipada projecção de mulher, grande no corpo, mas cada vez mais diminuta no coração, que ousava afirmar sentir encolher nas pontadas da noite sofrida. A escrita insegura fora arrumada no baú da comiseração, consciente do valor que poderia ter, inconsciente da capacidade de vontade latente em si de materializar o talento que lhe fora dado,sucessivamente enterrado, velado,porque assim não teria de lutar, não teria de se afirmar, e como tal, destruiria o temor do sucesso que nunca iria ter.
Trabalhava desde o final do liceu, que concluiu com mestria no agrupamento de letras, e deixou-se flutuar, como sempre flutuava, para os livros de outros, para as estantes valiosas e poeirentas do conhecimento, arrumado e catalogado na Biblioteca Municipal.
Pensara com brevidade na importância daquele trabalho, era um trabalho, mal remunerado, mas pleno de leituras maravilhosas, com que sonhava diariamente, transpondo-a, quase, apenas quase, para a realidade que desejara realmente viver, mas para o qual, como sempre, lhe faltara todas as forças de vontade.
Sabia que era uma cobarde, sabia-o desde sempre e para sempre, mas ainda sim, preferia assim ser, e ás suas consequências, do que sentir aquele medo atroz de tudo o que lhe era de origem não familiarizada.
A retrospectiva do passado que não voltava era triste no decesso que o futuro lhe pintava, no infortúnio da incapacidade de se desmembrar de si mesma e das suas malogradas vivências, para um outro corpo de mulher feliz, resplandecente na leveza do idealismo optimista, de segurar as rédeas da vida com a tenacidade tremenda da mulher furacão, uma mulher como Débora, que tanto lhe importava por ser a única pessoa com que poderia falar aberta e imparcialmente de julgamentos e comentários maldosos... como se enganara!
E o pensamento desse engano vil, dilacerava-lhe as entranhas, tanto quanto a imagem de Gabriel morto, irremediavelmente ido, para sempre da sua vida extraído.
Estava demente, e se não estava para lá caminhava a largos passos, pois Gabriel tinha estado bem presente no seu apartamento, quando supostamente já se encontrava morto, a incompreensão dos factos, a falta de respostas, pesavam, como pesavam...Mas no fundo pensando na densidade dos pensamentos, haveria questão mais urgente que quisesse ver respondida, do que se realmente estava ali presente de carne e osso na realidade tangível que conhecia, ou se a sua tentativa de partir do plano desolado tinha de facto resultado, estaria então morta?
 O desespero voltou sobre a forma palpável, frenética, que o sistema nervoso não conseguia domar, com o peito insuflado de pavor, Jade levantou-se por fim, no arrojo do ultimo pingo de coragem, da cama desconhecida, onde acordara no repouso que julgara eterno. Observou os sapatos dispostos aos pés da cama, sem duvida alguém os tinha retirado e colocado ali, mas porquê?
O que queriam dela, o queriam fazer com ela? As pontadas no peito acentuaram-se desejando ardentemente estar no seu pequeno apartamento a chorar em prantos a sua desgraça, do que estar ali, naquele estranho sumptuoso quarto, de mobília pesada e antiquada, cujo pó já se havia entranhado ao longo dos anos, de tal modo que Jade conseguia sentir o seu odor.
Não havia janelas, era um espaço totalmente fechado, asfixiante, iluminado por um candelabro obsoleto onde três velas ardiam trémulas, em compasso com o seu próprio ritmo.
Calçou os sapatos oscilante no equilibro do corpo debilitado e sentiu todas as notas do horror a apertarem-lhe os ossos quando subitamente lhe pareceu ouvir passos a encaminharem-se certeiros para o espaço onde estava disposta, sem saber o porquê e quanto tempo tinha passado.
A porta abriu-se com um estalido, vagarosamente fazendo-a recuar ao máximo que conseguia retroceder enquanto um Homem que não conseguia identificar entrava lentamente sem a olhar, verificando apenas a chama das velas trémulas.
- Espero que tenhas tido um bom descanso... - Jade encostou se a parede na outra ponta do quarto engolindo em seco o medo que crescia em novelos, aumentado a níveis consideráveis pelo que acabara de ouvir daquela voz inesperadamente branda. Observou-o na brevidade do momento, era alto, vestia um simples casaco preto e calças de ganga e pareceu lhe, no estreitamento dos olhos em busca de pormenores, que era loiro.
- Por favor...senta-te. Não há o que temer... - A figura incógnita aproximou-se de si , mas a luz continuava demasiado parca para ela conseguir absorver os detalhes do rosto que lhe falava numa segurança estranha, impressa no vaticínio das palavras. Este voltou a recuar permitindo-lhe o espaço que parecia adivinhar que esta necessitava.
Calmamente abriu um pesado gavetão da cómoda de mogno retirando de lá pequenas velas brancas que dispôs pacientemente no tampo da mesma, disposto de costas para Jade.
Esta reuniu milésimos de força e avançou por fim, receosa, intercalando o olhar entre o desconhecido e a porta entreaberta. Talvez se se descalçasse conseguisse correr dali para fora, pelo menos teria o factor surpresa em seu favor e talvez aquele estranho homem não a conseguisse apanhar. Fitou á medida que se aproximava a robustez do corpo do mesmo e sentiu toda a mínima confiança a desvanecer se no lume que este agora acendia na iluminação crescente do quarto. Este voltou-se inesperadamente sobressaltando-a.
- Tudo fica melhor com um pouco de luz, concordas? - indagou de surpresa á surpreendida mulher que olhava como se já conhecesse todas as suas expressões. Jade mordeu nervosamente o interior do seu lábio tentando pensar nas suas opções, mas como pensar em algo que não existia?
- Quem és? - perguntou por fim num arrasto de voz muda há tempo demais, repleta de insegurança e temor.
- Essa é uma resposta complexa...mas será que é essa a pergunta que realmente queres fazer, Jade? - Ali fora a gota de água, ele sabia o seu nome....arregalou os olhos amedrontados recuando em direcção á porta.
- Tens a pessoa errada... - murmurou aproximando-se cada vez mais do escape que necessitava. Este colocou um esgar de sorriso em resposta, mantendo-se complacente ao seu recuar.
- Claramente tenho a pessoa certa. - replicou convicto do poder das suas palavras.- Tu podes ir Jade, é sempre a tua escolha o caminho a seguir, mas pondera...voltar para onde? É realmente por essa porta que queres sair?
Jade estacou com um passo dentro do quarto e outro já fora pronto para se escapulir, olhou-o longamente no desespero da verdade assentida. Quem quer que fosse aquele homem o medo já não era o factor preponderante da situação e em si sentiu o despontar da curiosidade mórbida das respostas há tanto procuradas. Seria aquele sujeito que lhe iria responder? Talvez sim, Talvez não mas...sentiu apenas o dever de colocar o pé que estava de fora de volta para dentro do quarto reluzente pelas velas aclarado.
Tinha que tentar perceber.. Tinha que tentar entender algo das incoerências que assolavam a vida quase perdida...Quase.


Sarah Moustafa



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Perder é Encontrar




Quando perco encontro
Satisfaço em toda a perdição
A melodia que eclode
Gigante em toda a emoção
Que como um petardo explode
Saciado pelo transbordo
 Das notas incrustadas no coração

Quando perco encontro
Nas cinzas da destruição
Aquele pequeno monstro
Que ruge pianinho
Cheio da atenção
Enlevado no estrondo
Assustado e Sozinho
Querendo apenas afeição
Do refugio inesperado
Que brota da aceitação
Do ser abnegado
Que o bem e o mal
Se encontram no receptáculo
Da magnânima altruísta devoção

Quando perco encontro
O mim que deixei por aí
Sumido no decoro
Em que parti
Na nau da triste vida
Que pela fortuna do recobro
Surge no horizonte plenamente reerguida!

Sarah Moustafa


terça-feira, 27 de novembro de 2012

(Des) Encontro





Encontrar o desencontro dos corpos, na premência do ideal enfatuado, com a sua propria ideia, irreal, impulsiva nos anelos da pretensão, sôfrega, de se perderem na espiral do aniquilamento das identidades, fundindo-se no esbanje do apego, incorruptível, deleitável, na pseudo percepção de ascender, por fim, ao Nirvana procurado, ansiado, na plenitude da ânsia, de encontrar o delírio projectado no devaneio abraçado, que abraça perdido o dissipar do anseio.
O desencontro dos corpos que não se encontram, que quase se aconchegam nas plumas da dilecção encantada, forjada, decepcionada na alucinação vã do engodo devotado, que se estatela célere dos céus expulsado, na verdade doída da afeição á delusão, estarrecida no logro danificado, abruptamente, liquidado.

Sarah Moustafa

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Combustão




Fogo que desponta tímido, retraído pelo abafo do ser, pelo sopro indiviso do controle, que puxa sagaz das rédeas do poder, das rédeas onde enclausuramos esse acanhamento quente, vagaroso no despontar da forma, incendiário na explosão , que esta hora ou outra, se sucederá, eminente na destruição dos círculos viciosos, na abnegação recreativa da mente serva que busca o pedagogo, instruído, capaz, de lhe abrir os portões do templo sacro, imaculado na bendita exploração do conhecimento recôndito nas prateleiras, velado pela hora do divino incidente, resplandecente no clarão pela cúpula vigiado, transformado na óptica da lucidez revelada á imagem daquilo que buscamos ver.
Brasas deliciosas que se exploram divertidas no lume pela mente alimentado, radiantes no jubilo do conforto desconfortável, a quem as carrega, a quem as canaliza da frouxa fagulha á corpórea, nutritiva, lareira, excitada  no descanso do fogaréu  incontrolável, á disposta disposição, do lume brando, tenro, suficiente na energização da separação do que libertamos de toda a moldada razão.

Sarah Moustafa

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Dissolvência - Capitulo VII (A vida depois da morte, ou a morte depois da vida?)


Capitulo VII - A vida depois da morte, ou a morte depois da vida?




Julgava ter chegado a derradeira hora, a hora que assinalava a pendência do fio de vida a que se sustinha, fragmentado em mil partículas de nervos contraídos pelo corpo no enlaço do fugidio momento.
Fugir do espaço e do tempo, fugir de quem se punha diante da prescindível vida que tinha, fugir de si, sim, sobretudo fugir de si mesma.
Nunca antes, em todos os tempos em que assim pensara, nos abandonos e nas partidas, nas mentiras embrulhadas, nas traições desenfreadas, nunca a emergência de se evadir, no culmino das afrontações, se colocara com a força e a urgência errática presente, na presente conjuntura.
O choro compulsivo diante das horas passadas ressequíam a pele crepitante no conjunto das tristezas e dos choques ainda em abalo no corpo, demasiado fustigado para as suportar.
Os gritos de Nicole na descrença inicial das palavras cruas da verdade quase enterrada, descoberta na perfídia inconfidência de quem julgava poder confiar a sua vida, o amor perdido para sempre no catastrofismo do destino perverso que não a largava, que a assombrava no tumulto da alumiação, de onde Jade implorava, que a mesma luz não chegasse, onde se tinha agarrado a essa esperança  no anseio desmesurado, quase ingénuo que assim se fosse suceder, que até o seu desencarne acontecer pudesse viver, existir, em breves segundos de paz.
Em breves segundos onde uma pomba branca voejasse diante dos olhos eternamente tristes, complacentes com o vislumbre da esperança do resgate.
Como tinha sido incrédulamente crédula, deveria de ter sabido melhor que isso, não teriam sido vinte e dois anos de infelicidade atrás de infelicidade suficientes para o saber?
Aparentemente não havia absolutamente mais nada a apreender do mundo que temerariamente a odiava, que com todos os místicos poderes, a impeliam na expulsão do reino da realidade em que fora posta , sem pingo de amor, sem nada a não ser destruição a que se agarrar, tudo onde as delicadas mãos pousavam acabavam no infortúnio, desmanchadas, padecidas no toque da desgraça, e era sua culpa, toda sua culpa, assim ser, assim se permitir ser.
Tudo acabaria brevemente, enquanto as pernas conseguissem engrenar os movimentos dos passos alargados, acelerados á máxima potência que conseguia atingir, na célere vontade do destino encaminhado.
Estava quase, só teria de suster um pouco mais a sofreguidão inundada pela humidade da noite nos pulmões submergidos de cansaço. 
A estrada da marginal repleta de movimento do tráfego diário, continuava como sempre repleta de efervescentes vontades, irasciveis em chegar com rapidez ao destino do quotidiano, fosse para retomar ao lar no fim das horas de trabalho, fosse para ingressar nos mistérios da noite procurados, nas diversões e lascivos momentos onde se perdiam felizes no contentamento da carne endividada pelo juízo da alma desconcertada.
E ainda bem que as circunstancias, por uma vez na sua vida, no limite da mesma, se denotavam como esperava, como necessitava que permanecessem fieis na constância da rotina alargada.
Jade estacou por breves minutos no fim da calçada segura que delimitava o limite do alento do corpo denegrido, enfuscado nas sombras que lhe estendiam prontamente a mão.
Inalou o ar cortante com profundidade, sentido cada átomo do sopro inalado a apertar-lhe as narinas, sentindo com um vibrante regozijo o formigueiro da brisa gelada no corpo, acariciou o tecido do vestido envergado, com a brevidade do deleite da vaidade.
" Desaparece! Desaparece, ouviste bem? É bom que te escondas na tua própria porcaria e que morras lá! Ouviste? Desapa..RECE!"
O brado derradeiro em fúria de Nicole ecoou no calibre supremo da mente paralisada no momento do julgamento final, a imagem da amiga a ser arrastada por Débora para fora do cemitério com o corpo contorcido em raiva latejante, raiva essa, cuja transgressão caia toda sobre os ombros de si mesma e da sua aberrativa natureza que precisava de cessar, que precisava de ser exterminada com toda a potência da extinção. 
Duas lágrimas verteram-se no compasso coordenativo da tragédia, de que talvez um dia escrevessem, no lirismo da beleza que se retira do cataclismo da vida terminada, das vidas cruzadas e desfasadas, num instante, em ínfimas desgostosas cinzas.
Humedeceu os lábios no seu próprio sal e deixou que os pés ganhassem vida própria no caminho envedrado, sentiu as luzes a incandescer os olhos e fechou-os no apogeu da derradeira hora em consonância com a sinfonia que eclodia de dentro de si.
"Quero ver a pomba..a pomba.." imaginou-a minuciosamente no negrume dos olhos cerrados, assentidos com a estridência do buzinar que rebentava a sua audição, a estridência e a luz branca próxima, tão próxima...


***

" Eu disse que tinhas de voltar...Jade por favor, acorda...volta!" 


 Jade levantou-se rompante desorientada, arquejante em tentar perceber onde se encontrava. 

Olhou a sua volta na parca luz que iluminava o estranho espaço onde se encontrava. Estava reclinada numa cama de sumptuoso porte, estava vestida como se lembrava...sentia o ar e o descompasso do coração no bombear desenfreado do sangue fervilhante de medo e anseio. Seria possível...  Como estava ali? Como estava viva? Seria isso mesmo verdade ou não passaria de uma projecção horrível no limbo da suposta morte?
Onde estava? Onde estava?


Sarah Moustafa

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Anima




Será possível seres mulher, toda vestida de macieza e susceptibilidade, e conservares a ardência do másculo voraz apetite, de cavalgar nas terras da bravura, das guerras arreliadas, na rebelde convicção da afirmação viril, do ideal que ruge da delicada, temerária voz, possante no ímpeto que estremece a terra caminhada, desprimorada do primor infame das injurias certificadas, coagidas da vontade incapacitada de tecer a teia por si deliberada, nas verdades e nas mentiras necessitadas, no trilho da sua única historia perscrutada.
Será possível pegares a tocha do fogo da vontade e incendiares a fragilidade da feminina enluvada realidade?
Se lutas e conduzes a espada, nas guerrilhas batalhadas, com as rédeas da fortuna em pulso, desabrochas no espírito do varão, que ousa desafiar as contendas da razão, vibrando na dança do retinir metálico, ensaiado na coragem do impulso jovem contundente, transfigurado nas formas da uterina produção, bela e deslumbrante, na singela rara criação.
Será possível afrontar os limites da coragem reluzente e permanecer única, irrevogável inocente?

Sarah Moustafa

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Esculpida





Odisseia da esbelta garbosidade disposta na longilínea linha da airosa vontade, da forma que impacta no impressionismo da contemporização, no hedonismo incendiado, na ascensão repleta de fagulhas em agitação, febris na assoberba imagem embutida na idealização da concepção arreigada nas vielas da elevação, proliferadas no trabalho que germina cristalino do coração.
Odisseia da escultura concebida da súpera, máxima, examinação, reflectida na observação da ecléctica representação, trabalhada no afinco, talhado nas mãos, do dom divino da mutação, transformando,  esculpindo as lascas em emoção.
Pedra entalhada na maravilha desvelada, ao compasso da feição cinzelada , entre a memoria e a imaginação,  da feminil adoração, perpétuamente, gravada nos raios do louvor, pelo esplendor da imortalização.

Sarah Moustafa

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Neve






Os flocos de neve desabam na tranquilidade dos céus regelados, plácidos no conforto do tempo apropriado, da benesse que deles brota, na produção da natureza cândida, genuína no procedimento das maravilhas aprimoradas, sequencialmente orquestradas, harmonizadas na sinfonia consonante dos acordes melódicos, sublimes aos sentidos apurados, tocados pela virtude da sensibilidade respeitante, na beleza alusiva, magnifica, fidalga na eximia ilustre composição.
Ah.. Os  flocos de neve tombam vagarosamente pelas estradas vestidas de branco, adornadas de virtuosidade, níveas no deslumbre dos olhos que se arregalam, com o fitar da bênção reproduzida, que se emocionam na graciosidade da visão expeditamente triunfal, esplêndida, excelsa no absolutismo da excelência.

Sarah Moustafa

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Prisão do Medo





Medo atroz, prisão agonizante, nas barras de metal frias, implacáveis no uso do aço gelado, impregnadas do temor do estremecimento, no arrepio ermo do retraimento do coração descompassado, estreitado com a severidade do pavor pulsante, de não conseguir controlar a desventura do incontrolável, do intocável assombro da partida fugaz, do espectro transeunte no receio inebriante da atrocidade precipitante, sobressaltante no peso de mil arcadas no sufrágio lento e mortificante do medo excruciante da derradeira hora em que os lábios se envolvam no laço da monção, do apanágio debilitante que delimita o sustento da vida e o tormento da morte.
Opressão dos sentidos alarmantes, efémeros, plangentes no vislumbre do trapézio  na linha quebradiça onde os recursos postimeiros definem a sustentação dos anseios...

Sarah Moustafa

sábado, 17 de novembro de 2012

Saudosismo





O saudosismo mói, importuna a alma, na comoção do sentimentalismo, abatido pela miragem do tempo ido, pelas pessoas que caminharam nesse mesmo tempo e que também elas , para o infortúnio da sensibilidade profunda, se foram, idas nos dissabores dos caminhos que se cruzam e descruzam com a maleabilidade da configuração.
O saudosismo abate-se, uns dias mais do que outros, com a pungência de um trovão que ribomba eléctrico no coração.
A corrente da descarga dos ficheiros corrompidos, deambulantes, algures pela imensidão do vazio que as abarca, que abarca a lembrança vívida, garrida nas tonalidades, no odor pairante ,nas formas proteladas, guardadas com primor nas latas de conserva, justificadas e  rotuladas pelo zelo autentico da emoção.
Na agonia das lágrimas derramadas ou no regalo da euforia diletante, exuberante, tudo se preserva, com o velado, esmerado cuidado, da necessidade de açambarcar o monopólio das vivências mantidas.
O saudosismo mói, aflige no desalento do desconforto da efectividade dos factos presentes, adoece na fragilidade da verdade presente mas demonstra também, o brio da sensibilidade requisitada, da força requerida no sustento do ser em sofrer e renascer nas partículas do alvorecer.

Sarah Moustafa

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Projecção?



A projecção reflecte tanto de mim em ti que estremeço nas arestas do cubo mágico da verdade.
Mas que verdade?
Será que realmente a que quero definir?
Será que realmente deixarei a ousadia assaltar o perscrutar dos enigmas indecifráveis, cativos na existência diante de mim?
Respiro, mas interrogo, medito mas a interrogação, indaga sem fim, Porquê?
Aterra o medo atroz, do vislumbre das negras sombras, manchadas no enterro, ao âmago do secretismo, no preâmbulo desenhadas, camada a camada, patentes no espelho encantado, insuspeito, fugidio, de mim, de ti.
Será? 
Será assim porque conservo a esperança irreflectida de acções inusitadas, accionadas pelas vielas do acaso, ou porque em ti o espelho fulge na imagem imperfeita, perfeita para a essência primordial, desconfortável para a panóplia de máscaras carregadas.
Nesta projecção a mascara não serve a medida das feições, e porquê?
Os porquês vão matar a sanidade do foco mental.
Recorro a ti e de assombro á perplexidade, os porquês cessam, adormecem pacíficos no sono há tanto almejado.
E porque adormecem?
Será que vejo em ti o mim?
Será..talvez a grande verdade?
Por hoje cesso o porquê, embora o mas...arranhe a garganta e tente os dedos ávidos em prosseguir a dissertação da razão do turbilhão.


Sarah Moustafa

Enlaço




As mãos envoltas na suavidade aguardada, ansiada na perspectiva do romance aspirado, lido, sorvido nas letras esplêndidas, entremeadas na expressão catártica, esgazeada com a realização da devoção da emoção.
Febril rubor no viço dos olhos lacrimantes, cristalinos na miragem em explosão das pétalas deslumbrantes no regaço do ventre expectante.
Ventre deliciosamente ajustado á seda adornada, na silhueta proclamada, no embelezamento  peremptório da hora acordante, no intuito do sonho vibrante, da entrega irrevogável á utopia constelada no lirismo do coração.
Enovelo das mãos no laço dispostas da eternização delineada no âmago da afeição.
 Brio congratulado na feminina ascensão da disposição suprasseada na fleuma glorificação.

Sarah Moustafa

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Feiticeira




Na barbárie feroz, o abalo revela-se no rosto circunspecto, de expressão severa, oculta no misticismo dos sibilos que os enigmas entoam nas noites esfingicas, onde o assombro permeia a verdade, murmurada nas visões quiméricas, alquimicas, dos devaneios da imaginação.
Devaneios ou autenticidade, da feiticeira prestigiosa, oculta no sombreado das trevas ou da luz?
Censura do extraordinário, surpreendente na assunção das maravilhas percurstantes, dos segredos balbuciados, desvelados nas aparições da sublimação da psique.
O espírito do ânimo da essência voraz , que vê além do olho comum, que encerra em si os portais do intermédio da elucidação.
Nos arcabouços consta a decifração da críptica interrogação, 
Benévola musa da inspiração ou malévola endiabrada criação?




Sarah Moustafa

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Brilho




Os brilhos dourados, refulgentes , apressados na posse do corpo descoberto, necessitado dos lampejos em explosão, das partículas solares, pelo corpo dispostas, imóvel , na renitência da proliferação da beldade, do engrandecimento enlevado nas hipnoses do fulgor contundente. 
Arquejo em espasmos dos músculos retesados, engrenados na força do desejo da transcendência, da aceitação estremecida das douradas oferendas, do brilho que veste a apatia desacordante, que a transforma em desejo ardente, no fogo velado da estima roubada, recuperada na graciosa apreciação da aclamação.
Ternura delicada emoldurada na feição descansada, insuspeita da visita pelas curvas distendidas.
Cintilação absorvente que voeja na magia dispersa por penas de ouro aterradas, macias, agradáveis no agasalho apetrechado pelo condão místico ofertado.


Sarah Moustafa

Desvaire





Desvaire tremendo que se intromete, invasivo, arrogante na especulação das irreverencias aveludadas, na voz  prepotente, repleta, exulta, de brilhos maliciosos e malevolos, nas cruzadas do império que se formula aos pés do mestre imperscrutável, no sorriso escarninho, na linha imperceptível do rosto de expressão indecifrável.
Temor aberrante do domínio déspota, da reverencia insane, nos objectivos pretendidos, nos meios álgidos dos fundamentos que vestem a sensibilidade ida, no implacável escrutínio do coração embrutecido, na pedra talhada ás facetas colossais do desgosto que fuzilou a vida brilhante da alma extinta do corpo ,de acções abomináveis, inaceitáveis, assolapadas nas catacumbas profundas da dor que se reformula num ódio pulsante, no extermínio das emoções extravasadas, que correram para longe do seu curso devido, outrora fértil, agora árido, latejante na funesta, tóxica proporção.
Desvaire do suspiro de quem olha, de quem vislumbra partículas ínfimas de luz rastilhada no impassível contemplo do templo arruinado.

Sarah Moustafa

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Dissolvência- Capitulo VI ( Fúnebre Momento)


Capitulo VI - Fúnebre Momento

Earth to Earth, Ashes to Ashes, Dust to Dust


A manhã acordou fria, gélida no seu tempo próprio, contudo o Sol despontara brilhante e com ele despontara também uma reminiscência de esperança, ao dia triste , pesado nessa tristeza, que se avizinhava, que se aproximava celeremente, na velocidade que Jade não conseguia impedir de prosseguir no ritmo devido das ampulhetas do tempo, cuja areia desvanecia aos últimos grãos, á imagem dos olhos pesados.
O descanso devido, do corpo e da mente, não ocorrera e sabia que dificilmente voltaria a ocorrer, na normalidade do sono tranquilo e vitalizador, suspeitava até, que tal só aconteceria, no colapso iminente do padecimento do corpo extenuado, que mais cedo ou mais tarde, quebraria no ponto de ruptura.
Sempre se sucedera na capacidade eximia de armazenamento de lixo emocional, deixando-o remoer lentamente as entranhas, num sofrimento que julgava ser seu por direito. Se lhe removessem a tristeza crónica do cerne da essência o que seria dela? Ver-se ia nua, exposta ao mundo da felicidade alheia, onde teria forçosamente de se superar com o dobro do empenho, para lá conseguir permanecer nas douradas contendas, de um mundo optimista que desconhecia e que sinceramente preferia não conhecer, era tarde demais para tal, e assim poderia continuar a subsistir no ninho confortável do dissabor, que construíra ao longo de toda a sua existência, com a devoção da amargura de que ali e ali apenas ficaria eternamente segura.
O corpo dolorido sensibilizava-se com as suas tentativas  de se vestir apropriadamente para a ocasião. O enterro de Gabriel.
Repetia aquele nome incessantemente tentando focar a mente naquilo que realmente importava de momento, o adeus permanente ao corpo frio, inerte num caixão, do único Homem que amara em toda a sua vida.
O homem que mais amara e que mais odiara, numa raiva crescente, cujo veneno se disseminava na corrente sanguínea , ao longo dos anos passados, pelo sofrimento que lhe culpabilizava , um sofrimento inigualável  indescritível ás palavras pela semântica reconhecida.
Entregara-lhe o seu coração inocente numa oferenda ao amor impulsivo, aterrador, vital á sobrevivência da vida que nela conservava. Entregara-lhe o seu sol, a sua identidade numa bandeja de prata e Gabriel servira-se prontamente, degustando languidamente, através do corpo rendido ao seu poder, sugando-lhe todas as energias até á sombra do abandono pairar na derradeira noite em que este partira da ilusão por ela projecta das demandas românticas, fantasiosas, que em tempos acreditara na ingenuidade dos 18 anos contra os 41 de sabedoria e prioridades, dele.
Entregara o seu coração á imagem do devaneio e este mutilara-o numa extensão irreparável aos danos causados.
No entanto ali estava, medonha na figura vazia reflectida no espelho onde se contemplava no desconsolo do infortúnio da partida, no desconsolo absoluto de também ela querer partir.
Estremeceu enquanto as calças que despia roçavam na pele dourada relembrando os braços dele que tantas vezes as despiram daquele jeito inequivocamente aliciador á entrega da excitação vibrante , ainda quase pueril, de se deixar tocar, de se deixar apreciar o toque sem sombras de pudor e inferioridade que tantas vezes assaltavam a permeabilidade da insegurança.
Com Gabriel sentia-se no deleite da beleza devida, porque através do encanto que ardia nos olhos de floresta, tal lhe parecia verdade, ele fazia sentir-se bela, sem questionar essa mesma beleza, patente nas imperfeições que tremendamente agraciava.
Respirou fundo, tremendo de frio que chicoteava a pele desnuda, contemplando o vestido refinado, disposto na sua cama, contemplou-o hesitante na sua escolha, o vestido de linhas clássicas, discreto mas engrandecedor ás curvas que a tornavam libidinosamente atraente, a hesitação de se aprimorar para o dia mais duro da sua vida , ou se por esse mesmo factor, não sabendo se dele iria sobreviver, se honrar com uma ultima dedicação á matéria que compunha a alma agonizada.
Fechou os olhos sentido os braços que outrora a envolviam na pacificação dos momentos eufóricos,  em que Gabriel a apertava contra o peito e lhe sussurrava as mais maliciosas palavras no ouvido em deleite, com as mesmas, e por segundos, num ruído indistinto, ouviu-o com a toda a convicção da voz deleitante.
- Quero te naquele vestido, vais usa-lo e sentir que faz parte de ti. Quero-te naquele vestido, quero-te no arraso de mulher que és, quero que todos os olhos se voltem, se fervilhem, á tua passagem. Quero-te nesse vestido...



***
Era o derradeiro momento, não havia forma de contornar a crueldade dos factos presenciados, ultimados no caixão descendente, numa descendência lenta, mortificante á presença bem viva de todas a pessoas que observavam em dor os últimos momentos da despedida eminente.
Nicole Valadares, filha única destemida e eternamente apaixonada pelo pai que este fora para ela, conservava á sua imagem um respeito, uma nobreza de moralidade, dificilmente encontrada em mais alguma pessoa, que pudesse conhecer, sempre tremendamente defeituosas nos defeitos que tornavam a imoralidade mais respeitável. Nicole sabia que o pai sempre fora correcto no curso da sua vida com ela, com a mãe, até ao ultimo minuto de vida dela, e sobretudo como ser humano, imprescindivelmente correcto.
A imagem que guardava do pai era a melhor que poderia ter e apenas por isso, por essa convicção, conseguia permanecer intactamente saudável perante a doentia manhã em que se encontrava.
A presença de todas as pessoas á sua volta amainavam a intempérie que a assolava por dentro, em mais um luto que teria de lidar, e na realidade de encontrar órfã, sem pai e sem mãe para poder partilhar todos os momentos importante da sua vida de ali para frente. Essa consciência bloqueava-lhe as veias respiratórias, fazendo a respirar com uma dificuldade de encarar a aceitação da verdade, do falecimento de mais um pai.
O seu único refugio pendia em Jade e Débora cada uma do seu lado, com os rostos trancados de expressão, incapazes de sentir a verdade que jazia no caixão.
Apertou as mãos das duas enquanto se baixavam, mediante a oração do padre, agarrando cada uma num punhado de terra , simbolizando o regresso do defunto á origem da criação, cada uma na sua vez corresponde,  largou o seu punhado ouvindo o baque do mesmo, na madeira afundada, com o peso inexprimível, latente nos peitos asfixiados.
Lentamente cada pessoa presente retomava á consciência da necessidade de sair dali, e do que um cemitério representava, retornando aos seus veículos em direcção á majestosa propriedade Valadares, onde lhes aguardava ,metodicamente preparada, mais uma recepção fúnebre.
Nicole ficara para trás tal como Débora e Jade, a primeira agradecendo educadamente a presença dos transeuntes, e as outras encerradas num silêncio que da sua forma propria comunicava melhor do que falando.
- Ainda bem que vieste...- conseguiu Jade por fim balbuciar no pesar que os olhos continuavam a observar, incapazes de desviar atenção da pedra lapidada com o nome de Gabriel.
-Era impossível não vir... - replicou a ruiva olhando a amiga com a seriedade correspondente ao momento mas tão contrária á sua natureza extrovertida e alegre. - Ele de certa forma, indirecta, afectou também a minha vida.- Jade permitiu-se devolver-lhe o olhar intrigada com a resposta recebida.
- O que queres dizer com isso? - interrogou erguendo a sobrancelha perfeitamente delineada. Débora delongou-se fitando-a sorumbáticamente, observou com atenção a jovem diante de si, com a ternura embevecida do carinho que por ela nutria e com o peso no corpo da verdade.
- O que quero dizer... é desculpa. Desculpa Jade... - desabou vertendo duas grossas lágrimas dos olhos perfeitamente maquilhados. Jade moveu o rosto confusa, observando em seu redor as imagens que se mantinham dentro do parâmetro da normalidade, as pessoas a sair pelos pesados portões e Nicole despedindo-se de cada uma delas, sentando-se de seguida, lendo atentamente um papel que segurava nas mãos.
-Débora não estou a perceber...- afirmou com a voz arranhada do silêncio até então mantido.
- Desculpa...Desculpa Jade mas eu não tinha alternativa... A Nicole tinha que saber a verdade...porque...
As palavras de comiseração de Debora, diante de si, deixaram de ecoar, enquanto lentamente voltava o rosto, e via o semblante de choque cravejado nas feições de Nicole, que deixou o papel cair das mãos débeis na apoteose da verdade desvelada.
- Não... Não... - Jade inspirava o ar sofregamente acenando a cabeça negativamente correndo em desespero para os portões do catastrófico fúnebre momento.

Sarah Moustafa


Despontar da Aurora



Despontar da aurora cândida, convidativa na doçura incorrupta, do corpo pueril, intocado, vibrante no toque  que almeja, na força do desejo de desabrochar para todas as outras tonalidades, para alem da luminosidade envolvente, dos raios condescendentes, o corpo delibera o conhecimento pungente da inebriação dos lábios que se delineiam no vislumbre da tentação, dos músculos que se retesam, no descortinar da incandescência flamante, de se evadir para o plano luxuriante dos desejos ferozes da descoberta do corpo liberto, ascético na fusão congratulada.
Tela dos sonhos esfuziantes, descalabro de cores  ardentes, agitadas nos movimentos alvoraçados do abraço sôfrego do renascer para a vida apetecida.
Cobiça da infinidade, divindade desenhada nas linhas do encanto, do deslumbre lascivo de querer e precisar de mais.
Semente criadora que se ergue no abraço resoluto com o sobrenatural.
As estrelas que cintilam no cinzelar da perfeição.
Imaculável imagem do divinal diabólico enternecida numa só.
Aliança que extravasa as linhas da paixão.
Exasperação proficiente nos olhos reflectidos, a doçura da travessura, transbordante na seiva da fascinação.
Deslumbre que desperta profético para as amarras da obstinação.


 Sarah Moustafa

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Dissolvência- Capitulo V (O Luto que não se enterra)


Capitulo V- O Luto que não se Enterra


O som dos saltos das suas botas , a cada arrasto de passo que dava, era a única certeza permanente que o seu cérbero e afins racionais, conseguiam ter em como estava realmente ali, em como caminhava no seu corpo de sempre, em como era tudo real.
O hospital, o cheiro característico do mesmo, as pessoas doentias que gemiam de dor em todos os corredores, dispostos em macas descuidadamente colocadas, os enfermeiros atabalhoados, o som da sirene da ambulância, que minuto sim minuto não ecoava, alarmando os que ao serviço competiam, para mais umas horas de frenético trabalho.
Jade daria tudo, totalmente tudo de si, para sentir uma ponta de frenesim no seu corpo completamente aturdido pelas horas passadas, pela sucessão de acontecimentos, que ainda saboreava como irreais, fantasmagoricamente irreais, permanecia num limbo confuso perpétuamente distante de onde de facto toda a sua constituição de mulher se encontrava.
A náusea armazenada entrava em duelo com a sua vontade de a reprimir, como penitência devida do sofrimento que estava a possuir com o poder tenebroso de controlar tudo no seu sistema, queria deixar-se ir, deixar-se assomar por essa mesma penitência, onde o flagelo da dor teria que recolher as culpas alheias no julgamento devido na hora da redenção.
Encostou-se por segundos ao corrimão das escadas que descia, cujos degraus se reproduziam aos olhos inchados, num caminho que esperançava ir de encontro ás suas aspirações. Ir de encontro a ele...
Mas a presença distinta da figura de Nicole abraçada , aquilo que lhe pareceu, uma multidão de gente, deitavam por terra os seus anseios desesperantes, o desejo da alternativa de um mundo onde pudesse ter apenas uma folha em branco por onde recomeçar o esboço da sua história malograda.
Sentiu uma imensidão de olhos cravejados na sua figura descendente, nas pernas tremulas, que desciam, sem saberem como, cada degrau com a iminência do seu desfalecimento. E queria tanto que tal acontecesse, que o seu corpo arranjou as formas mais inusitadas de a manter de pé, porque esse seria o seu verdadeiro tormento, a penitencia que tanto queria seria aquela, a de ter de lidar com todos, com Nicole em particular, no anuncio expectante das vidas diante de si, que carregavam um resto de esperança, que resplandecia na expectativa em si depositada. Antes de alcançar com o pé o ultimo degrau, baixou o rosto perante todos os outros e pressentiu, ainda que sem a imagem nos olhos, que todas as outras cabeças se descaiam por igual na  inebriante certeza do corpo extinto de vida, extinto da alma de Gabriel Valadares.

***
Débora, uma amiga de longa data, de Jade e de Nicole, pertencente ao grupo Irmãmente formado das três jovens que se comportavam como verdadeiras irmãs de sangue, enlaçadas no juramento da amizade fidelizada ao longo de mais de dez anos, estava ali presente como o pilar fundamental que sustinha o desabamento das vidas acometido pela perda de um dos elementos fundadores. Um dos elementos que tinha permitido o sucesso da amizade, pelos cenários mais turbulentos da mesma, em que o seu despenhar, por momentos, parecera realmente concretizavel. Com Gabriel presente jamais tal havia sido possível,  sempre pronto a resgatar a união, que solenemente acreditava, ser vital para a felicidade e equilíbrio das três vidas cruzadas pela sensacionalidade do destino, do cosmos transcendente que revolvia as partículas do universo, nelas compostas, com a maestria inalcançável.
Pelo menos era nisso que Débora misticamente acreditava, porque senão acreditasse nada mais faria sentido.
Ao ver Nicole e Jade na lástima esperada sabia que competiria a ela equilibrar os pratos descompensados e , que suspeitava, em breve piorar.
Apenas 24 horas após a fatalidade que a trouxera de volta ao centro do país e ao centro de si mesma, adivinhava as proporções que a morte do pai teria em Nicole, sabia com a clareza da nascente o amor incondicional que esta nutria por ele, sobretudo após a morte da mãe , falecida da doença vil dos tempos modernos, há apenas quatro anos, ainda em processo de cicatrização dessa atrocidade teria de lidar já com outra, com amplitude da força do inesperado que fora.
Todos julgavam o senhor Valadares nas terras alemãs, onde era suposto estar, na corporação milionária da industria farmacêutica a que tinha sido recrutado, exactamente após o falecimento da mulher, há mil quatrocentos e sessenta dias atrás, fora esse o tempo decorrido desde que os seus olhos azuis celestiais se tinham prendido nos dele, e que por ironia da calamidade, tinha sido também no dia de um enterro, para onde agora se dirigia, o espaço onde haviam trocado as derradeiras palavras.  Recordou-as como uma melodia trágica mas bela na sua mente optimisticamente idealista.
- Débora...eu sei que a Jade te confidenciou ...
- Não precisamos de ter esta conversa Gabriel, a sério... - tentara fugir do dialogo embaraçoso e comprometedor que estava prestes a iniciar, mas como poderia fazê-lo, sem deixar a curiosidade assombrosa, tomar grande parte dos seus sentidos, a curiosidade e uma infame necessidade de perceber em que contexto emocional, o pai de uma das suas melhores amigas, de luto pela mãe ida e enterrada naquele dia, se encontrava, se não fosse o seu interesse manifesto no campo da psicologia, que seria o curso pelo qual iria enveredar em Setembro, não fosse tão proeminente no campo de acção inexistente, pois tudo lhe sorvia o interesse, Tudo.
- Precisamos sim, por favor senta-te. - pediu-lhe educada e seriamente o homem que sempre se habituara a ver de expressão leve e feliz. Tempos esses definitivamente idos. Débora sentou-se na cadeira confortável do escritório/biblioteca onde se encontravam, puxando o elegante rabo de cavalo, de cabelo flagrante na tonalidade ruiva de que era feito, para trás. Fitou o no silêncio do entardecer ouvindo apenas os murmúrios das vozes que conversavam por toda a casa na recepção dada após o funeral.
Não espero que compreendas aquilo que te estou prestes a dizer, talvez ainda nem eu perceba bem a dimensão daquilo que se passa, mas preciso que escutes com atenção. Daqui a quatro anos, e somente ai, preciso que parta da tua boa vontade o sucesso da tarefa que te vou revelar.
Tarefa?  - Débora carregou o pálido semblante céptica no encaminhar da conversa que lhe parecia demasiado surreal.
- Sim, uma tarefa. - reafirmou abrindo a gaveta da sua secretária sem deixar de a olhar...
                                                                  ***
A ruiva vibrante, alta na constituição que lhe fora concedida de pernas longas, tremendamente irresistíveis  ao mais comum mortal, estacionou o carro, saindo do veiculo rapidamente. Ajustou o vestido negro que envergava elegantemente adaptado ás medidas das suas linhas, sentido o sol aquecer-lhe timidamente o corpo. Observou o cortejo fúnebre que já se afastava consideravelmente do parque de estacionamento preparando se para entrar nos portões do cemitério em si.
Suspirou provendo-se da energia que precisava para ir adiante com a tarefa que lhe fora confiada.
O receio das consequências daquilo que estava prestes a fazer assombravam- na no medo petrificante, mas o peso das consequências do inverso, de não levar a sua missão a cabo, ainda a amedrontava mais.
Sabia aquilo que devia de fazer, para o bem de todos, e encaminhou-se no trilho de tal, indo determinada com um envelope lacrado na mão em direcção ao cemitério.
A hora tinha chegado.

Sarah Moustafa






sábado, 10 de novembro de 2012

Dissolvência- Capitulo IV ( Na mentira jaz a verdade)



Capitulo IV- Na mentira jaz a verdade






Duas meninas gargalhavam felizes na corrida decisiva entre quem chegaria primeiro ao comando de televisão disposto na mesa de centro elegantemente envidraçada, elegantemente frágil na sua composição, adivinhado perigos prováveis entre crianças, que no êxtase da alegria inocente que as revestia, perdiam um pouco o sentido da iminência do perigo, e apesar do risco, não havia visão mais enternecedora que Gabriel podia ter aos olhos amendoados, verdes profundos, que acompanhavam com atenção o percurso da brincadeira daquelas duas adolescentes vibrantes no inicio do florescer da idade das descobertas para a vida .
- Vês Jade, eu cheguei primeiro! - A menina de cabelo loiro escuro,  relativamente mais alta do que a outra, atestou segura da sua vitória. - Portanto é a minha noite de escolher a programação!
- Que bom! - expressou-se a morena, mais baixa, carregando nas palavras, com um entusiasmo claramente falsificado. - Titanic outravez? - indagou certa de que a resposta partiria de uma afirmação explosivamente correcta.
- Nicole convidaste a Jade para passar o fim de semana connosco, tens que mostrar um pouco mais de diplomacia nas escolhas, que aliás, deviam de ser as duas a fazer. - aconselhou o Pai atento resvalando o olhar entre a filha e amiga, delongando-se um pouco mais nela.
- A nossa diplomacia é a da vitória! - gargalhou Nicole numa disposição grandemente optimista pelo sucesso dos seus movimentos. - Vamos ver Titanic sim, as duas adoramos o filme não é Jade?
Jade sentiu o impulso tremendo de lhe responder negativamente, de afirmar com toda a veemência, que estava absolutamente farta de ver o filme, que pelas vezes que o punham a repetir perdia todo o encanto inicial. Era sem duvida uma daquelas adolescentes com um variado espólio de interesses, mas sobretudo o que a fascinava, com uma força desmesurada, eram as histórias misteriosas do oculto, as criaturas da noite e os impasses de sobrevivência envoltos nas tramas cativantes,  adorava temas que explorassem o encanto do sobrenatural, onde pudesse entre as linhas que lia e as imagens que via, fugir um pouco da realidade , que apesar da tenra idade, já se lhe apresentava demasiado pesada.
Observou a amiga expectante por uma resposta e o pai da mesma, sentiu o olhar de ambos presos no seu corpo e no seu rosto hesitante,em que pintou o mais sincero sorriso na resposta dada.
- Claro! Ainda não conseguimos acreditar que o Jack realmente morre! Vamos a mais uma ronda de incredulidade chorosa no fim? - manteve o sorriso sentido um alivio da pressão imposta no peito, imposta pela mentira abonada quando Nicole , plenamente satisfeita, avisou que iria fazer as pipocas.
Gabriel agachou-se defronte da lareira trabalhada que começava agora a crepitar, alumiando o salão grande onde se encontravam, com tonalidades fogosamente apetecíveis nas variadas formas de cor de laranja.
- Podes me passar esse pano que está em cima da estante , por favor Jade ? - questionou lhe afavelmente. A jovem assim o fez observando-o a limpar os rebordos da lareira. Simpatizava com o pai de Nicole, normalmente sentia-se um pouco intimidada diante de adultos como ele, sendo que teria seguido amiga de imediato para onde quer que ela fosse, no entanto com Gabriel não sentia esse medo atroz e essa necessidade de se esconder atrás da sombra do conforto, desconhecia os motivos de tal razão, talvez porque as deixava totalmente á vontade para brincar e conversar, sem grandes discursos de bom comportamento e questões sobre os seus pais, que sem duvida não queria ter de responder, pois se lhe perguntasse iria mais uma vez mentir. A mentira refugiava-a, aprendera a utiliza-la de um jeito diligentemente credível, desde cedo, e se assim não fosse, talvez nem Nicole teria como sua amiga, tal como não teria aqueles fins de semana agradáveis no vislumbre de família que ansiava violentamente mas que sabia que nunca iria ter.
Ter Nicole e os pais dela assegurando-lhe dois dias por semana de pura felicidade conseguia compensar o vazio angustiante de todos os outros dias. E por isso mentia, criava as mais belas histórias, que gostaria que fossem realmente suas, que quase sentia como suas, não fosse no infortúnio da vida ter crescido no seio onde tinha crescido.
- Sabes Jade na vida vamos ter que nos deparar com muitas escolhas, umas que dependem de nós e outras nem tanto, mas o que importa é que em todas elas ponhas o máximo de ti que possivelmente podes por. - ainda agachado ,o Homem com que paternalmente simpatizava, olhou-a atentamente, fotografando com os olhos o rosto de boneca introvertida  repleta de medo e de brilho, que aquela jovem possuía num misto encantador de força e fragilidade.
Jade sentiu pontadas no coração adivinhado o curso daquela conversa, ele tinha-a completamente desmascarado na mentira contada.
- Eu... - começou numa hesitação confusa do que deveria de dizer. Ele sorriu-lhe erguendo-se numa imponência tremenda da diferença de altura patente entre ambos. Tocou-lhe no rosto delicadamente com um carinho que a confortava como uma manta segura nos dias frios de inverno.
- Já alguém te disse que tens uns olhos incríveis  - questionou sorrindo continuamente - São imensamente grandes, são olhos de avelã....
***
Jade....Jade! -  do fundo do corredor extenso onde seguia, arrastando os pés e todo o corpo em choque,  uma silhueta feminina corria na sua direcção, conhecia bem demais as formas daquele corpo a correr na sua direcção, quantas e quantas vezes não haviam corrido juntas nas brincadeiras tremendamente felizes dos momentos passados que agora jaziam num profundo saudosismo melancólico, triste. Nicole apertou os braços a sua volta, quebrando-se em lágrimas de dor profunda, uma dor que partilhavam num grande eco de semelhança. - Jade eu não consigo entrar..eu não con... - apertou a com mais força contra si, numa comoção desesperante, do suplicio de ter perdido o seu pai, o seu adorado pai.
- Eu vou... - engoliu em seco na libertação das palavras, que não queria soltar, não queria entrar naquela sala e reconhecer o corpo que a visitara tantas vezes, não queria ter de lidar com aquele luto e com os mistérios envoltos.
 Queria fazer uma imensidão de perguntas, que gritavam por ser colocadas, queria saber onde e como tinha acontecido e só aí poderia perceber o que se tinha passado há poucas horas em sua casa. Ela sentira o toque dele nos seus braços,  sentira o perfume que dele exalava, o odor que conhecia como ninguém, como era possível tê lo visto? Como era possível estar morto?
Sabia que teria de lidar com tudo isso, sabia que nada voltaria a ser o que até então tinha sido, para o bem e para o mal, mas teria de aguardar a chuva de questões latentes para mais tarde, porque a questão primordial e a resposta da mesma, aguardavam-na na sala cuja porta entreaberta se encaminhou.

Sarah Moustafa

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Dissolvência- Capitulo III ( Terapia de Choque)


Capitulo III -Terapia de Choque



O confronto inesperado é talvez aquele mais difícil de se lidar, precisamente pelo abrupto segundo de momento, em que nos deparamos com o que não esperávamos,seja agradável ou não, a brutalidade do choque do que entra pela porta dentro sem avisar, sem querer avisar, pois na anunciação da surpresa que estamos prestes a receber, deixaria de ser o assombro que é, ou de nos auferir o sentido da palavra surpresa, é sempre organicamente sobressaltante.
Os pensamentos adensavam-se nos espólios das admirações e dos choques e das suas devidas ou indevidas  funções, mas as reflexões divagantes de Jade não mudariam o facto de quem se encontrar á soleira da sua porta ser quem era.
- Não me vais deixar entrar?  -  a voz grave mas inquietamente,  para ela, calma questionou por fim passados os minutos que se passaram, para ela se recompor do inapropriado momento. E aquele homem sabia como Jade detestava os inapropriados e repentinos arrasos de emoções violentas, Sabia-o bem demais.
A morena afastou-se e desviou o olhar como que consentido a sua entrada, seria melhor tê-lo resguardado dentro das paredes invisíveis aos olhos alheios do que arriscar que algum vizinho possivelmente o visse, não que propriamente fosse saber quem ele era, o seu verdadeiro medo não era esse...
- Como estas? - perguntou outra vez aquela voz que desconsertava tudo o que ela se forçava por consertar.
- Gabriel pára! - exclamou incapaz de conter o nervosismo na voz que quase se atropelava na separação devida das silabas correctas. Interiormente viaja num alucinio de memórias que não queria reviver,  sobretudo naquele momento. - Corta a conversa desnecessária do como estás e do como tens feito... - suspirou fundo - Porque não estás em Berlim ou em outra parte qualquer do mundo menos nesta?
Gabriel sorriu ligeiramente no esgar sedutoramente típico do ADN que o compunha, o sorriso que ela todos os dias se forçava para apagar da memória.
- Eu tenho uma filha cá, uma casa e sobretudo direito a férias... - ironizou com uma suavidade que quase conseguia destruir a armadura de defesa que estava a tentar colocar entre ambos, mas Jade nunca fora boa em impor limites e barreiras e sabia-o tão perfeitamente como as linhas do seu rosto e do seu corpo- mas sobretudo... -prosseguiu na explicação da sua presença- estou aqui para ti...
Jade soltou um riso afectado incrédula com aquilo que ele acabara de dizer, acenou negativamente, sem proferir uma única mísera palavra, pois no fundo não sabia o que responder sem se sentir terrivelmente atraída a aproximar-se da figura de Homem que tantas vezes desejara ter a seu lado, vezes demais... 
Precisava de se distrair com urgência  necessitava de ganhar uns minutos realizando uma tarefa qualquer, onde pudesse meditar sobre o que iria dizer.
Encaminhou-se para a cozinha estreita e ligou a máquina de café, o estimulo da cafeína ajudaria na clareza do raciocínio, ou assim esperava.
- Jade aquilo que eu tenho para te dizer é importante... - Gabriel segui-a no caminho tomado enquanto esta lavava meticulosamente uma chávena. -Pára! - exclamou no limite da paciência agarrando-a pelo braço e voltando-a para si, o pedaço de loiça que lavava escorregou-lhe pelas mãos ensaboentadas e estilhaçou se em dezenas de pedaços brancos aos seus  pés, quebrou-se como ela se sentia a quebrar a qualquer segundo. - Para de fugir! - Gabriel apertou-lhe novamente o braço numa intensidade que resvalava o brotar do seu amedrontar.
- Sai, por favor. - O olhar brilhante fitava-o directa e incisivamente na pupila tentando persuadi-lo, com a comoção da sua fragilidade, o ponto fraco do homem com quem se envolvera durante anos, a sua fragilidade.- Já fizeste o suficiente, agora sai. - libertou-se lentamente dele enquanto este retomava a si e deixava a fúria da impaciência desvanecer-se no amanhecer que se aproximava lentamente, tal como o lusco-fusco que sempre adorara observar, que sempre haviam adorado os dois observar, nas longas noites passadas e nas manhãs demasiadamente curtas, separados pelo cruzamento das vidas desfasadas no curso e no tempo.
Vinte e três anos de vida a mais, separavam os corpos que se atraíram  desde o primeiro instante, como ímans  um ao outro, sempre na irresistibilidade de se perderem no encaixe soberbamente perfeito que dois corpos podiam ter, ele tinha sido o seu refugio e a sua catástrofe, a montanha russa cujos carris haviam enferrujado bem no topo, no cume da paixão, deixando-a lá perpétuamente sozinha no medo excruciante de saltar, pois se saltasse...o que seria deles? 
O que seria dela sem aquele sentimento, embora embrutecido pelo tempo e pelas condicionantes, preferia conserva-lo assim no receptáculo da alma inundada do que ficar totalmente vazia do melhor e do pior que jazia em si na profundidade melindrada pelas inúmeras situações mal resolvidas, mal faladas, mal remendadas...
- Não vou ficar aqui muito tempo...não sei quanto tempo ao certo, mas calculo que seja breve. Não sei sequer se conseguirei ver a Nicole...- esclareceu por fim o homem abatido com a incapacidade de sucesso na conversa que pretendia ter.
- Isso... - assentiu Jade apertando o robe contra o corpo como que se protegendo da exposição, que parte de si ardia que ele visse. - Volta para a Europa e deixa-me sossegada... para que eu possa voltar para a minha amiga. - proferiu gelidamente, um gelo que lhe dilacerava o interior em ebulição,  reflectido na magoa do rosto triste com as palavras atiradas.
No culmino de forças e enjoada com o cheiro a café que exalava da cozinha, um odor que tanto adorava, e que agora lhe era insuportável de suportar, voltou costas em direcção ao quarto temendo que se Gabriel a tocasse mais alguma vez, se permitisse o reacender da chama extinta, que precisava que permanece apagada, liquidada para o bem dela, dele e de todos.
Despertou por segundos da turbulência das emoções quando ouviu o telemóvel a vibrar algures perdido na sua mala, limpou o rosto das lágrimas corridas e surpreendeu-se pelo nome , o ultimo nome  que queria ver posto naquele ecrã, era Nicole...hesitou em atender mas algo a impelia a fazê-lo.
- Nicole? - teve um pressentimento estranho no momento em que ouviu a voz descontrolada, cujas palavras careciam nexo  - Nicole , estas bem? -indagou com o coração a rebentar de expectativa.
- O meu... - delongou-se numa pausa angustiante - O meu pai está morto Jade, ligaram-me agora, o meu pai está... - o silêncio apoderou-se de ambas, da amiga no pranto desmesurado e dela que se voltou com a máxima rapidez da sua vida correndo como nunca correra para a cozinha.
Estava vazia...a cozinha estava vazia...
Susteve a respiração...não conseguia respirar.. não conseguia...

Sarah Moustafa



Dissolvência- Capitulo II (As linhas ténues entre a realidade e a ilusão)



Capitulo II- As linhas ténues entre realidade e a ilusão



Não sabia por onde caminhava , só sabia que tinha de prosseguir na marcha que as pernas cansadas tomavam no trilho desconhecido. 
O pesado vestido que envergava, no desconhecimento de como e porquê o vestia, na incógnita desconcertante da certeza que não podia parar.
O corredor extenso e sombrio onde seguia numa arrepiante convicção , de se estar aproximar de algo que fazia todas as partículas da sua constituição tremer, mas não sabia se vibrava por medo ou por êxtase, e como era possível não saber?
A melodia de uma sinfonia clássica ecoava indistintamente num som deliciosamente agradável aos sentidos despertos nos mistérios perseguidos.
Sentiu um leve sopro quente a acariciar-lhe a nuca descoberta e voltou-se rapidamente de coração descompassado e pernas bambas na tentativa ofegante de entender o que se passava consigo e com aquele espaço incompreensivelmente secreto.
Voltou-se na direcção da aragem sentida e o negrume do corredor longínquo continuava igual, sem o acréscimo de absolutamente nada de novo.
Engoliu em seco sentindo um latejar de dor na cabeça até então adormecida.
Respirou fundo com o desespero a despontar enquanto a dor lhe apertava os sentidos numa acutilante propagação, pressentiu um desfalecimento eminente, encostou-se á parede fria e deixou o corpo escorregar massajando as fontes numa tentativa de acalmia da aflição.
A música assemelhava-se agora a uma incontável estridência de notas gritantes nos ouvidos sensibilizados, as entranhas revolviam-se num tumulto profundo.
Julgou que iria verter o suplicio na indisposição máxima do estômago incandescente, num ultimo recurso que o impulso físico lhe permitia, tacteou o chão de madeira talhada com as mãos entorpecidas procurando incessantemente uma escapatória do sufrágio onde se encontrava.
Os olhos turvos estreitavam-se no colapso emergente, sentiu a madeira estalar com os passos pesados de alguém que se aproximava lentamente, os passos eclodiam na proximidade com o seu corpo debilitado.
 - Precisas de voltar... Precisas de voltar Jade... -  As palavras enigmáticas enroladas na penumbra da silhueta indecifrável ecoaram numa distanciação continua, afastava-se mais e mais da realidade paralela onde se tinha embrenhado.
 -Espera... -Balbuciou nos restos de força. - Não espera! - gritou na aflição de sentir que o corpo retomava ao sono denso em que se encontrava na verdade dos factos.
Ergueu-se num ápice da cama, respirando pesadamente, não tinha passado de um pesadelo, não era mais do que um sonho estranho mas então porque tremia? 
Porque se sentia assolapada como se tivesse realmente presenciado aquele sonho em carne viva? Porque tinha o rosto molhado das lágrimas vertidas?
Forçou-se a acalmar o ritmo do coração antes que o ataque fulminante a visitasse, respirou fundo, inspirou e expirou com toda a placidez que ansiedade ainda crepitante lhe permitia. Colocou as pernas para fora da cama tocando com os pés descalços no chão frio de tijoleira, aludindo a conexão do corpo com a terra, com a realidade tangível onde as perturbações ficavam aquém dos véus misteriosos ocultos nos meandros da mente, que preferia não desvendar.
Contudo havia algo no disforme sonho que lhe soava familiar, não sabia definir, não sabia pormenorizar,  mas sentia-o, algo de terrivelmente familiar...
Sobressaltou-se com a estridência da campainha cuja sonoridade envolvia todo o pequeno apartamento rápida e irritantemente, Jade olhou de soslaio para o relógio na cabeceira constatando que era ainda madrugada, sentiu um aperto no estômago, um receio indecifrável patente na incomum situação, quem poderia ser aquela hora?
Suspirou cobrindo-se com o robe verde esmeralda, espreitou pelo óculo e o semblante atónito apossou-se do rosto tremendamente incrédulo. Destrancou a porta nervosamente e fitou quem diante de si figurava:
O que estás aqui a fazer?

Sarah Moustafa

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Dissolvência- Capitulo I




Prólogo

Quando reprimimos a existência da essência, do propósito fiel da ascensão, naturalmente alimentamos o fosso.
Cavamos o buraco cuja profundidade ecoa na extensão da alma. 
Corrompemos a natureza da existência, cativos nas frivolidades do espaço circundante.
Fechamos os olhos na carência do conforto que se aninha na doçura maquiavélica espelhada nos tentáculos imperceptíveis, que nos amarram á incredulidade de sermos os nossos próprios inimigos.
Os monstros que tememos desde a tenra idade estão cá dentro, bem interiorizados, incrustados ao milímetro da precisão.
De tal modo, que na ousadia da afirmação da própria vontade, do pensamento límpido, se inicia a revolução.
Se inicia, a tremenda Dissolvência.






Capitulo I

Dúvidas
 São fiéis
Até na infidelidade


Jade impacientava-se, e isso não era nunca, mesmo ao âmago da negação, tremendamente negativa, um bom agouro.
Os 22 anos de existência assim o comprovavam, pois na aparente serenidade que usualmente a revestia, a explosão impulsiva da atitude directa a uma manifestação espontânea, era de tal raridade, como de degustar favas á refeição.
E agora que reagia abruptamente á situação presente, delongou-se nesse pensamento, nessa interrogação da falta de impulsividade no cerne da personalidade.
Talvez porque fosse uma maníaca do controlo que irremediavelmente procurava estruturar as coisinhas do quotidiano na perfeição possivelmente executável.
Ou talvez porque no desespero da apreciação geral, da inserção do molde esperado, acomodava-se ao silêncio das próprias vontades.
Teria de pensar mais tarde nos porquês da inexistência da acção recorrente, porque naquele exacto segundo de momento teria, com bom grado ou não, de agir.
- Não consigo… Não quero falar! - Explodiu na improbabilidade do costume, enquanto apressava o passo em direcção ao carro bastante mal estacionado. A condução muito pouco praticável no aperto da cidade. A condução atrapalhada e insegura, bem reflexiva de si mesma.
- Espera, não me deixaste acabar a conversa! Como podes reagir assim sem saber o resto da história? – Interrogou quem em seu encalço seguia, o robusto terrível Bruno. O homem iniciador daquilo a que chamamos de catastroficamente errado. 
A sua erroneidade consista na infidelidade tangível do compromisso inerente entre duas pessoas, uma relação, ou naquilo que se concluía agora, por várias.
 Jade inspirou o entardecer gélido, sazonalmente invernoso e triste. 
Triste como agora os olhos se espelhavam, os olhos imensamente grandes, os olhos de avelã, como alguém carinhosamente, em tempos idos os adjectivara...
A tristeza do triste fado em que se enrolava constantemente, a incerteza da certeza de sentir.
O pesar não era a traição de Bruno, não consistia nas demandas românticas da monogamia, mas na inexistência da conexão entre dois seres, onde aí sim, a deslealdade magoaria em toda a extensão possível e imaginária. Onde as entranhas ebuliriam num impacto transcendente á medida do amor, ao jus da palavra poética, mas tão longínqua para quem agora deixava uma lágrima, apenas uma gotícula da imensidão suposta, correr pelo rosto de tez dourada.
Bruno fitou a imagem também em pesar, pois aquela rapariga era a mais complexa com que alguma vez se tinha envolvido, aquela que lhe exigia as energias do além, no exercício da descoberta de si mesmo, aquela que lhe cuidava de todos os chatos detalhes diários e ainda assim permanecia impecável na beleza correspondente, aquela que ainda bela era a mais inteligente, aquela que acreditava no bem onde nem ele mesmo conseguia afiançar.
 Aquela que demonstrava uma luz radiosa em toda a sua construção, mas que por desalento da criação se impedia de brilhar. 
O único e suficiente problema para a relação não funcionar, a desconexão total da mente e do corpo e de se entregar ao seu domínio.
- Não precisas de dizer nada, não precisas de explicar… Porque... – Hesitou nas palavras grotescas que vociferavam, presas por um fio, na língua hesitante. Porque simplesmente não me importa!
- Não te importa? – Bruno carregou o semblante desconcertado pelas vagas respostas que recebia. – Como assim não te importa? Jade, eu sei que é muito para aceitar, mas se trabalharmos para isso, a nossa relação ainda pode funcionar! Tu sabes que sim, és a própria a dizê-lo, só falta ….
- Comprometermo-nos… - por fim o diálogo caminhava no trilho correcto, no trilho onde ela não queria chegar, onde teria de lidar com a sua própria incompreensão, mas a verdade saiu-lhe num sussurro ténue, quase inaudível, Quase…

***
As horas no Inverno encurtavam e a noite e o seu breu cobriam tal, véu encantado, grande parte do dia.
Mas para Jade as horas, permaneciam no mais do tudo do mesmo, que diferença fazia se os ponteiros do relógio assinalavam um tempo especifico?
Para ela era tudo igual, se era dia ou se era noite, se fazia frio ou calor, as simplórias questões do ordinariamente comum, não lhe interessavam e sobretudo não naquele dia. 
No dia, em que por mais uma vez, uma relação terminou, em que por mais uma vez se sentiu aliviada por assim acontecer.
Mas esse alívio era tumulto intempestivo da revolta interior. 
A circulação que não seguia no trilho das veias supostas.
O AVC culminante da melancolia do pensar e nada mais do que isso, sempre envolta na mente que não sossega e que por isso paga caro, paga com a carência manifesta de um corpo que não se conecta. Que não se amarra nos laços cor-de-rosa que o universo da paixão lhe deveria provocar.
O olhar cor de mar, do agora ex-namorado, embruteceu no gélido momento, em que a verdade ascendeu na boca, que a tormenta não conseguia mais segurar. E a silhueta do homem com que se compartilhou durante meses partiu. Todos partiam, seguiam as vidas com uma férrea vontade, com certa constância, que invejava tremendamente. 
Todos partiam, menos ela, cativa na eternidade da inercia, cativa na onda que a capturou.
Estacionou o veículo na garagem do T1 onde residia, mas deixou-se estar na penumbra. Não conseguia sair, não conseguia retomar a mesma rotina, não naquele momento em que as forças careciam, não naquele momento onde apenas queria derramar o que por seu era direito, derramar a agua que inundava muito mais dos que os olhos.

Sarah Moustafa